O ex-banqueiro Daniel Vorcaro falou sobre um acordo que fez, mas negou venda de carteiras de créditos podres

Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, admitiu que houve um acordo comercial com o Banco de Brasília (BRB), mas negou que a operação envolvendo carteiras de créditos atribuídas à empresa Tirreno tenha sido efetivamente concluída. A declaração foi feita durante depoimento prestado à Polícia Federal em 15 de outubro, cujo conteúdo veio a público em 29 de outubro de 2026, em meio ao avanço das investigações sobre suspeitas de fraudes bilionárias no sistema financeiro. O empresário afirmou que os créditos inicialmente negociados foram substituídos por outros ativos e que os valores envolvidos acabaram sendo devolvidos, contestando a interpretação dos investigadores sobre a operação.
Durante a oitiva, Vorcaro confirmou que existiu uma negociação entre as instituições, mas procurou diferenciar a celebração do acordo comercial da conclusão efetiva da transferência dos créditos. Ao ser questionado pela delegada responsável pelo procedimento, reconheceu que houve entendimento entre os bancos, porém sustentou que os ativos relacionados à Tirreno não chegaram a representar uma venda definitiva nos termos apontados pela investigação. A versão apresentada pelo ex-banqueiro, entretanto, foi confrontada com mensagens, contratos e registros apresentados pela Polícia Federal, que indicariam que as carteiras foram incorporadas ao sistema do Master e posteriormente cedidas ao BRB.
O depoimento ganhou importância porque ocorreu antes do indiciamento de Vorcaro e de outras 14 pessoas pela Polícia Federal, formalizado em 28 de outubro, no âmbito da Operação Compliance Zero. A investigação apura operações realizadas entre julho de 2024 e outubro de 2025, envolvendo a transferência de aproximadamente R$ 17,5 bilhões em carteiras de crédito do Banco Master para o banco público do Distrito Federal. Segundo os investigadores, cerca de R$ 12,2 bilhões corresponderiam a créditos problemáticos ou sem comprovação adequada de existência, enquanto a defesa sustenta que não houve fraude nem prejuízo financeiro ao BRB.
Vorcaro admite acordo com BRB, mas contesta documentos da Polícia Federal
Um dos momentos mais relevantes do depoimento aconteceu quando a delegada apresentou documentos e mensagens que, segundo a investigação, demonstrariam que as carteiras relacionadas à Tirreno foram efetivamente negociadas com o banco público. A autoridade policial questionou a incorporação dos créditos ao sistema do Master, os procedimentos de avaliação utilizados, os registros realizados na B3 e a emissão de Cédulas de Crédito Bancário (CCBs). Esses elementos foram apresentados como parte da documentação que sustentaria a conclusão de que ativos sem comprovação adequada teriam sido registrados e transferidos ao BRB como carteiras de crédito legítimas.
Vorcaro contestou a interpretação dos investigadores e afirmou que não acompanhava diretamente todos os procedimentos operacionais relacionados à estruturação das carteiras. Segundo sua versão, quando tomou conhecimento de problemas envolvendo a documentação dos créditos, acionou advogados e funcionários para tentar solucionar as inconsistências identificadas. O empresário também negou saber que os ativos fossem irregulares e sustentou que os procedimentos de avaliação haviam sido realizados, procurando afastar a hipótese de que tivesse participado conscientemente de uma operação fraudulenta.
Outro trecho da oitiva envolveu uma mensagem atribuída a um diretor que teria alertado sobre o volume de créditos encaminhados ao BRB. Conforme a interpretação apresentada pela delegada, Vorcaro teria respondido à preocupação com a frase “Não, vamos mandar todos”, manifestação que foi utilizada para questionar o conhecimento do empresário sobre a operação. Ele, entretanto, negou que a mensagem demonstrasse ciência sobre eventuais irregularidades e contestou a conclusão de que teria determinado a transferência de carteiras sem lastro, argumentando que não existia documento comprovando que recebeu créditos falsos e os encaminhou deliberadamente ao banco público.
Caso Banco Master: defesa nega fraude e questiona prejuízo ao BRB
A empresa Tirreno aparece no centro das suspeitas porque, segundo a Polícia Federal, teria sido utilizada na estruturação de carteiras de crédito cuja existência e qualidade não correspondiam aos valores apresentados nas operações. Os investigadores apontam que a empresa não possuía capacidade econômica, estrutura operacional ou recursos técnicos compatíveis com a dimensão dos negócios realizados. Além disso, a apuração identificou conversas envolvendo Vorcaro e seu ex-sócio Augusto Lima, nas quais eram discutidas bases de dados e carteiras de crédito que posteriormente integraram as negociações com o BRB.
Durante o depoimento, Vorcaro também foi questionado sobre a participação de Augusto Lima na obtenção dos créditos e na estruturação dos ativos relacionados à Tirreno. O ex-banqueiro afirmou que havia solicitado ao antigo sócio que apresentasse carteiras de terceiros para que fossem avaliadas suas origens e composições, procurando demonstrar que não era responsável diretamente por todas as etapas operacionais. Os investigadores, por outro lado, mencionaram conversas de dezembro de 2024 nas quais Vorcaro teria perguntado sobre uma carteira vinculada a uma associação, recebendo de Lima a resposta de que a documentação estava pronta.
Ao defender sua atuação, Vorcaro afirmou que os negócios entre o Master e o BRB não provocaram prejuízos às instituições e pediu que a investigação fosse arquivada. A defesa também sustenta que as carteiras inicialmente questionadas foram substituídas por outros ativos, razão pela qual considera incorreta a conclusão de que houve uma transferência definitiva de créditos sem lastro que tenha causado perdas ao banco público. Entretanto, a Polícia Federal apresenta entendimento diferente e afirma que as operações envolveram ativos fictícios ou sem comprovação adequada, apontando perdas já formalizadas de aproximadamente R$ 2,7 bilhões no BRB.
Indiciamento de Vorcaro amplia pressão sobre Banco Master e BRB
Em 28 de outubro, a Polícia Federal encaminhou ao Supremo Tribunal Federal um relatório parcial com mais de 700 páginas, no qual indiciou Daniel Vorcaro e outras 14 pessoas por suspeitas de crimes relacionados às operações financeiras investigadas. O ex-controlador do Master foi apontado como figura central na estrutura examinada, com participação na obtenção das bases de dados, na formação das carteiras, na captação de recursos junto ao BRB e na elaboração de documentos utilizados para dar suporte às negociações. Entre os indiciados também está Paulo Henrique Costa, ex-presidente do banco público, além de antigos dirigentes e funcionários das duas instituições.
Vorcaro foi indiciado por organização criminosa, lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta de instituição financeira e outros delitos relacionados às operações investigadas, cujas penas máximas somadas podem chegar a 41 anos de prisão. O relatório policial também descreve suspeitas de que o empresário teria participado da estruturação de negócios destinados a fornecer liquidez ao Banco Master, que enfrentava dificuldades financeiras antes de sua liquidação pelo Banco Central, em novembro de 2025. A defesa rejeita as acusações, considera o indiciamento prematuro e afirma que as conclusões policiais foram apresentadas antes da conclusão de todas as perícias e análises financeiras necessárias.
O depoimento de 15 de outubro, portanto, passou a integrar um dos principais pontos de confronto entre a versão de Daniel Vorcaro e as conclusões da Polícia Federal sobre a relação comercial entre o Banco Master e o BRB. Enquanto o empresário admite a existência de um acordo, mas nega que a venda das carteiras da Tirreno tenha sido concluída, os investigadores sustentam que mensagens, contratos e registros demonstram a efetivação das transferências. O relatório ainda deverá ser analisado pelo Ministério Público Federal, responsável por avaliar a existência de elementos suficientes para apresentar uma eventual denúncia, enquanto a defesa continua pedindo o arquivamento do caso e a revogação da prisão preventiva.





