Após críticas por causa de vídeo em que aparece ao lado de Alcolumbre, Cleitinho teve que se explicar

O senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), governador eleito de Minas Gerais, passou a ser alvo de críticas de apoiadores do bolsonarismo depois de publicar um vídeo ao lado do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). A gravação anunciou que a proposta de emenda à Constituição que prevê o fim da escala de trabalho 6×1 será votada no Senado na quarta-feira, 14 de outubro, e provocou reações negativas entre eleitores que apoiam Flávio Bolsonaro (PL) na disputa presidencial. A pergunta que passou a circular entre esses grupos é se Cleitinho traiu os bolsonaristas ou se apenas manteve sua atuação parlamentar em uma pauta que defende há cerca de três anos.
A insatisfação está relacionada tanto à imagem de Cleitinho ao lado de Alcolumbre quanto ao momento escolhido para a votação da proposta, durante a campanha do segundo turno das eleições presidenciais. Parte dos apoiadores de Flávio considera que o avanço da discussão pode favorecer Lula (PT), que também defende mudanças na jornada de trabalho, e reclama que o tema deveria ser debatido depois da eleição. O senador mineiro, por sua vez, afirma que sua iniciativa teve caráter institucional e que procurou o presidente do Senado para garantir que uma pauta antiga finalmente fosse colocada em votação.
Em resposta às críticas, Cleitinho afirmou que não apoiou politicamente Alcolumbre e lembrou que votou em Eduardo Girão (Novo-CE) para a presidência do Senado. O parlamentar explicou que o atual presidente da Casa permanecerá no cargo até dezembro e que a aprovação de projetos depende de articulação com quem controla a pauta legislativa. A justificativa procura separar a negociação necessária para viabilizar uma votação de um eventual alinhamento político com Alcolumbre ou com o governo Lula.
Por que o vídeo com Alcolumbre irritou os bolsonaristas
Entre os críticos de Cleitinho, o principal argumento é que a votação do fim da escala 6×1 poderia ser utilizada eleitoralmente pelo presidente Lula a poucos dias do segundo turno. Um dos comentários reproduzidos pelo Estado de Minas questionou a conveniência de discutir o assunto naquele momento e defendeu que a análise ocorresse depois de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro. Essa reação mostra que, para parte da base bolsonarista, o calendário de votações do Congresso também passou a ser interpretado segundo os efeitos que cada decisão pode produzir na campanha presidencial.
Outro fator que contribuiu para a controvérsia é a relação de Alcolumbre com setores da direita que cobram a análise de pedidos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Críticos do presidente do Senado consideram que ele deveria priorizar essas demandas antes de colocar em votação uma proposta defendida pelo governo petista. Nesse ambiente, a aparição de Cleitinho ao lado de Alcolumbre foi interpretada por alguns apoiadores como um gesto de aproximação política, embora o senador tenha negado essa intenção.
As críticas também ocorreram depois de Cleitinho manifestar solidariedade à deputada federal eleita por Minas Gerais Ana Elisa (PT), que recebeu ameaças de morte e estupro. Perfis alinhados à direita utilizaram o episódio para acusá-lo de abandonar posições associadas ao bolsonarismo, ampliando a repercussão negativa nas redes sociais. Os dois casos, porém, envolvem atitudes distintas: uma negociação legislativa para colocar uma proposta em votação e uma manifestação contra ameaças dirigidas a uma representante política.
Cleitinho diz que defende o fim da escala 6×1 há três anos
Ao responder a uma seguidora que demonstrou decepção com a gravação, Cleitinho afirmou que não votou em Alcolumbre para a presidência do Senado e que sempre fez campanha contra ele. O senador declarou que o vídeo não teve a finalidade de elogiar ou apoiar o presidente da Casa, mas de pedir que a proposta sobre a jornada de trabalho fosse pautada. Também ressaltou que defende o fim da escala 6×1 há quase três anos, rejeitando a interpretação de que teria adotado a pauta apenas para obter vantagens eleitorais.
A defesa do projeto tem relação com a experiência pessoal de Cleitinho no comércio e com as lembranças do período em que trabalhou com a família. Durante uma sabatina promovida pelo Estado de Minas, pelo Portal Uai e pela TV Alterosa, em setembro, o senador se emocionou ao recordar que o pai trabalhava de segunda a segunda e frequentemente não conseguia acompanhar os familiares em viagens e feriados. Ele afirmou que a experiência influenciou sua posição sobre a necessidade de garantir mais descanso aos trabalhadores.
A proposta, entretanto, tornou-se parte do debate eleitoral porque Lula e integrantes de seu governo defendem mudanças na jornada, enquanto Flávio Bolsonaro tem apresentado uma alternativa diferente para tratar do tema. O candidato do PL questiona a aprovação de uma mudança constitucional nesse momento e defende um modelo mais flexível, com negociação entre empregadores e trabalhadores e remuneração pelas horas efetivamente trabalhadas. Cleitinho, que apoia Flávio na eleição presidencial, mantém uma posição própria sobre a escala, demonstrando que o alinhamento eleitoral não significa concordância automática em todas as pautas legislativas.
Traição política ou independência parlamentar?
A controvérsia revela uma divergência dentro do próprio campo da direita sobre a relação entre fidelidade política e atuação parlamentar, especialmente durante uma eleição presidencial disputada. Para os apoiadores que criticaram Cleitinho, a gravação com Alcolumbre e a votação da escala 6×1 podem oferecer espaço político a Lula na reta final da campanha. Para o senador mineiro, porém, negociar com o presidente do Senado é uma medida necessária para fazer avançar uma proposta que ele afirma defender há anos, sem que isso represente apoio partidário ao adversário de Flávio.
Até o momento, os episódios divulgados não demonstram que Cleitinho tenha rompido seu apoio eleitoral a Flávio Bolsonaro, mas evidenciam que sua atuação independente incomoda uma parcela dos apoiadores bolsonaristas. A votação prevista para 14 de outubro e os posicionamentos dos senadores deverão manter o tema em evidência durante a campanha, sobretudo pela discussão sobre jornada de trabalho e seus possíveis efeitos eleitorais. A pergunta sobre uma eventual traição, portanto, permanece no campo da interpretação política, enquanto Cleitinho sustenta que sua iniciativa teve como objetivo garantir a análise de uma proposta que considera importante para os trabalhadores.





