Mendonça cobra PGR sobre mensagem de Vorcaro a Moraes que cita ‘proteção’ de Gonet e Andrei

Uma mensagem de WhatsApp atribuída ao banqueiro Daniel Vorcaro entrou no centro de uma nova frente de apuração no Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro André Mendonça solicitou à Procuradoria-Geral da República (PGR) informações complementares sobre o conteúdo de uma comunicação na qual Vorcaro afirma precisar da “proteção” do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do procurador-geral da República, Paulo Gonet. Segundo relatório elaborado pela própria Polícia Federal, o destinatário da mensagem seria o ministro Alexandre de Moraes. A informação foi divulgada pela jornalista Andreza Matais, colunista do Metrópoles, e coloca sob análise uma comunicação que envolve nomes importantes das instituições responsáveis por investigações e decisões de grande repercussão no país.
O episódio ganha novos contornos porque Moraes, Gonet e Andrei Rodrigues aparecem relacionados a um mesmo evento realizado em Londres, em abril de 2024. Os três participaram, segundo registros apresentados à CPMI do INSS, de uma degustação de whisky Macallan promovida em 25 de abril daquele ano no George Club, em Mayfair. A confraternização ocorreu paralelamente ao 1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias, que teve patrocínio do Banco Master. O evento de degustação teve custo informado de US$ 640.831,88, valor equivalente a aproximadamente R$ 3,2 milhões na cotação daquele período, e reuniu cerca de 40 convidados. Em uma sessão reservada do STF, Moraes confirmou sua presença e relatou que esteve no encontro ao lado de Andrei Rodrigues, mencionando também a ida posterior do grupo a um pub.
Outro ponto que chama atenção na apuração é a existência de um contrato firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, ligado à família do ministro Alexandre de Moraes. O acordo foi assinado em janeiro de 2024 e previa 36 pagamentos mensais de aproximadamente R$ 3,6 milhões, chegando a um valor total de R$ 129 milhões caso todas as parcelas fossem cumpridas até o início de 2027. O documento estabelecia uma atuação ampla do escritório em questões estratégicas, consultivas e judiciais, incluindo demandas perante o Judiciário, Ministério Público, Polícia Federal, Banco Central, Receita Federal, Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, Conselho Administrativo de Defesa Econômica e Congresso Nacional. A dimensão financeira e o alcance das atividades previstas fizeram com que o acordo passasse a ser mencionado no contexto das informações atualmente analisadas.
Mensagens recuperadas do celular de Daniel Vorcaro também passaram a integrar o conjunto de informações relacionadas ao contrato. Conforme os dados citados na apuração, Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro e sócia do escritório, teria encaminhado diretamente ao banqueiro uma minuta do acordo em 17 de janeiro de 2024. Posteriormente, com a liquidação do Banco Master, o contrato foi encerrado. Registros da Receita Federal indicam pagamentos que chegaram à ordem de R$ 80 milhões entre 2024 e 2025. A existência desses valores, porém, precisa ser analisada dentro do contexto documental e jurídico do acordo, sem que a simples presença de pagamentos seja, por si só, indicativa de irregularidade.
O contrato já havia sido levado ao conhecimento da Procuradoria-Geral da República antes do atual pedido de informações feito por Mendonça. Em dezembro de 2025, Paulo Gonet decidiu arquivar uma representação apresentada pelo advogado Ênio Martins Murad, que questionava o acordo e levantava possíveis implicações envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e o Banco Central. Na ocasião, o procurador-geral afirmou não identificar, naquele momento, elementos que justificassem a atuação da PGR e destacou que negócios jurídicos celebrados entre particulares, especialmente aqueles relacionados à atividade profissional da advocacia, possuem proteção decorrente da autonomia contratual. Gonet também apontou a ausência de elementos mínimos que sustentassem uma apuração sobre eventual pressão exercida por Moraes perante o Banco Central.
É justamente a combinação desses acontecimentos que levou a uma nova solicitação de esclarecimentos no STF. De um lado, está a mensagem na qual Vorcaro menciona a necessidade de “proteção” de Gonet e Andrei Rodrigues e que, segundo a PF, teria sido enviada a Alexandre de Moraes. De outro, estão o contrato de R$ 129 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório da família do ministro, os pagamentos registrados posteriormente e a participação de autoridades em um evento realizado em Londres com patrocínio ligado à instituição financeira. O pedido de Mendonça, neste momento, busca obter informações adicionais sobre a mensagem e seu contexto. A análise desses elementos deverá considerar documentos, datas, relações institucionais e manifestações oficiais, evitando conclusões antecipadas enquanto os fatos ainda são objeto de avaliação pelas autoridades competentes.





