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Contrato de R$ 427 milhões e “Turma do KN”: o que revelam mensagens de Vorcaro

“Turma do KN” negociou contrato de R$ 427 mi com Master, apontam mensagens

“Turma do KN” negociou contrato que poderia gerar honorários de até R$ 427 milhões em causas relacionadas ao Banco Master, segundo mensagens e documentos obtidos pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro e encaminhados ao Supremo Tribunal Federal (STF). O material, divulgado inicialmente pelo Metrópoles e posteriormente confirmado pela CNN Brasil, relaciona a expressão “KN” ao ministro Kassio Nunes Marques, do STF e atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Já a referência à “turma” aparece associada, nas conversas analisadas pelas reportagens, ao desembargador federal Newton Ramos e à mulher dele, a advogada Camilla Ramos. Entretanto, a existência das mensagens e do contrato não representa, por si só, comprovação de irregularidade praticada pelo ministro ou pelos demais citados. Nunes Marques rejeita qualquer tentativa de associar sua atuação jurisdicional aos interesses do Banco Master e afirma que nunca conversou com Vorcaro nem autorizou terceiros a falar em seu nome.

“Turma do KN” negociou contrato milionário envolvendo 12 processos

O documento citado nas apurações foi firmado com o escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos Advocacia, do qual Camilla Ramos faz parte, para atuação em 12 processos relacionados ao setor sucroalcooleiro nos quais o Banco Master possuía interesses econômicos. De acordo com o contrato obtido pelas reportagens, foram previstos honorários de êxito equivalentes a 5% líquidos dos valores que fossem efetivamente recebidos pelo banco. Assim, considerando o valor estimado das causas, que poderia alcançar aproximadamente R$ 8,5 bilhões, os pagamentos ao escritório chegariam a cerca de R$ 427 milhões em caso de resultado favorável. Além disso, os honorários deveriam ser pagos poucos dias depois do recebimento dos recursos. As disputas envolvem indenizações e créditos relacionados a antigas políticas de controle de preços do setor de açúcar e álcool, e o Master aparece na documentação como credor ou cessionário de determinados direitos.

Precatórios e decisões nos tribunais entram no centro das mensagens

Nesse contexto, as mensagens recuperadas do aparelho de Vorcaro ganharam relevância porque algumas conversas tratavam do andamento das disputas judiciais e de decisões tomadas nos tribunais superiores. Em junho de 2025, por exemplo, uma mensagem atribuída a Camilla Ramos comemorava um voto proferido por Nunes Marques em julgamento realizado na Segunda Turma do STF. Contudo, o ministro afirma que o processo analisado pelo Supremo não correspondia às ações específicas defendidas pela advogada e que se tratava de uma discussão jurídica de caráter mais amplo, aplicável a diferentes empresas. Segundo sua manifestação, a tentativa de relacionar aquele julgamento diretamente aos serviços prestados ao Banco Master produziria uma associação incorreta entre processos distintos. Nunes Marques também sustenta que já havia adotado entendimento semelhante quando atuava no Tribunal Regional Federal da 1ª Região e nega ter votado para beneficiar Daniel Vorcaro ou o Banco Master.

Mensagens da “Turma do KN” também citam hospedagens e eventos

Além das questões jurídicas, outras conversas extraídas do celular de Vorcaro registram tratativas envolvendo hospedagens, eventos e pedidos atribuídos a pessoas identificadas pelos interlocutores como integrantes da chamada “Turma do KN”. Em fevereiro de 2025, por exemplo, um assessor de Vorcaro perguntou ao então banqueiro sobre a inclusão de seis nomes em um camarote, fazendo referência a Newton e à expressão usada pelo grupo. Posteriormente, mensagens também mencionaram uma possível reserva no hotel Fasano. Em outra conversa, foi encaminhada a Vorcaro uma solicitação atribuída a Newton Ramos envolvendo uma tarifa de hospedagem que teria sido pedida pelo ministro. Nunes Marques, entretanto, declarou que nunca solicitou benefícios a Vorcaro e que jamais manteve troca de mensagens com o empresário. Em episódios anteriores revelados pelas mesmas apurações, o gabinete do ministro já havia apresentado negativa semelhante.

Relação de Newton Ramos e Camilla Ramos com Vorcaro é explicada

Por outro lado, Newton Ramos afirmou que existia uma relação pessoal com Vorcaro anterior aos fatos que passaram a ser investigados. O desembargador confirmou que sua mulher atua profissionalmente em causas cíveis relacionadas ao Banco Master, mas sustentou que contatos envolvendo imóveis e transportes ocorreram exclusivamente na esfera privada. Segundo Ramos, Vorcaro teria sido consultado por causa de sua participação societária na empresa Prime You, ligada à oferta de determinados serviços. Além disso, o magistrado declarou que nunca julgou qualquer processo de interesse do Banco Master. Camilla Ramos também já havia informado, em manifestação sobre a hospedagem durante o Carnaval de 2025, que prestava serviços jurídicos ao banco desde 2023 e que, ao longo do período, desenvolveu também uma relação pessoal com Vorcaro e sua família. Dessa forma, os citados contestam que as relações pessoais mencionadas nas mensagens tenham representado contrapartida ligada às funções públicas de Newton Ramos.

Caso Master amplia atenção sobre mensagens enviadas ao STF

Enquanto isso, o conjunto de dados retirados do celular de Daniel Vorcaro passou a ocupar espaço crescente nas discussões internas do Supremo. A Polícia Federal encaminhou o material aos ministros da Corte, e integrantes do tribunal solicitaram acesso à íntegra dos arquivos depois da divulgação de referências a diferentes magistrados. Nunes Marques também pediu acesso aos dados. Paralelamente, outras conversas divulgadas pela imprensa mencionaram supostos pagamentos relacionados a Kevin Marques, filho do ministro. Nunes Marques negou que o filho tenha prestado serviços ao Banco Master, enquanto reportagens também registraram manifestação segundo a qual Kevin teria realizado serviços para outra empresa, a Consult Inteligência Tributária, sem relação com o Supremo. Na semana anterior à divulgação do contrato de R$ 427 milhões, Nunes Marques declarou impedimento para participar de outro julgamento ligado às menções feitas por Vorcaro, justificando preocupação com possíveis efeitos sobre sua atuação como presidente do TSE.

Contrato de R$ 427 milhões ainda exige análise do contexto completo

Por fim, o episódio envolvendo a “Turma do KN” e o contrato de até R$ 427 milhões acrescenta uma nova frente às apurações relacionadas ao Banco Master, sobretudo porque reúne interesses econômicos elevados, processos judiciais e relações pessoais entre personagens que ocupam posições relevantes no Judiciário e na advocacia. Entretanto, é fundamental distinguir o conteúdo das mensagens das conclusões jurídicas que eventualmente poderão ser alcançadas pelas autoridades. Até o momento, as reportagens mostram a existência do contrato, registram comunicações encontradas no aparelho de Vorcaro e apresentam interpretações sobre quem seriam os personagens citados nos diálogos. Ao mesmo tempo, Nunes Marques nega ter atuado em favor do banco ou ter autorizado alguém a representá-lo, enquanto Newton Ramos afirma nunca ter julgado causas de interesse do Master. Portanto, a eventual existência de responsabilidades ou irregularidades dependerá da análise das provas, do contexto integral das comunicações e das decisões das autoridades competentes, garantindo-se também o direito de manifestação e defesa aos envolvidos.

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Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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