Geral

Trump diz que Londres e Paris são dominadas pela Sharia e promete veto nos EUA

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a colocar a questão da lei islâmica no centro do debate político ao afirmar, nesta quarta-feira (26), que considera a possibilidade de adotar alguma medida para impedir a aplicação da Sharia no território americano. A declaração foi feita durante uma entrevista ao podcast apresentado pelo comentarista conservador Glenn Beck e ocorreu após uma pergunta sobre a possibilidade de o governo editar uma ordem executiva relacionada ao tema. Trump afirmou que a Sharia não corresponde aos princípios jurídicos dos Estados Unidos e defendeu a manutenção do sistema judicial americano como referência para a aplicação das leis no país. A fala rapidamente ganhou destaque por envolver um assunto sensível, relacionado à religião, à imigração e aos limites entre práticas culturais e legislação oficial. Ao comentar o tema, o presidente também sustentou que existem, segundo sua avaliação, alguns pontos de presença da Sharia nos Estados Unidos, embora o país tenha um sistema jurídico baseado na Constituição e nas leis aprovadas por suas instituições.

Durante a conversa, Trump ampliou sua crítica ao mencionar duas importantes capitais europeias: Londres, no Reino Unido, e Paris, na França. Segundo o presidente americano, essas cidades representariam exemplos de locais onde princípios associados à Sharia teriam adquirido espaço significativo na vida cotidiana. A afirmação, porém, se refere a uma interpretação política de Trump sobre a presença de comunidades muçulmanas e de instituições ligadas à religião islâmica, e não significa que a Sharia tenha substituído as leis nacionais desses países. O presidente também declarou que seria favorável a uma iniciativa para impedir qualquer tentativa de utilizar normas religiosas como substitutas do sistema judicial americano. Em sua avaliação, os Estados Unidos possuem uma estrutura jurídica consolidada, ainda que reconheça que o funcionamento das instituições possa gerar críticas e frustrações. A declaração reforça uma posição que Trump já apresentou em outras ocasiões e que costuma provocar debates sobre liberdade religiosa, integração social e os limites da atuação de instituições comunitárias em sociedades democráticas.

A questão também apareceu no discurso de Trump durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro do ano passado, quando o presidente voltou a mencionar Londres e fez críticas ao prefeito da capital britânica, Sadiq Khan. Na ocasião, Trump afirmou que Khan teria interesse em adotar a Sharia, declaração que foi rejeitada pelo próprio prefeito. Muçulmano e integrante do Partido Trabalhista, Khan respondeu às críticas classificando as declarações do presidente americano como preconceituosas e islamofóbicas. O prefeito também negou qualquer intenção de substituir as leis britânicas por normas religiosas. O episódio mostrou como o tema ultrapassa as fronteiras dos Estados Unidos e se conecta a uma discussão mais ampla sobre a convivência entre diferentes comunidades religiosas nas grandes cidades ocidentais. Em Londres, onde vivem pessoas de diferentes origens e tradições, a presença de uma expressiva comunidade muçulmana tornou o assunto recorrente no discurso político, especialmente em debates relacionados à identidade, imigração e integração.

No Reino Unido, existem conselhos que utilizam princípios da Sharia para orientar determinadas questões entre integrantes da comunidade muçulmana. De acordo com informações da BBC, são mais de 80 conselhos desse tipo no país. Essas estruturas atuam principalmente em assuntos relacionados a casamentos muçulmanos e também podem participar de decisões sobre questões financeiras entre pessoas que voluntariamente recorrem a esses mecanismos. É importante destacar, entretanto, que essas instituições não fazem parte do sistema oficial de Justiça britânico. Em 2019, o governo do Reino Unido afirmou que as decisões tomadas por esses conselhos não possuem caráter juridicamente vinculante. Na prática, isso significa que suas orientações não substituem as leis britânicas nem impedem que uma pessoa recorra aos tribunais oficiais do país. A existência desses conselhos, portanto, alimenta uma discussão diferente daquela sugerida pela ideia de que a Sharia teria assumido o controle do sistema jurídico britânico.

Nos Estados Unidos, a declaração de Trump deverá continuar alimentando discussões sobre os limites entre liberdade religiosa e legislação civil. A Constituição americana protege o exercício da religião, ao mesmo tempo em que estabelece um sistema jurídico que se aplica de maneira geral à população. Por isso, qualquer eventual medida presidencial relacionada à Sharia teria de ser analisada dentro desse contexto constitucional e institucional. A simples prática de uma religião não significa a adoção de um sistema jurídico paralelo, e comunidades religiosas podem manter costumes e procedimentos internos desde que respeitem as leis vigentes. O debate levantado por Trump, entretanto, apresenta uma dimensão política importante, especialmente porque o tema da imigração e da identidade cultural ocupa espaço relevante em sua agenda. Ao defender uma possível medida nacional, o presidente transforma uma questão religiosa e jurídica em um assunto de grande repercussão política, capaz de mobilizar diferentes setores da sociedade americana e também provocar reações fora do país.

A nova declaração de Trump, portanto, recoloca a Sharia no centro de uma discussão que envolve religião, política, direitos individuais e funcionamento das instituições democráticas. Embora o presidente tenha defendido uma postura firme contra qualquer possibilidade de normas religiosas substituírem as leis americanas, o cenário jurídico dos Estados Unidos não prevê que a Sharia possa simplesmente assumir o lugar da Constituição ou da legislação federal e estadual. No Reino Unido, a situação também apresenta diferenças importantes, já que os conselhos mencionados atuam de forma limitada e suas decisões não têm força obrigatória perante a Justiça oficial. A repercussão das declarações deve depender dos próximos passos do governo americano e da forma como o Congresso, especialistas em direito e diferentes grupos da sociedade reagirão à proposta. Por enquanto, Trump sinalizou que pretende avaliar alternativas, mas não apresentou uma ordem executiva específica nem anunciou uma medida concreta para proibir a Sharia. A declaração, contudo, já reacendeu um debate internacional sobre até onde podem avançar práticas religiosas dentro de sociedades regidas por leis civis.

Mostrar mais

Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *