Galípolo e o caso Master: por que presidente do BC diz ter perdido a paciência?

Galípolo diz que “esgotou palavrões” em cobranças no BC sobre o Master
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, apresentou à Polícia Federal um relato contundente sobre os bastidores da fiscalização do Banco Master. Em depoimento prestado na terça-feira (6), na condição de testemunha, o chefe da autoridade monetária afirmou ter identificado uma demora que considerou injustificada na produção de informações e relatórios relacionados à instituição financeira. Além disso, relatou que precisou intensificar as cobranças feitas internamente para obter respostas sobre suspeitas envolvendo o banco. Em determinado momento, segundo seu próprio relato, teria “esgotado o repertório de palavrões” durante as reuniões com subordinados. O depoimento integra a investigação conduzida pela PF sobre a atuação de ex-servidores do Banco Central que mantinham contato com o antigo controlador do Master, Daniel Vorcaro.
Galípolo diz que “esgotou palavrões” durante cobranças no Banco Central
A declaração de Galípolo chama atenção porque revela o grau de tensão existente dentro do Banco Central durante a apuração de problemas relacionados ao Banco Master. Segundo o presidente da instituição, uma comunicação que deveria ser encaminhada ao Ministério Público envolvendo suspeitas de fraude demorou a ser produzida. O processo, conforme descrito no depoimento, teria exigido sucessivas cobranças, pedidos de explicações e até momentos de exaltação para que o documento fosse concluído. Dessa maneira, o episódio passou a ser tratado pela investigação como um dos elementos capazes de esclarecer como as suspeitas foram conduzidas internamente. Entretanto, é importante destacar que o depoimento de Galípolo representa sua versão dos acontecimentos e que as responsabilidades individuais ainda são objeto de apuração pela Polícia Federal.
O que Galípolo relatou à Polícia Federal?
De acordo com o depoimento, o presidente do Banco Central ficou incomodado com a demora na produção de análises consideradas importantes para compreender a situação financeira do Master. Galípolo teria afirmado que era necessário insistir para que determinadas informações fossem reunidas e apresentadas. Além disso, o processo de elaboração do comunicado destinado ao Ministério Público teria sido particularmente difícil. Na avaliação atribuída ao presidente do BC, a comunicação acabou sendo produzida somente depois de uma série de cobranças internas. Assim, o relato apresentado à PF sugere que havia uma preocupação crescente dentro da cúpula da autoridade monetária com a velocidade com que as informações estavam sendo processadas. Paralelamente, outras testemunhas ouvidas na investigação também apresentaram versões sobre as dificuldades existentes na supervisão do banco.
Caso Master envolve suspeitas sobre ex-servidores do BC
O contexto da declaração de Galípolo está diretamente relacionado à investigação sobre dois ex-servidores que ocupavam posições relevantes na estrutura de supervisão do Banco Central. São eles Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização, e Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária. Segundo a investigação, ambos teriam mantido uma atuação favorável aos interesses de Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master. As suspeitas incluem possíveis pagamentos e negócios que poderiam ter beneficiado os servidores, além da suposta utilização de informações ou orientações internas em favor do banco. As acusações, contudo, são negadas pelas defesas dos investigados, e a apuração ainda deverá estabelecer quais fatos efetivamente ocorreram e se houve responsabilidade criminal ou administrativa.
O caso ganhou ainda mais relevância porque o Banco Master passou por um processo de deterioração financeira que terminou com sua liquidação extrajudicial pelo Banco Central em novembro de 2025. Antes disso, havia sido discutida uma possível operação envolvendo o Banco de Brasília, o BRB. Esse negócio também aparece no depoimento de Galípolo, que relatou ter ocorrido resistência interna em relação ao veto à operação. Segundo ele, Paulo Sérgio teria se oposto à decisão. Ao mesmo tempo, Belline Santana teria tentado produzir documentos relacionados à operação que, segundo a avaliação de Galípolo, deveriam ser elaborados por outro setor do Banco Central. A iniciativa foi descrita pelo presidente da autoridade monetária como um comportamento fora do padrão esperado.
Galípolo aponta conflitos sobre fiscalização e operação com o BRB
Além da demora na fiscalização, outro ponto relevante do depoimento envolve a divergência entre integrantes do Banco Central sobre a situação do Master e a possibilidade de uma operação com o BRB. O assunto era especialmente sensível porque o banco enfrentava problemas financeiros e sua situação precisava ser avaliada pela autoridade responsável pela supervisão do sistema financeiro. Segundo relatos reunidos pela investigação, havia preocupação sobre possíveis efeitos da situação do Master sobre outras instituições de médio porte. Ao mesmo tempo, questionamentos foram levantados sobre a qualidade das carteiras de crédito e sobre a forma como determinados ativos seriam transferidos em uma eventual operação. Portanto, o conflito não estava restrito a uma única decisão: diferentes setores do BC precisavam analisar riscos financeiros, informações de fiscalização e alternativas para o futuro da instituição.
Por que a demora na fiscalização é importante?
A demora apontada por Galípolo ganhou relevância porque o Banco Central exerce uma função essencial na estabilidade do sistema financeiro brasileiro. Quando uma instituição apresenta sinais de problemas, informações técnicas precisam ser coletadas, verificadas e analisadas para que medidas adequadas possam ser tomadas. Consequentemente, qualquer atraso injustificado pode levantar questionamentos sobre a eficiência dos mecanismos de supervisão. No caso Master, essa questão se tornou ainda mais delicada diante das suspeitas investigadas pela PF. Segundo informações reunidas no inquérito, uma apuração interna do próprio Banco Central encontrou indícios considerados graves envolvendo os dois ex-servidores. Paralelamente, um processo administrativo disciplinar conduzido pela Controladoria-Geral da União também passou a analisar a conduta dos envolvidos.
O que o depoimento de Galípolo pode esclarecer no caso Master?
O depoimento do presidente do Banco Central poderá ajudar a Polícia Federal a reconstruir a sequência de acontecimentos dentro da autoridade monetária. Como Galípolo ocupava a presidência do órgão durante parte relevante do período investigado, seu relato pode ser utilizado para confrontar informações fornecidas por outros servidores e pelos próprios investigados. Isso inclui versões sobre reuniões, produção de relatórios, comunicação ao Ministério Público e discussões relacionadas ao BRB. Além disso, o depoimento poderá ser comparado com documentos internos, mensagens e outros elementos já reunidos pela investigação. Dessa forma, a PF deverá buscar identificar se os atrasos relatados foram consequência de dificuldades administrativas, divergências técnicas ou eventual atuação deliberada em favor de interesses particulares.
É importante, entretanto, evitar conclusões antecipadas. O fato de Galípolo ter relatado cobranças internas e ter demonstrado irritação não significa, por si só, que todos os problemas apontados tenham sido provocados por irregularidades criminosas. Da mesma maneira, as suspeitas levantadas contra os ex-servidores ainda precisam ser comprovadas dentro do devido processo legal. O que já está documentado é que houve forte tensão na condução da fiscalização do Banco Master e que diferentes integrantes do Banco Central apresentaram relatos distintos sobre decisões tomadas durante o período. Agora, esses depoimentos serão confrontados pela investigação para que se estabeleça uma cronologia dos fatos e, eventualmente, sejam identificadas responsabilidades.
Caso Master expõe pressão sobre o Banco Central
O episódio também evidencia a dimensão institucional do caso. O Banco Central precisa atuar com autonomia técnica, especialmente quando estão em análise instituições financeiras relevantes e operações capazes de afetar o mercado. Por isso, qualquer suspeita de interferência indevida, vazamento de informações ou favorecimento precisa ser investigada com rigor. No caso dos dois ex-servidores, as suspeitas de atuação em benefício de Vorcaro são negadas pelas defesas, enquanto outros depoimentos indicam que havia contatos frequentes entre integrantes da supervisão bancária e o empresário. Em um dos relatos apresentados à PF, Belline Santana afirmou ter se reunido com Vorcaro em diferentes ocasiões e sustentou que os encontros tinham caráter institucional.
No fim, a frase de Galípolo sobre ter “esgotado os palavrões” representa apenas uma parte de um caso muito mais amplo. O ponto central da investigação está em compreender por que determinadas análises demoraram a ser produzidas, como foram tomadas as decisões envolvendo o Banco Master e o BRB e se houve, de fato, favorecimento indevido dentro do Banco Central. Enquanto essas questões continuam sendo investigadas, o depoimento do atual presidente do BC acrescenta novos detalhes sobre os conflitos internos e sobre a pressão exercida para acelerar a fiscalização. Assim, o caso Master permanece sob escrutínio da Polícia Federal e de outras instituições, e novas oitivas e documentos poderão ajudar a esclarecer como a crise foi conduzida até a liquidação do banco.





