Pessoas e empresas poderão sofrer sanções dos EUA nas próximas semanas

Os Estados Unidos avaliam aplicar novas sanções contra pessoas, empresas e instituições no Brasil que sejam apontadas como relacionadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho (CV). Segundo autoridades ouvidas pela Folha sob condição de anonimato, as investigações americanas sobre as organizações criminosas foram intensificadas nos últimos meses. O trabalho envolve órgãos como o Departamento do Tesouro, o Departamento de Justiça e o FBI, que passaram a rastrear movimentações financeiras e possíveis conexões entre os grupos e pessoas no Brasil.
A apuração americana busca identificar como recursos atribuídos às facções circulam pelo território dos Estados Unidos e quais seriam as origens e destinos dessas transações. A partir desses dados, cruzamentos de informações estão sendo realizados para verificar possíveis vínculos com residentes, empresas e instituições brasileiras. Caso novas conexões sejam identificadas, indivíduos ou organizações poderão entrar no radar das autoridades americanas para futuras medidas financeiras.
A possibilidade de novas sanções ocorre depois que Washington ampliou as medidas contra o PCC e o CV em 2026. Em maio, as duas organizações foram classificadas pelos Estados Unidos como Terroristas Globais Especialmente Designados e, posteriormente, também receberam a designação de organizações terroristas estrangeiras, ampliando os instrumentos disponíveis para bloquear ativos e restringir determinadas transações.
Sanções dos Estados Unidos entram em nova fase
Em julho, o Departamento do Tesouro americano anunciou a primeira ação baseada nessa nova abordagem contra integrantes de uma rede ligada ao PCC. Foram sancionados dois brasileiros, três empresas sediadas em São Paulo e uma companhia portuguesa, segundo o órgão, por envolvimento em uma estrutura de lavagem de dinheiro relacionada à facção. As medidas foram aplicadas pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros, conhecido pela sigla OFAC.
A nova possibilidade de sanções também está relacionada ao monitoramento de operações financeiras que tenham passagem pelo sistema americano. A designação do PCC e do CV permite que pessoas e empresas envolvidas em determinadas transações com os grupos sejam submetidas a medidas previstas pela legislação dos Estados Unidos. Assim, relações financeiras consideradas proibidas pelas autoridades americanas podem resultar em bloqueios de ativos e outras restrições.
Ao mesmo tempo, o governo de Donald Trump aumentou as críticas públicas ao Brasil em relação ao combate às facções criminosas. Em documento enviado ao Congresso americano em 15 de setembro, a Casa Branca afirmou que o PCC e o CV transformaram o Brasil em um centro para fluxos globais de cocaína e defendeu a adoção de medidas consideradas firmes contra os grupos.
Governo brasileiro contesta críticas de Washington
Apesar das críticas americanas, o Brasil não foi incluído no relatório de Washington entre os países classificados formalmente como grandes produtores ou importantes rotas de narcotráfico. O país também não recebeu a classificação reservada a governos que, segundo os Estados Unidos, falharam de forma demonstrável em cumprir compromissos relacionados ao combate às drogas. Dessa forma, a crítica dirigida ao governo brasileiro no documento não acionou as consequências previstas para os países enquadrados nessas categorias.
O Ministério da Justiça e Segurança Pública contestou a avaliação do governo Trump e afirmou que os Estados Unidos desconsideraram iniciativas brasileiras de combate ao crime organizado. A pasta citou a cooperação existente entre os dois países e mencionou medidas adotadas pelo governo federal, incluindo a Lei Antifacção e um pacote de R$ 11 bilhões anunciado em maio. Segundo o ministério, o Brasil seguirá atuando de maneira soberana e coordenada no enfrentamento das organizações criminosas.
Enquanto a pressão internacional aumentou, operações contra as facções também foram realizadas no Brasil, incluindo investigações sobre a atuação do crime organizado em setores econômicos. Em São Paulo, a Operação Vectura Corrupta apurou uma possível infiltração do PCC no sistema de transporte coletivo e teve entre os alvos o ex-presidente da Câmara Municipal Milton Leite, que foi preso e negou ligação com a organização criminosa. A investigação afirma que empresas do setor teriam sido controladas pela facção, alegação que ainda é objeto de apuração e contestação pelos envolvidos.
Investigações financeiras podem ampliar alcance das medidas
As novas sanções em avaliação pelos Estados Unidos fazem parte de uma estratégia que passou a considerar não apenas integrantes diretamente identificados das facções, mas também empresas e estruturas financeiras relacionadas às organizações. Segundo a reportagem, os investigadores americanos vêm procurando estabelecer conexões entre operações realizadas nos Estados Unidos e pessoas ou entidades localizadas no Brasil. O objetivo das apurações é identificar fluxos financeiros e possíveis relações que possam fundamentar futuras medidas.
O cenário também ocorre em meio a divergências entre Brasília e Washington sobre a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas. Enquanto o governo americano sustenta que a designação amplia os instrumentos de combate financeiro e criminal às facções, o governo brasileiro rejeitou a classificação e defendeu que o enfrentamento aos grupos continue sendo conduzido pelas autoridades nacionais. A eventual aplicação de novas sanções dependerá das investigações e das decisões das autoridades americanas responsáveis pelo processo.





