Crise muda o STF? Fachin aponta três medidas que considera urgentes para a Corte

Fachin defende adoção do código de ética e fim do inquérito das fake news
Fachin defende adoção do código de ética para o Supremo Tribunal Federal (STF) e considera urgente encerrar o chamado inquérito das fake news, aberto em 2019 e atualmente relatado pelo ministro Alexandre de Moraes. A manifestação foi feita nesta sexta-feira (4), durante cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília, em um momento de forte tensão dentro da Corte. Ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e de outras autoridades, Edson Fachin relacionou os acontecimentos recentes a três objetivos de sua gestão: estabelecer regras éticas para a Corte, concluir o inquérito e modernizar o sistema de Justiça. Entretanto, o presidente do Supremo também sinalizou cautela. Segundo ele, os fatos serão apurados de acordo com a Constituição e a legislação, sem decisões precipitadas e, ao mesmo tempo, sem omissão diante das questões que passaram a pressionar institucionalmente o tribunal.
Fachin defende adoção do código de ética em momento de tensão
A defesa de um código de ética ganha peso porque ocorre justamente quando a conduta de integrantes do próprio Supremo passou a ocupar o centro do debate público. Embora magistrados estejam submetidos a deveres constitucionais e legais, a proposta defendida por Fachin busca estabelecer parâmetros institucionais mais claros para questões éticas envolvendo a Corte. Além disso, o presidente do STF afirmou que nenhuma autoridade está acima da Constituição e nenhum Poder pode se colocar acima da lei. Dessa forma, a mensagem apresentada no Planalto procurou conciliar duas necessidades: preservar a credibilidade da instituição e permitir que eventuais questionamentos sobre seus integrantes sejam examinados dentro das regras jurídicas. Fachin declarou ainda que a resposta institucional será firme, proporcional e rigorosa. Portanto, a adoção de um código aparece em seu discurso não apenas como uma proposta administrativa, mas como parte de uma estratégia mais ampla de fortalecimento da confiança pública no Supremo.
Fim do inquérito das fake news volta ao centro do debate
Outro ponto de grande repercussão foi a defesa do encerramento do inquérito das fake news, formalmente registrado como Inquérito 4.781. A investigação foi instaurada de ofício em março de 2019 pelo então presidente do STF, Dias Toffoli, e Alexandre de Moraes foi designado relator. Inicialmente, o procedimento buscava investigar ameaças, ofensas e conteúdos fraudulentos direcionados contra ministros do Supremo e seus familiares. Entretanto, ao longo dos anos, sua duração e abrangência passaram a gerar intenso debate jurídico e político. Fachin já havia defendido anteriormente uma discussão sobre sua conclusão e afirmou, em março, que conversava com Moraes e outros ministros sobre o assunto. Assim, a ideia não surgiu somente em razão da crise desta semana. A novidade, contudo, está no fato de o presidente do STF ter relacionado expressamente os acontecimentos recentes à urgência de encerrar o procedimento.
Confronto entre Moraes e Mendonça aumentou pressão sobre o Supremo
O pano de fundo da declaração envolve a escalada das divergências entre Alexandre de Moraes e André Mendonça nos desdobramentos das investigações relacionadas ao Banco Master. Informações obtidas pela Polícia Federal em materiais vinculados ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro passaram a levantar questionamentos envolvendo Moraes, enquanto a própria maneira como esses elementos foram tratados na investigação também passou a ser contestada. Posteriormente, Moraes apresentou acusações contra Mendonça relacionadas à condução de apurações e pediu providências sobre possíveis irregularidades. Contudo, essas acusações permanecem sob análise e não representam comprovação de responsabilidade. Além disso, a Procuradoria-Geral da República questionou procedimentos adotados na investigação. Consequentemente, o Supremo passou a enfrentar simultaneamente discussões sobre o conteúdo dos elementos encontrados, os métodos utilizados para obtê-los e o comportamento das autoridades envolvidas. Nesse cenário, Fachin assumiu papel central na organização da resposta institucional da Corte.
Fachin defende adoção do código enquanto reorganiza procedimentos
A crise produziu inclusive uma decisão diretamente relacionada ao inquérito das fake news. Horas antes do discurso no Palácio do Planalto, Fachin determinou que o pedido apresentado por Moraes contra Mendonça fosse retirado desse inquérito e passasse a ser analisado em procedimento sob sua relatoria. A medida chama atenção porque, pouco depois, o próprio presidente do STF colocou o encerramento do Inquérito 4.781 entre as prioridades de sua gestão. Entretanto, isso não significa que as acusações contra Mendonça tenham sido arquivadas ou consideradas procedentes. Pelo contrário, a controvérsia passou a tramitar por outro caminho processual. Ao mesmo tempo, manifestações das autoridades envolvidas estão sendo reunidas para permitir uma avaliação mais ampla dos acontecimentos. Dessa maneira, decisões vêm sendo tomadas para organizar juridicamente o conflito antes de eventual análise colegiada, enquanto Fachin procura afastar a percepção de que uma resposta seria construída de maneira precipitada.
Legalidade e devido processo são colocados como limites da reação
Apesar do tom firme, Fachin ressaltou que a gravidade das informações divulgadas não permite abandonar garantias constitucionais. Em outras palavras, quanto maior a repercussão das acusações, maior deverá ser, segundo sua posição, o compromisso com legalidade, devido processo e direitos das partes envolvidas. Esse aspecto é especialmente relevante porque a crise mistura questões jurídicas, institucionais e políticas em um período de grande exposição pública do Supremo. Por um lado, deixar questionamentos importantes sem resposta poderia aumentar a desconfiança em relação à Corte. Por outro, transformar suspeitas ainda não examinadas em conclusões antecipadas também poderia comprometer a legitimidade do processo. Portanto, a Presidência do STF procura estabelecer uma linha intermediária: os fatos deverão ser investigados, mas responsabilidades somente poderão ser definidas depois da análise das evidências e das manifestações dos envolvidos. Nesse sentido, preservação institucional e fiscalização dos próprios integrantes não precisam ser objetivos incompatíveis.
Fachin defende adoção do código e aponta mudanças para o futuro do STF
Por fim, quando Fachin defende adoção do código de ética, o fim do inquérito das fake news e a modernização da Justiça, o presidente do Supremo amplia a discussão para além da crise imediata. O desafio será transformar essas três prioridades em medidas concretas e definir como elas serão implementadas sem comprometer a independência judicial. O encerramento do inquérito, por exemplo, envolve um procedimento aberto há mais de sete anos e que adquiriu grande relevância institucional. Já um código de ética precisará estabelecer parâmetros suficientemente claros para aumentar transparência e confiança sem interferir indevidamente na atividade jurisdicional. Além disso, a modernização do Judiciário envolve questões administrativas e tecnológicas muito mais abrangentes. Assim, os acontecimentos desta semana funcionaram como catalisadores de um debate que já existia. A crise poderá, portanto, produzir consequências duradouras para o funcionamento interno do Supremo e para a forma como a Corte responde a questionamentos sobre seus próprios integrantes.





