Flávio Bolsonaro disse que alguém de dentro da CNBB teria disseminado a fake news que tem causado tanta polêmica

Flávio Bolsonaro afirmou neste domingo, 27 de setembro, que integrantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) teriam ajudado o PT a disseminar uma informação falsa relacionada a Nossa Senhora Aparecida. A declaração foi feita durante um evento de campanha em Goiás, em meio à repercussão de publicações que associaram o candidato à Presidência a uma suposta intenção de retirar da santa o título de Padroeira do Brasil. Segundo Flávio, essa narrativa seria uma das principais controvérsias enfrentadas por sua campanha durante o primeiro turno das eleições de 2026.
Ao comentar o episódio, o candidato afirmou que o PT estaria tentando levantar o assunto havia alguns dias e que teria contado com a colaboração de pessoas ligadas à CNBB. Flávio também declarou que não existiria projeto ou movimento de sua parte para modificar o reconhecimento de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil. A acusação, entretanto, foi contestada pela própria entidade religiosa, que negou participação na produção ou divulgação de informações falsas relacionadas ao processo eleitoral.
A declaração ocorreu poucas horas depois de uma nova decisão judicial relacionada ao caso, proferida pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). Dino derrubou uma decisão anterior do ministro André Mendonça, tomada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que havia determinado a remoção de publicações associando Flávio Bolsonaro à retirada do título de Padroeira do Brasil. Dessa forma, a polêmica passou a envolver simultaneamente campanha eleitoral, religião, circulação de informações nas redes sociais e decisões judiciais sobre liberdade de expressão.
Flávio Bolsonaro e a resposta da CNBB
A CNBB divulgou uma nota em resposta às declarações de Flávio Bolsonaro e negou que tenha produzido, autorizado ou participado da elaboração ou divulgação de informações falsas relacionadas às eleições. A entidade também afirmou que não integra estruturas político-partidárias, partidos ou candidaturas e que suas manifestações eleitorais decorrem de sua missão pastoral. Além disso, a CNBB ressaltou princípios como dignidade humana, bem comum, democracia e liberdade de consciência.
Na manifestação, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil também contestou a atribuição de participação em estruturas de produção ou disseminação de desinformação sem que fatos e provas sejam apresentados para sustentar essa afirmação. A entidade declarou que esse tipo de acusação atingiria a instituição e não contribuiria para a serenidade e a responsabilidade esperadas durante o processo eleitoral. Portanto, existe uma divergência pública entre a versão apresentada pelo candidato e a posição oficial divulgada pela organização religiosa.
Enquanto a CNBB negava envolvimento, a campanha de Flávio Bolsonaro continuava criticando a decisão de Flávio Dino que restabeleceu publicações relacionadas ao episódio. O candidato afirmou que a medida judicial favoreceria aquilo que chamou de “Liga da Mentira do PT” e voltou a classificar o caso como a maior fake news de sua campanha. As declarações, contudo, representam a posição do candidato, e a CNBB afirmou que não há participação institucional da entidade na disseminação da informação questionada.
Polêmica sobre Nossa Senhora Aparecida volta ao centro da eleição
A origem da controvérsia remonta a uma proposta apresentada na Câmara dos Deputados em 2007 pelo então deputado federal Victório Galli. O projeto foi arquivado em agosto de 2008, portanto muitos anos antes da atual candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. A associação entre o projeto antigo e o candidato ganhou força nas redes sociais depois de uma referência ao assunto feita no programa “Em Pauta”, da GloboNews, na quinta-feira, 24 de setembro.
A GloboNews posteriormente corrigiu a informação e pediu desculpas, esclarecendo que a proposta havia sido apresentada em 2007 e arquivada no ano seguinte. Mesmo depois da correção, conteúdos relacionados ao episódio continuaram circulando nas plataformas digitais e foram associados ao nome de Flávio Bolsonaro. O candidato negou que tenha defendido ou apoiado qualquer iniciativa para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
A dimensão da repercussão foi registrada pelo Instituto Democracia em Xeque, segundo levantamento publicado pelo UOL. O episódio chegou a aproximadamente 977,6 mil menções nas redes sociais em 55 horas, com pelo menos 8,5 milhões de interações no período analisado, tornando-se uma das principais controvérsias políticas do ano até aquele momento. Assim, uma informação relacionada a um projeto antigo passou a ocupar espaço significativo na disputa eleitoral de 2026.
Decisões de André Mendonça e Flávio Dino
Na sexta-feira, 25 de setembro, André Mendonça determinou a remoção de 1.125 publicações que relacionavam Flávio Bolsonaro ou sua família à suposta retirada do título de Padroeira do Brasil. A decisão foi tomada no âmbito do TSE e considerou “notoriamente inverídica” a afirmação de que o candidato ou seus familiares teriam proposto, articulado ou apoiado essa medida. Entre as plataformas alcançadas estavam X, Facebook, TikTok e YouTube.
No domingo, porém, Flávio Dino derrubou a decisão de Mendonça após analisar um pedido apresentado pelo humorista Antonio Tabet, autor de uma das publicações retiradas do ar. Segundo Dino, não havia naquele conteúdo grau suficiente de ilicitude que justificasse restrições tão severas à liberdade de expressão e à liberdade religiosa. A decisão também alcançou outras publicações que haviam sido removidas com base no mesmo fundamento, fazendo com que a disputa judicial passasse a integrar a própria controvérsia eleitoral.
O episódio, portanto, reúne versões diferentes sobre a origem e a circulação da informação relacionada a Nossa Senhora Aparecida. Flávio Bolsonaro atribui a disseminação da narrativa a uma articulação que, segundo ele, teria envolvido integrantes da CNBB e o PT, enquanto a entidade religiosa nega participação e afirma que não há fatos ou provas que sustentem a acusação. Paralelamente, decisões diferentes de ministros do STF e do TSE colocaram em discussão os limites entre combate à desinformação, liberdade de expressão e atuação da Justiça Eleitoral durante a campanha.





