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Quem os EUA impediram de ir à Assembleia da ONU e por quê

Rússia, Irã, Palestina: quem foi “barrado” pelos EUA para ir à ONU

Rússia, Irã, Palestina: quem foi impedido de viajar aos Estados Unidos para acompanhar ou participar presencialmente da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas? Às vésperas do Debate Geral em Nova York, decisões do governo americano sobre vistos atingiram integrantes de delegações russas, iranianas e palestinas, provocando críticas diplomáticas e reacendendo uma discussão antiga sobre as responsabilidades dos Estados Unidos como país-sede da ONU. No caso russo, o Kremlin afirmou que o vice-ministro das Relações Exteriores Alexander Alimov não recebeu autorização para entrar no país. Já Teerã denunciou que jornalistas e integrantes da equipe de comunicação do presidente Masoud Pezeshkian ficaram sem vistos. Por sua vez, o presidente palestino Mahmoud Abbas não poderá viajar aos Estados Unidos e participará por videoconferência. Embora os episódios tenham características diferentes, todos colocam novamente em evidência a tensão existente entre as regras migratórias americanas, questões de segurança nacional e o acesso de representantes estrangeiros às atividades das Nações Unidas.

Rússia, Irã e Palestina enfrentam restrições antes da Assembleia da ONU

No caso da Rússia, o Kremlin afirmou nesta terça-feira (22) que o visto de Alexander Alimov foi negado pelos Estados Unidos. Dmitry Peskov, porta-voz da Presidência russa, classificou a medida como hostil e argumentou que Washington estaria descumprindo suas responsabilidades relacionadas à sede das Nações Unidas. Entretanto, a restrição não impediu toda a representação russa de participar da Assembleia: o ministro das Relações Exteriores Sergey Lavrov permanece entre as autoridades previstas para comparecer ao encontro em Nova York. Além disso, até a divulgação das informações, o governo americano não havia apresentado publicamente uma justificativa específica para a negativa envolvendo Alimov. A controvérsia não surgiu agora. Documentos anteriores da própria ONU já registraram reclamações russas relacionadas à concessão de vistos ao mesmo diplomata em eventos das Nações Unidas, mostrando que o tema faz parte de uma disputa recorrente entre Moscou e Washington sobre o acesso de representantes russos aos Estados Unidos.

Irã denuncia negativa de vistos a jornalistas que acompanhariam Pezeshkian

No caso iraniano, as restrições atingiram principalmente integrantes da imprensa e da equipe de comunicação que pretendiam acompanhar o presidente Masoud Pezeshkian. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Esmail Baghaei, acusou Washington de limitar o acesso à informação e afirmou que os Estados Unidos estariam tentando impedir que a posição iraniana fosse apresentada ao público internacional. Entretanto, Pezeshkian conseguiu viajar a Nova York e participa da Assembleia Geral, assim como outras autoridades de sua delegação. Portanto, não houve bloqueio completo da representação iraniana. Ao mesmo tempo, o governo dos Estados Unidos mantém regras mais rígidas de concessão de vistos a cidadãos iranianos e anunciou em 2026 uma política que suspende diversas categorias de entrada, embora determinadas exceções diplomáticas e oficiais permaneçam previstas. Washington sustenta que sua política de vistos está vinculada à segurança nacional e a processos de verificação dos candidatos. Já Teerã considera as restrições politicamente motivadas e chegou a compará-las simbolicamente a uma nova “Cortina de Ferro”.

Pezeshkian chega à ONU em meio à tensão entre Estados Unidos e Irã

Apesar das restrições aplicadas a integrantes de sua equipe, Pezeshkian chegou a Nova York em um momento de forte tensão entre Washington e Teerã. A delegação iraniana recebeu autorização para explorar possibilidades diplomáticas durante a Assembleia Geral, enquanto autoridades do país também fazem declarações duras sobre segurança regional e ações militares. Dessa maneira, a reunião da ONU funciona simultaneamente como palco para críticas públicas e possível espaço de negociação. O ministro das Relações Exteriores Abbas Araqchi também participa da agenda internacional e tem questionado a capacidade das instituições multilaterais de manter a confiança dos países diante das guerras e das disputas entre grandes potências. Ao mesmo tempo, representantes iranianos afirmam que limitações de circulação e acesso impostas pela administração americana dificultam o trabalho da delegação. Ainda assim, é importante diferenciar essas restrições das negativas de visto: a presença do presidente e de integrantes do governo demonstra que a missão oficial não foi completamente impedida de participar das atividades em Nova York.

Mahmoud Abbas participará por vídeo após ter visto negado pelos EUA

A situação de Mahmoud Abbas teve uma consequência institucional mais direta. Depois que Washington manteve restrições que impediram o presidente da Autoridade Palestina de viajar aos Estados Unidos, a Assembleia Geral aprovou, em 17 de setembro, uma resolução para permitir sua participação remota pelo segundo ano consecutivo. Foram registrados 152 votos favoráveis, três contrários e quatro abstenções. O texto permite ainda que Abbas e outras autoridades palestinas de alto escalão participem por vídeo de reuniões da ONU durante o período estabelecido caso restrições americanas continuem impedindo sua entrada no país. O governo Trump justificou a ampliação das limitações alegando, entre outros motivos, que dirigentes palestinos estariam tentando “internacionalizar” o conflito com Israel por meio de iniciativas em tribunais e instituições internacionais. A representação americana na ONU também fez críticas à atuação da Autoridade Palestina. Já os palestinos e diversos governos contestaram a decisão e defenderam o direito de participação presencial nas atividades das Nações Unidas.

Acordo de 1947 coloca obrigações dos Estados Unidos no centro da discussão

A controvérsia ocorre porque Nova York abriga a sede das Nações Unidas sob um acordo firmado entre os Estados Unidos e a organização em 26 de junho de 1947, que entrou em vigor em outubro daquele ano. O tratado estabelece a estrutura jurídica para o funcionamento da sede e trata, entre outros aspectos, do acesso de representantes estrangeiros à organização. É justamente esse compromisso que Rússia, palestinos e outros governos costumam citar quando contestam restrições de visto. Washington, entretanto, defende que conserva competências relacionadas à segurança e à política migratória e vem aplicando medidas adicionais de controle e verificação de estrangeiros. Assim, a discussão não se resume simplesmente à existência ou não de uma obrigação: há uma disputa sobre como os compromissos decorrentes do acordo de sede devem ser conciliados com as justificativas de segurança e política externa apresentadas pelo governo americano. O acordo permanece em vigor e continua sendo a principal referência jurídica para as relações entre as Nações Unidas e o país que abriga sua sede.

Rússia, Irã, Palestina: quem foi afetado e por que o caso importa

Por fim, Rússia, Irã, Palestina: quem foi “barrado” pelos Estados Unidos precisa ser analisado caso a caso. A negativa russa envolve especificamente Alexander Alimov, enquanto outras autoridades do país participam da Assembleia. No caso iraniano, jornalistas e integrantes da equipe de imprensa ficaram sem autorização segundo Teerã, mas Pezeshkian e membros de sua delegação chegaram a Nova York. Já Mahmoud Abbas foi efetivamente impedido de participar presencialmente e recebeu autorização da Assembleia Geral para discursar remotamente. Portanto, não se trata de uma proibição geral contra três países, mas de diferentes restrições adotadas pela administração americana. Ainda assim, os episódios possuem uma questão comum: até que ponto o país que abriga a sede da principal organização multilateral do mundo pode restringir a entrada de representantes estrangeiros sem comprometer o princípio de participação internacional? Essa discussão deverá continuar além da atual Assembleia, especialmente porque as tensões entre Washington, Moscou, Teerã e a liderança palestina permanecem elevadas.

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Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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