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Silas Malafaia mostrou que já perdeu a paciência quando Flávio Bolsonaro divulgou uma carta direto dos EUA

A relação entre lideranças evangélicas influentes e o bolsonarismo enfrenta sinais de desgaste depois da derrota de Flávio Bolsonaro (PL) para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno da eleição presidencial de 2026. Um dos episódios que evidenciaram esse distanciamento foi a reação do pastor Silas Malafaia à carta divulgada pelo senador após viajar para os Estados Unidos, quando criticou duramente os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro em mensagens privadas. O episódio foi interpretado pelo antropólogo e colunista Juliano Spyer, da Folha de S.Paulo, como um sinal de que a relação entre parte dos líderes religiosos e o grupo político da família Bolsonaro chegou a um ponto de ruptura.

Malafaia teve papel importante na aproximação entre o bolsonarismo e setores do evangelicalismo, inclusive por ter celebrado, em 2013, o casamento de Jair Bolsonaro e Michelle. Mais de uma década depois, porém, o pastor demonstrou insatisfação com a condução política dos filhos do ex-presidente, especialmente após Flávio publicar uma carta com afirmações sobre a eleição e modificar posteriormente trechos do documento. Nas mensagens reservadas que chegaram à imprensa, Malafaia chamou os filhos de Jair de “jumentos”, “babacas” e “amadores”, expressões que expuseram a dimensão do descontentamento.

A crítica não surgiu isoladamente, pois lideranças religiosas já vinham demonstrando incômodo com a maneira como a família Bolsonaro se relacionava com as igrejas. Entre as reclamações relatadas por Spyer está a percepção de que o grupo trataria os templos como estruturas de mobilização eleitoral, sem considerar suficientemente a autonomia dos pastores e das denominações. Outro ponto de tensão foi a escolha de Flávio como candidato presidencial, atribuída a uma decisão de Jair Bolsonaro que teria deixado de lado a preferência de lideranças evangélicas por Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Malafaia expõe desgaste com os filhos de Jair Bolsonaro

A reação de Malafaia ganhou visibilidade depois que Flávio divulgou, já nos Estados Unidos, uma carta na qual questionava o resultado eleitoral e se apresentava inicialmente como “verdadeiro presidente eleito”. O texto foi alterado posteriormente, e o senador passou a se definir como “líder do Brasil”, mantendo o conteúdo de contestação à vitória de Lula. A sequência provocou críticas do pastor, que, embora tivesse defendido a viagem de Flávio aos Estados Unidos, demonstrou irritação com a maneira como o senador e seus irmãos conduziam a comunicação política.

Segundo o relato publicado por Spyer, Malafaia não fez os ataques publicamente, mas enviou as mensagens a interlocutores, e o conteúdo acabou divulgado pela imprensa. Essa postura é relacionada pelo colunista à estratégia adotada por pastores durante a campanha, quando muitos evitaram confrontos diretos com o bolsonarismo e limitaram o envolvimento público na disputa. A avaliação apresentada é que esses líderes procuraram preservar espaço para dialogar com diferentes setores da direita, sem assumir integralmente os custos políticos das decisões da família Bolsonaro.

O texto também aponta que a relação entre igrejas e bolsonarismo não é homogênea, pois existem grupos religiosos que continuam tratando Jair Bolsonaro como uma referência central e outros que preferem uma atuação política mais moderada. Nesse cenário, aparecem conservadores que não se identificam necessariamente com o clã e que buscam alternativas dentro da direita, além de eleitores antipetistas que tendem a apoiar o campo político que consideram mais competitivo. Um pastor presbiteriano ouvido sob anonimato avaliou que a crítica de Malafaia pode influenciar justamente esse segmento que não se considera alinhado de maneira incondicional ao bolsonarismo.

Pastores buscam separar identidade evangélica e bolsonarismo

O pastor presbiteriano citado na coluna afirmou que, apesar de não considerar Malafaia uma referência teológica em sua própria comunidade, reconhece a influência que ele exerce no debate público da direita. “Na minha bolha, ele não é uma referência teológica, mas é um rosto importante para a direita, alguém que pauta o debate”, declarou. Na avaliação desse interlocutor, a crítica do líder religioso aos filhos de Jair pode ajudar fiéis a compreender que uma pessoa pode manter posições conservadoras sem necessariamente apoiar todas as atitudes do grupo bolsonarista.

O mesmo pastor afirmou que a narrativa de perseguição política defendida por setores do bolsonarismo não convence todos os evangélicos e pode ser questionada dentro das próprias igrejas. Ele avaliou que Malafaia contribui para mostrar que “direita e bolsonarismo não são a mesma coisa”, abrindo espaço para críticas que antes poderiam ser evitadas por receio de conflito com apoiadores do ex-presidente. Essa interpretação aponta para uma disputa sobre quem tem legitimidade para representar politicamente os evangélicos e até que ponto lideranças religiosas devem vincular a fé a um projeto partidário específico.

A coluna também menciona manifestações de outros líderes religiosos que adotaram uma postura diferente da contestação eleitoral. O bispo Teo Hayashi, influente entre jovens evangélicos, foi citado entre aqueles que reconheceram que a derrota de Flávio foi um resultado difícil para seus apoiadores, mas que correspondia à escolha feita pelos brasileiros e deveria ser respeitada. Essa posição contrasta com a de figuras que mantiveram a narrativa de perseguição ou estimularam questionamentos sobre o resultado, mostrando que não existe uma resposta única entre pastores e comunidades religiosas.

Tarcísio aparece como alternativa para lideranças religiosas

Com a derrota de Flávio, Tarcísio de Freitas passou a ocupar espaço ainda mais relevante nas conversas sobre o futuro da direita e sobre a aproximação com lideranças evangélicas. O governador de São Paulo já era apontado por parte dos pastores como uma opção preferencial antes da definição do candidato do PL, e sua disposição de discutir uma possível candidatura presidencial em 2030 reforçou essa percepção. Em entrevista ao Estado de S. Paulo, Tarcísio recorreu à linguagem religiosa para explicar como orienta suas decisões políticas e afirmou: “Eu acredito muito na vontade do Senhor”.

Na mesma declaração, o governador disse que entende as oportunidades e os obstáculos como sinais de orientação divina, afirmando: “Deus abre as portas para você”, e acrescentou que seus projetos são dedicados ao Senhor. A manifestação foi apresentada como um aceno aos cristãos de direita e reforça a tentativa de Tarcísio de construir uma identidade política que dialogue com esse eleitorado sem depender exclusivamente da família Bolsonaro. Na leitura de Spyer, com Flávio nos Estados Unidos e o vínculo entre parte dos pastores e o clã desgastado, existe espaço para que a relação entre o governador e essas lideranças se aprofunde.

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Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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