Quando Daniel Vorcaro não estava em Brasília, sua mansão era usada regularmente por um político

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), utilizava uma casa de Daniel Vorcaro em Brasília quando o banqueiro não estava na capital, segundo mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular do ex-dono do Banco Master. Os registros analisados pela PF indicaram pelo menos seis ocasiões em que o deputado foi recebido no imóvel localizado no Lago Sul, entre junho e novembro de 2025. A última visita registrada ocorreu em 17 de novembro, justamente no dia em que Vorcaro foi preso no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo.
A dinâmica para o uso da residência apareceu nas conversas entre Motta e Vorcaro em maio de 2025, três meses depois de o deputado assumir a presidência da Câmara. Na ocasião, o banqueiro encaminhou ao parlamentar o contato do funcionário responsável pela administração do imóvel e perguntou se ele desejava contar com alguém para prestar serviço durante suas visitas. Posteriormente, Motta perguntou se poderia passar pela casa durante o horário do almoço, e Vorcaro respondeu que, depois de seu compromisso, o imóvel estaria liberado.
Depois desse acordo, mensagens enviadas pelo funcionário a Vorcaro passaram a registrar as ocasiões em que Hugo Motta seria recebido na residência. Os avisos ocorreram em 24 de junho, 28 de agosto, 5, 18 e 25 de setembro e 17 de novembro de 2025, com referências a visitas durante a noite, à tarde ou no horário do almoço. Entretanto, as conversas não informam qual era o objetivo das visitas nem quem eventualmente acompanhava o presidente da Câmara dentro do imóvel.
Como funcionava o uso da casa de Vorcaro
Um dos primeiros registros relacionados ao acordo ocorreu em maio de 2025, quando Vorcaro apresentou a Motta o funcionário encarregado da residência. O banqueiro também orientou o deputado a combinar previamente se gostaria de contar com alguém para servi-lo durante sua permanência no imóvel. A partir daquele momento, a comunicação sobre a chegada de Motta passou a ser feita diretamente ao proprietário da casa.
Em uma das conversas, Motta perguntou se poderia utilizar a residência durante o horário do almoço, desde que Vorcaro não tivesse compromisso no local. O banqueiro informou que teria um almoço e depois seguiria para o aeroporto, acrescentando que, depois disso, a casa estaria disponível. Motta respondeu que combinaria sua chegada com o funcionário responsável, estabelecendo a forma de acesso ao imóvel.
O registro mais recente ocorreu em 17 de novembro de 2025, quando Vorcaro estava em São Paulo e seria preso no aeroporto de Guarulhos. Naquela tarde, o funcionário escreveu ao banqueiro que, à noite, receberia Hugo na casa, e Vorcaro respondeu pedindo que fosse avisado previamente sobre situações semelhantes. O funcionário ainda se desculpou por não ter comunicado a visita com antecedência naquele momento.
Relação entre Hugo Motta e Daniel Vorcaro
As mensagens analisadas pela Polícia Federal também indicaram que a relação entre Motta e Vorcaro era próxima e não se limitava ao uso do imóvel em Brasília. Os dois utilizavam termos informais como “irmão” nas conversas, enquanto outros diálogos registraram pedidos de ingressos para camarote de Carnaval, encontros e combinações relacionadas a viagens e residências. Em outro episódio, Vorcaro chegou a dizer que gostaria de estar em Mônaco com Motta, após uma conversa telefônica entre os dois.
O presidente da Câmara também já havia utilizado outro imóvel de Vorcaro antes de assumir o comando da Casa. Em outubro de 2024, Motta estava no apartamento do banqueiro em São Paulo e perguntou se poderia receber Arthur Lira, então presidente da Câmara, para tratar de um assunto. Vorcaro respondeu autorizando a utilização do imóvel e disse que a casa era de Motta para aquela finalidade.
As conversas também registraram encontros pessoais entre os dois ao longo de 2025. Em maio daquele ano, segundo relato feito pelo próprio Vorcaro à namorada, Motta teria permanecido durante horas na residência do banqueiro em uma reunião que avançou até perto das 3 horas da madrugada. Em julho, Vorcaro foi à casa de Motta para um café da manhã, enquanto em agosto houve uma conversa sobre um encontro na residência do presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
Empréstimo de R$ 22 milhões também aparece no caso
Outro ponto investigado envolve um empréstimo de pelo menos R$ 22 milhões concedido pelo Banco Master a uma empresa pertencente à cunhada de Hugo Motta. Segundo as informações divulgadas, a operação ocorreu em 2024, antes de Motta assumir a presidência da Câmara, e o parlamentar teria tratado diretamente com Vorcaro sobre a liberação do crédito. A Polícia Federal analisa essa operação dentro do conjunto de informações extraídas do celular do ex-banqueiro.
A empresa envolvida era a ETC Participações, adquirida pela cunhada de Motta, Bianca Medeiros, irmã de sua esposa, Luana Motta. O dinheiro do empréstimo foi utilizado para a compra de um terreno de uma antiga fábrica de cimento em João Pessoa, na Paraíba, negócio que posteriormente passou a ser relacionado às conversas entre o deputado e Vorcaro. As mensagens analisadas pela PF também fazem referência a discussões sobre negócios e assuntos de interesse do Banco Master.
Procurado sobre as novas informações, Hugo Motta afirmou que não iria se manifestar especificamente sobre o uso da casa de Vorcaro, segundo o UOL. Em manifestações anteriores sobre as conversas, o presidente da Câmara afirmou que mantém diálogo com diferentes setores do empresariado e representantes da sociedade e negou que os diálogos publicados comprovem qualquer irregularidade ou favorecimento. Dessa forma, os registros das visitas documentam o uso do imóvel e a relação entre os dois, mas as mensagens divulgadas não esclarecem o motivo de cada visita nem permitem afirmar, por si só, o que foi tratado dentro da residência.





