Lula terá muito trabalho neste segundo turno para conseguir superar Flávio Bolsonaro na disputa pela Presidência

O Bolsa Família perdeu parte de sua força eleitoral entre os municípios brasileiros onde o programa possui maior presença, segundo levantamento realizado pelo UOL a partir dos resultados do primeiro turno das eleições de 2026. Nessas cidades, classificadas como de alta dependência por terem mais de 50% da população atendida pelo benefício, Luiz Inácio Lula da Silva registrou 68,7% dos votos, contra 71,5% em eleições anteriores. Ao mesmo tempo, os candidatos ligados ao bolsonarismo ampliaram sua participação nesse grupo, mostrando que a relação entre programas sociais e comportamento eleitoral permanece mais complexa do que uma simples associação direta entre benefício e voto.
Para chegar aos números, foram cruzados dados sobre a quantidade de beneficiários do Bolsa Família, a população dos municípios e a votação obtida pelos candidatos à Presidência nas três últimas eleições. O levantamento considerou como municípios de alta dependência aqueles em que pelo menos metade dos moradores estava vinculada ao programa, enquanto as cidades com entre 25% e 50% foram classificadas como de média dependência e aquelas abaixo de 25% ficaram na categoria de baixa dependência. Portanto, os dados permitem observar diferenças no comportamento eleitoral conforme a presença do programa, mas não estabelecem uma relação de causa e efeito entre receber o benefício e escolher determinado candidato.
O resultado chama atenção principalmente porque o governo Lula anunciou, poucas semanas antes da eleição, um reajuste de 15% no valor mínimo do Bolsa Família, elevando o piso de R$ 600 para R$ 691 a partir de outubro. O benefício médio também foi projetado para subir de R$ 675 para aproximadamente R$ 777, segundo as informações divulgadas pelo governo federal. Ainda assim, o desempenho eleitoral registrado nas cidades mais dependentes mostra que a atualização do programa não produziu uma concentração automática de votos no presidente, algo que também foi observado em pesquisas realizadas antes da votação.
Bolsa Família e a mudança no comportamento eleitoral
Nos municípios considerados altamente dependentes do Bolsa Família, Lula recebeu 68,7% dos votos em 2026, percentual inferior aos 71,5% registrados na comparação utilizada pelo levantamento. Enquanto isso, a votação dos candidatos Jair Bolsonaro e Flávio Bolsonaro nesses locais apresentou crescimento ao longo do período analisado, chegando a 27,3% para Flávio Bolsonaro em 2026. Dessa maneira, a distância entre os principais grupos políticos diminuiu, embora o candidato do PT ainda tenha concentrado a maior parcela dos votos válidos nessas localidades.
Outro dado relevante aparece quando são observados os candidatos que não pertenciam aos dois principais campos políticos da disputa. Nas cidades com alta dependência do programa, esse conjunto de candidaturas somava 17% dos votos em 2018, caiu para 5,04% em 2022 e chegou a aproximadamente 4% em 2026. Assim, a principal transformação identificada pelo levantamento não está apenas na distribuição dos votos entre Lula e o grupo bolsonarista, mas também no enfraquecimento das alternativas intermediárias diante da crescente polarização da eleição presidencial.
A análise também mostra que o comportamento dos eleitores não pode ser explicado somente pela existência de um programa de transferência de renda. O cientista político Danilo Medeiros, professor da Universidade Federal de Minas Gerais, avaliou ao UOL que o Bolsa Família, isoladamente, não garante o voto dos beneficiários, especialmente porque o programa passou a ser percebido por parte da população como uma política pública consolidada. Nesse contexto, a decisão eleitoral pode ser influenciada por fatores como renda, emprego, inflação, avaliação do governo, identificação política e percepção sobre os candidatos, além do próprio benefício social.
Reajuste do Bolsa Família entrou no debate eleitoral
O reajuste anunciado pelo governo Lula ocorreu 17 dias antes do primeiro turno e elevou o piso mensal do programa de R$ 600 para R$ 691. Segundo o governo, a atualização corresponde à inflação acumulada desde a reformulação do Bolsa Família em 2023 até agosto de 2026, sendo apresentada como uma correção dos valores e não como a criação de uma nova política de transferência de renda. A medida, contudo, passou a ser discutida no contexto eleitoral justamente porque os novos pagamentos foram programados para ocorrer durante o período do segundo turno.
A legalidade do reajuste também foi questionada no período eleitoral, mas o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, decidiu que a atualização não violava as regras eleitorais. Na avaliação apresentada na decisão, não havia criação de um novo benefício, mudança dos critérios de elegibilidade ou ampliação do número de beneficiários, mas uma atualização dos valores de um programa social já existente e previsto no ordenamento jurídico. Além disso, uma ação apresentada ao Tribunal Superior Eleitoral para impedir o reajuste foi rejeitada pelo ministro André Mendonça por questões relacionadas à legitimidade do autor para apresentar aquele pedido.
O cenário de 2026 também pode ser comparado ao que ocorreu quatro anos antes, quando Jair Bolsonaro aumentou o então Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600 durante o período eleitoral de 2022. Naquele momento, a ampliação foi realizada por meio de uma emenda constitucional que permitiu despesas extraordinárias, e posteriormente parte da medida foi considerada inconstitucional pelo STF. Portanto, a utilização de programas de transferência de renda em períodos eleitorais voltou a ocupar espaço importante no debate político, embora as circunstâncias jurídicas e econômicas de cada episódio sejam diferentes.
Bolsa Família não determinou sozinho o voto em 2026
Os dados do primeiro turno reforçam, portanto, que a presença do Bolsa Família não pode ser utilizada isoladamente para explicar o resultado eleitoral nos municípios brasileiros. O próprio levantamento ressalta que não foi estabelecida uma correlação entre o recebimento do programa e a escolha de determinado candidato, mas apenas uma comparação entre os resultados eleitorais de cidades com diferentes níveis de dependência da política social. Essa distinção é importante porque impede que os números sejam interpretados como prova de que o benefício determinou o voto de seus beneficiários.
Nas cidades com baixa dependência do programa, que concentraram 59,1% dos votos válidos de 2026, o comportamento também apresentou mudanças importantes em relação a 2022. O levantamento apontou que Bolsonaro havia registrado 50,3% nesse grupo em 2022, enquanto em 2026 os candidatos da família Bolsonaro chegaram a 53,9%, ao passo que Lula passou de 40% para 37%. Assim, os resultados mostram que a dinâmica eleitoral variou conforme o perfil dos municípios, enquanto a disputa nacional foi marcada pelo avanço da polarização entre os dois principais campos políticos.
Com o primeiro turno encerrado e Lula e Flávio Bolsonaro classificados para a segunda etapa da disputa presidencial, o comportamento dos eleitores atendidos pelo Bolsa Família continuará sendo observado pelas campanhas e pelos analistas. A eleição também registrou uma abstenção de 21,8%, equivalente a aproximadamente 33,4 milhões de eleitores, o maior índice já registrado em um primeiro turno presidencial no país, acrescentando outro fator relevante à composição do eleitorado. Nesse cenário, o Bolsa Família permanece como uma política pública de grande alcance social, mas os números de 2026 indicam que seus efeitos eleitorais precisam ser analisados junto com um conjunto mais amplo de fatores econômicos, sociais e políticos.





