Polícia Federal revelou que mensagens no celular de Vorcaro mostram conversas comprometedoras

Mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro e Luiz Rennó, então diretor jurídico do Banco Master, revelaram discussões sobre a estrutura societária da Bet.Bet durante 2024. Segundo informações obtidas pelo Valor Econômico a partir de mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Vorcaro, o empresário teria sido orientado a deixar de aparecer formalmente na composição de um fundo ligado à casa de apostas. O conteúdo ganhou repercussão nesta quarta-feira, 30 de setembro de 2026, porque os diálogos indicam que a mudança foi discutida justamente quando o Ministério da Fazenda exigia a identificação do beneficiário final da estrutura.
A Bet.Bet aparece nas conversas como um negócio que já despertava atenção de Vorcaro meses antes das discussões sobre o beneficiário final. Em julho de 2024, ele teria chamado a empresa de “essa bet nossa” e afirmado que, mesmo antes do lançamento, o empreendimento estaria faturando R$ 5 milhões por dia, embora as mensagens não tragam documentos que permitam confirmar esse valor. Posteriormente, informações publicadas pela imprensa apontaram que Vorcaro possuía uma participação indireta de 30% na empresa por meio da Bet Participações, enquanto a estrutura societária também envolvia o FIP Oracle, administrado pela Reag.
O episódio precisa ser entendido dentro do processo de regulamentação das apostas de quota fixa no Brasil, que estava sendo implementado pelo governo naquele período. O Ministério da Fazenda estabeleceu que as empresas interessadas em operar regularmente deveriam passar por um processo de autorização e cumprir exigências específicas, enquanto as operações autorizadas a partir de 2025 passaram a utilizar domínios brasileiros com a extensão “bet.br”. Além disso, uma outorga de R$ 30 milhões foi estabelecida para cada autorização, com validade de cinco anos e possibilidade de operação de até três marcas por autorização.
Vorcaro e a mudança no beneficiário final da Bet.Bet
As conversas mais relevantes ocorreram entre o fim de setembro e o início de outubro de 2024, quando Rennó comunicou a Vorcaro que seria necessário alterar a identificação do beneficiário final do fundo Oracle. Em 27 de setembro, segundo as mensagens divulgadas, o então diretor jurídico informou que o Ministério da Fazenda queria saber quem estava por trás do fundo e disse que já estava tratando do assunto relacionado à bet com outras pessoas envolvidas na operação. Três dias depois, Rennó voltou ao tema e afirmou que Vorcaro não poderia aparecer e que seria necessário informar outro beneficiário final.
Na sequência, Rennó teria perguntado a Vorcaro se ele tinha alguém para indicar ou se deveria procurar uma pessoa de confiança para ocupar formalmente essa posição. No dia seguinte, a discussão prosseguiu com a proposta de retirada do beneficiário final e a operacionalização da mudança, além da abertura de uma conta em outra instituição financeira, que, segundo a conversa, não deveria ser mantida na Reag nem no Banco Master. Dessa forma, as mensagens descrevem uma tentativa de reorganização da estrutura societária justamente durante o período em que informações sobre os responsáveis finais pelos veículos empresariais estavam sendo exigidas pelas autoridades.
Outro trecho dos diálogos chamou atenção porque Rennó procurou tranquilizar Vorcaro sobre o funcionamento da operação. Em 4 de outubro, o então diretor jurídico teria dito que o negócio iria gerar muito dinheiro e, diante da manifestação de Vorcaro sobre ter sentimentos divididos em relação à bet, afirmou que a operação funcionaria de maneira regular, com jurídico e financeiro sob controle do grupo, além de sugerir a colocação de uma pessoa de confiança. Na mesma conversa, Rennó teria dito que Vorcaro precisava “sumir” da estrutura, expressão que passou a ser um dos principais elementos da repercussão do caso.
Bet.Bet movimentou aportes e discussão sobre outorga
As mensagens também mostram que a participação no negócio não teria se limitado a uma discussão sobre nomes e documentos societários. Em outubro de 2024, Rennó e Vorcaro trataram da possibilidade de realizar o aporte por meio de debêntures conversíveis, e posteriormente foram registradas cobranças relacionadas à transferência dos recursos. Em novembro, os diálogos passaram a abordar os valores necessários para a autorização da casa de apostas, com uma referência a R$ 30 milhões mais R$ 5 milhões, embora o conteúdo divulgado não permita determinar exatamente a destinação dos R$ 5 milhões adicionais.
O valor de R$ 30 milhões mencionado nas mensagens coincide com a outorga estabelecida pelo Ministério da Fazenda para empresas autorizadas a operar apostas de quota fixa. A regulamentação oficial determinou que esse pagamento fosse recolhido ao Tesouro Nacional e estabeleceu ainda uma taxa de fiscalização para as empresas autorizadas. Portanto, a coincidência entre o valor discutido nas mensagens e a quantia prevista na regulamentação é um dado objetivo, mas a documentação divulgada não permite concluir, isoladamente, como cada valor mencionado na conversa foi efetivamente utilizado.
Em dezembro de 2024, Rennó teria sugerido elevar para R$ 21 milhões uma Cédula de Crédito Bancário destinada à integralização do capital. Já em fevereiro de 2025, porém, a estratégia aparentemente havia mudado, pois Vorcaro perguntou como estava a situação da bet e recebeu como resposta que os envolvidos estavam deixando o negócio. A saída formal, segundo a mensagem, seria concluída no mês seguinte, encerrando naquele momento a participação que vinha sendo discutida desde 2024.
O que as mensagens revelam sobre a estrutura da bet
A documentação também acrescenta novos elementos à trajetória empresarial da Bet.Bet e de Daniel Vorcaro. Reportagem publicada pela Folha informou que o ex-banqueiro foi sócio da casa de apostas entre dezembro de 2023 e setembro de 2025 e que entre os parceiros estavam Ernildo Júnior, ligado à Pixbet, além de empresários do setor musical e o cantor Xand Avião. A Bet.Bet recebeu autorização para operar no mercado regulado e aparece atualmente na relação oficial de empresas autorizadas do Ministério da Fazenda por meio da Open Gaming S.A., com as marcas Bet.Bet e DonaldBet.
Além disso, um documento oficial do Ministério da Fazenda mostra que a empresa responsável pela operação da Bet.Bet foi alvo, em 2025, de uma medida cautelar dentro de um processo administrativo sancionador. Segundo o órgão, a BetBet Soluções Tecnológicas S.A. não teria apresentado no prazo o relatório de avaliação dos requisitos técnicos exigidos para o funcionamento da operação, o que foi considerado uma violação das normas regulamentares. Esse procedimento administrativo é separado das mensagens envolvendo Vorcaro e não estabelece, por si só, que as questões societárias descritas nos diálogos tenham relação com a irregularidade técnica apontada pelo governo.
Assim, o conteúdo das mensagens coloca no centro da discussão a diferença entre a participação econômica de uma pessoa em uma empresa e a identificação formal de seu nome na estrutura societária. No caso analisado, os diálogos atribuídos a Vorcaro e Rennó indicam que a possibilidade de alterar o beneficiário final foi discutida depois de uma exigência do Ministério da Fazenda, enquanto outras reportagens apontam que Vorcaro mantinha participação indireta relevante no empreendimento. As circunstâncias exatas da operação, seus efeitos jurídicos e a eventual existência de irregularidades precisam ser avaliadas pelas autoridades responsáveis pelas investigações e pelos documentos societários e financeiros correspondentes.
O caso também mostra como a estrutura de propriedade de empresas de apostas passou a ganhar importância com a regulamentação do setor no Brasil. Enquanto o governo estabelecia mecanismos para identificar operadores, beneficiários e responsáveis pelas empresas autorizadas, as mensagens divulgadas agora apresentam uma discussão interna sobre quem deveria aparecer formalmente em uma estrutura ligada à Bet.Bet. A partir desses elementos, a apuração sobre a participação de Vorcaro no negócio passa a integrar um conjunto mais amplo de informações sobre seus negócios, suas relações empresariais e as operações que estão sendo examinadas pelas autoridades.





