Brics pode virar ponte no Oriente Médio? Mauro Vieira explica aposta do Brasil

Brics pode ajudar a resolver diferenças no Oriente Médio, diz Mauro Vieira
O Brics pode ajudar a resolver divergências entre países envolvidos direta ou indiretamente nas tensões do Oriente Médio, segundo avaliação do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. O chanceler representa o Brasil na 18ª Cúpula do Brics, realizada neste fim de semana em Nova Délhi, na Índia, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva permanece no Brasil concentrado na reta final da campanha eleitoral. A reunião ocorre em um momento particularmente complexo: além do conflito no Oriente Médio, permanecem na agenda internacional a guerra entre Rússia e Ucrânia, disputas comerciais, tensões entre grandes potências e discussões sobre reformas das instituições multilaterais. Nesse contexto, Vieira considera que o tamanho relativamente restrito do Brics e o contato direto entre representantes de países com posições distintas podem facilitar conversas diplomáticas que seriam mais difíceis em fóruns maiores. Entretanto, essa possibilidade não significa que o bloco possua poder para impor um acordo. Seu principal instrumento continua sendo a negociação política entre governos soberanos.
Brics pode ajudar a resolver divergências por meio do diálogo direto
A avaliação de Mauro Vieira ganha relevância porque a atual composição do Brics reúne governos com interesses geopolíticos bastante diferentes. Hoje, o grupo é formado por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos, Indonésia e Arábia Saudita, embora a representação de cada país na cúpula possa ocorrer em níveis diferentes. Portanto, a ampliação aumentou o peso econômico e demográfico do bloco, mas também tornou mais difícil construir posições consensuais. No Oriente Médio, por exemplo, Irã e Emirados Árabes Unidos possuem interesses regionais distintos, enquanto outros integrantes mantêm relações econômicas, diplomáticas e estratégicas diferentes com Estados Unidos, Israel e países árabes. Ainda assim, Vieira vê justamente nessa diversidade uma oportunidade. Segundo sua interpretação, reuniões menores permitem maior informalidade e contato direto entre autoridades. Dessa forma, divergências podem ser discutidas sem que necessariamente seja produzido um acordo imediato. A diplomacia, afinal, também funciona pela criação gradual de canais capazes de reduzir desconfianças e evitar que diferenças políticas se transformem em rupturas permanentes.
Guerra no Oriente Médio coloca capacidade diplomática do bloco à prova
A crise no Oriente Médio será, consequentemente, um dos principais testes para essa tese. O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, chegou a Nova Délhi nesta sexta-feira (11) para participar da reunião, enquanto os Emirados Árabes Unidos também estão representados no encontro. Além disso, o conflito já produz consequências econômicas que ultrapassam a região, sobretudo por causa das oscilações nos preços de petróleo e gás e dos riscos para rotas comerciais e marítimas. Antes da abertura formal da cúpula, Vieira reuniu-se com o chanceler indiano Subrahmanyam Jaishankar, e a situação geopolítica internacional esteve entre os assuntos discutidos. Ao mesmo tempo, Narendra Modi e Vladimir Putin abordaram os efeitos dos conflitos do Oriente Médio sobre o comércio marítimo. Portanto, a questão não será analisada somente como problema militar ou diplomático: energia, transporte, comércio e inflação também estão conectados à crise. Por outro lado, a presença dos envolvidos no mesmo fórum não garante convergência. Para que o Brics produza resultados, será necessário transformar encontros diplomáticos em compromissos que os governos estejam dispostos a cumprir posteriormente.
Mauro Vieira rejeita ideia de Brics como bloco contra os Estados Unidos
Outro ponto enfatizado pelo chanceler brasileiro é que o Brics pode ajudar a resolver problemas internacionais sem necessariamente assumir a posição de uma aliança contrária aos Estados Unidos ou ao Ocidente. Vieira rejeitou essa interpretação e apresentou o grupo como mecanismo de cooperação entre economias emergentes e países do chamado Sul Global. A afirmação é especialmente relevante porque existem diferentes visões dentro do próprio Brics sobre sua função geopolítica. A Rússia defende uma atuação mais forte e independente das estruturas dominadas pelas potências ocidentais, enquanto Índia e Brasil tradicionalmente procuram preservar relações relevantes tanto com integrantes do bloco quanto com Estados Unidos e Europa. Além disso, o Brics vem defendendo reformas em instituições como Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial para ampliar a representação das economias emergentes. Portanto, buscar maior influência na governança global não significa necessariamente construir uma aliança formal antiocidental. Contudo, as diferenças de visão sobre essa questão representam um dos desafios para a unidade política do grupo.
Economia e empresas brasileiras também entram na agenda em Nova Délhi
Enquanto as discussões geopolíticas atraem maior atenção, a agenda econômica continua sendo uma das bases do Brics. Nesta sexta-feira, Mauro Vieira participou das atividades relacionadas ao Fórum Empresarial do grupo e defendeu uma aproximação maior entre os setores produtivos dos países membros. Empresas brasileiras como Embraer, Vale, WEG e Banco do Brasil estiveram envolvidas nas discussões empresariais, segundo as informações divulgadas sobre a programação. O objetivo é ampliar oportunidades comerciais, investimentos e cooperação entre economias que possuem características bastante diferentes. Além disso, ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais dos países do Brics defenderam reformas das instituições financeiras multilaterais e avanços em sistemas de pagamentos internacionais mais rápidos e baratos. Foram manifestadas, ainda, preocupações com tarifas, barreiras comerciais e outras medidas unilaterais que, segundo o comunicado do grupo, prejudicam economias emergentes. Dessa maneira, diplomacia e economia aparecem interligadas: quanto maior a relação comercial entre os integrantes, maior tende a ser também o incentivo para preservar canais políticos de negociação.
Brics ampliado ganha influência, mas também enfrenta mais divergências
A expansão do Brics, entretanto, produz uma espécie de paradoxo. Por um lado, o grupo representa atualmente uma parcela expressiva da população e da economia mundiais, o que amplia sua capacidade de participar dos debates sobre comércio, desenvolvimento, energia e reforma da governança internacional. Por outro lado, quanto maior e mais heterogêneo o bloco se torna, mais difícil pode ser alcançar consenso sobre crises específicas. Índia e China, por exemplo, carregam um histórico de disputas fronteiriças e competição regional; Rússia mantém seu conflito com a Ucrânia; e o Irã ocupa posição central nas atuais tensões do Oriente Médio. Ainda assim, essas divergências não tornam o fórum necessariamente irrelevante. Pelo contrário, reunir governos que normalmente defendem interesses diferentes pode criar oportunidades para contatos que dificilmente ocorreriam com a mesma frequência em outros espaços. Porém, é necessário diferenciar diálogo de mediação efetiva. Para atuar diretamente na solução de um conflito, seriam necessários interesse das partes, propostas concretas e algum grau de confiança nos interlocutores. A cúpula poderá mostrar até onde essa capacidade realmente existe.
Brics pode ajudar a resolver conflitos, mas resultado dependerá dos próprios países
Por fim, a avaliação de que o Brics pode ajudar a resolver diferenças no Oriente Médio coloca em evidência uma das ambições mais importantes do bloco ampliado: transformar peso econômico e diversidade política em capacidade diplomática. A Cúpula de Nova Délhi, que reúne importantes lideranças internacionais entre 12 e 13 de setembro, oferecerá uma oportunidade concreta para testar essa hipótese. Ao mesmo tempo, seria precipitado tratar o Brics como mediador capaz de solucionar sozinho guerras ou rivalidades históricas. O grupo não possui uma política externa única, tampouco seus membros compartilham necessariamente os mesmos aliados ou objetivos estratégicos. Entretanto, canais de comunicação podem ser fortalecidos, reuniões bilaterais podem ser realizadas e propostas podem ser discutidas fora das estruturas tradicionais dominantes na diplomacia internacional. Assim, a principal contribuição imediata poderá ser menos espetacular, porém relevante: manter adversários conversando. Se essa aproximação produzir acordos concretos dependerá, sobretudo, das decisões dos próprios governos envolvidos e da disposição deles para transformar diálogo político em compromissos verificáveis.





