PF entrega conteúdo do celular de Vorcaro aos gabinetes de Zanin e Gilmar no STF

A Polícia Federal encaminhou o conteúdo integral do aparelho celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro aos gabinetes dos ministros Cristiano Zanin e Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. A medida atende a determinações formuladas pelos dois magistrados neste domingo, 13, e insere-se no centro de uma das mais profundas tensões institucionais vividas pela Corte nos últimos anos. O pano de fundo da disputa são as investigações ligadas ao Banco Master e as mensagens trocadas entre o banqueiro e o ministro Alexandre de Moraes, que serão analisadas pelo plenário na terça-feira, 15.
Cristiano Zanin havia estabelecido prazo até as 23h de domingo para que o material fosse remetido. Em seu ofício, o ministro defendeu que o acesso ao conteúdo é essencial para que possa formar sua convicção antes da sessão, “independentemente de outras implicações que o material possa indicar”. Zanin ressaltou ainda um princípio fundamental da instituição: “Não existe hierarquia entre os ministros do Supremo Tribunal Federal”, expressão que sinaliza a busca por igualdade de condições entre todos os julgadores. Gilmar Mendes também enviou manifestação no mesmo sentido, reforçando a necessidade de acesso amplo aos dados.
A posição dos dois magistrados contrasta com a postura do ministro André Mendonça, relator do caso. Ele havia se posicionado contra a liberação imediata de todo o conteúdo, argumentando que a divulgação poderia tumultuar o julgamento de terça-feira e prejudicar o andamento das investigações. Para Mendonça, o material já disponível seria suficiente para a análise do plenário, e a liberação integral antes da sessão traria riscos ao devido processo. A divergência expôs publicamente a divisão interna da Corte a poucas horas da decisão.
O cerne da questão está na sessão extraordinária marcada para terça-feira, às 10h, quando os ministros avaliarão o relatório elaborado pela Polícia Federal. O documento reúne registros de conversas entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, e a deliberação poderá tomar dois caminhos distintos: autorizar a abertura de investigação formal contra o ministro ou acolher o pedido da Procuradoria-Geral da República e considerar nulo o procedimento que originou o relatório. A PGR sustenta, desde 1º de setembro, que o material foi produzido sem autorização competente.
A disputa pela disponibilidade dos dados revela como a confiança entre os membros da Corte foi abalada. De um lado, defende-se que todos devem ter acesso aos mesmos elementos para decidir com clareza; de outro, argumenta-se que a publicidade prematura pode comprometer a lisura dos trabalhos. A entrega do conteúdo integral aos gabinetes de Zanin e Mendes representa um passo na direção da transparência reivindicada, mas também deixa claro que não há consenso sobre a forma e o momento de compartilhamento das informações.
A sociedade acompanha os desdobramentos com atenção, ciente de que a decisão de terça-feira transcende o caso específico e definirá padrões de conduta e independência dentro do Supremo. O acesso igualitário às provas, a observância dos ritos legais e a capacidade da Corte de deliberar com serenidade são valores que estão em jogo. Os próximos dias mostrarão se a instituição conseguirá restabelecer a unidade em meio a divergências profundas ou se as divisões continuarão a marcar suas decisões.





