Fábio Faria, ex-ministro de Bolsonaro, intermediou encontros de Moraes e Vorcaro, diz PF

Novas informações extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro lançaram luz sobre a relação mantida entre o ex-banqueiro, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria, durante o governo Jair Bolsonaro. O relatório da perícia, tornado público nesta terça-feira (1º), reúne mensagens e registros que indicam a participação de Faria na organização de encontros entre Vorcaro e Moraes. Entre os documentos analisados, estão conversas nas quais o ex-ministro aparece tratando de horários, datas e detalhes necessários para viabilizar reuniões entre os dois. O conteúdo passou a integrar uma das partes do relatório dedicada especificamente aos encontros entre Vorcaro e o ministro do STF, ampliando as informações disponíveis sobre os contatos mantidos entre os envolvidos.
Em uma das conversas analisadas pelos investigadores, Fábio Faria encaminhou a Vorcaro uma mensagem atribuída a Alexandre de Moraes com uma sugestão de reunião para o dia seguinte, às 19h30. Na sequência, o ex-ministro confirmou o horário com o então banqueiro e utilizou o termo “Careca” para se referir ao magistrado. Em outros trechos, Faria informou que iria “remarcar com Alex” e chegou a solicitar a Vorcaro o endereço de sua residência para encaminhá-lo ao ministro. A mensagem também mencionava que a informação seria apagada posteriormente. Para a Polícia Federal, o conjunto desses registros ajuda a reconstruir a dinâmica de comunicação e a logística dos encontros, especialmente durante o período em que Faria teria desempenhado o papel de ligação entre Vorcaro e Moraes.
As mensagens indicam que essa aproximação ocorreu principalmente no fim de 2023, quando Faria teria participado da organização de diferentes contatos. De acordo com os documentos, um dos primeiros encontros entre Vorcaro e Moraes ocorreu em dezembro daquele ano. Depois disso, novas conversas registradas no aparelho mostram o ex-ministro tratando da possibilidade de outros encontros e transmitindo informações relacionadas à agenda do ministro. A perícia também encontrou referências a uma reunião ocorrida em novembro de 2024. Em 15 de novembro, Vorcaro registrou uma mensagem com a indicação “com Alexandre Moraes”. Em outro momento, uma comunicação atribuída ao motorista do banqueiro informou que o “Min Alexandre chegou”. Os registros, reunidos pela PF, oferecem uma sequência de acontecimentos que permite compreender como esses contatos eram planejados.
A investigação também analisou as mensagens em conjunto com informações relacionadas a um contrato entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, pertencente a Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes. Conforme a documentação divulgada, a minuta previa pagamentos de R$ 131 milhões durante três anos. Outro ponto que chamou a atenção dos investigadores foi o histórico digital de um arquivo do contrato encaminhado a Vorcaro pelo WhatsApp. Os metadados indicaram como editor um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”, informação que também foi divulgada pelo jornal O Estado de S. Paulo e aparece nos documentos analisados pela Polícia Federal. A existência desses registros passou a ser considerada no contexto mais amplo das comunicações e relações identificadas durante a perícia no aparelho.
Em manifestação divulgada nesta terça-feira, Viviane Barci de Moraes afirmou que buscou informações com Alexandre de Moraes, por meio da área de compliance do escritório, para verificar possíveis impedimentos legais relacionados à contratação. Segundo a advogada, o documento foi assinado somente depois da avaliação sobre a inexistência de impedimento jurídico. Ela também declarou que Alexandre de Moraes nunca julgou uma causa envolvendo o Banco Master. Enquanto isso, a perícia realizada no celular de Vorcaro revelou ainda comunicações diretas entre o ex-banqueiro e o ministro. Os investigadores conseguiram recuperar elementos relacionados a mensagens enviadas pelo recurso de visualização única do WhatsApp. Segundo o relatório, Vorcaro costumava preparar determinados textos no aplicativo de notas do celular, realizar capturas de tela e encaminhá-las posteriormente pelo aplicativo de mensagens.
A análise desses arquivos deixou no aparelho vestígios digitais, como capturas de tela, arquivos temporários e registros de utilização dos aplicativos, permitindo à PF estabelecer relações entre determinados conteúdos e seus possíveis destinatários. Com a divulgação do relatório, novos detalhes sobre os contatos entre Vorcaro, Moraes, Faria e pessoas ligadas ao ministro passaram a fazer parte do debate público. Ao mesmo tempo, os documentos levantam discussões sobre os limites da atuação da Polícia Federal em investigações que envolvem autoridades com foro por prerrogativa de função. A retirada do sigilo do material foi determinada pelo ministro André Mendonça nesta terça-feira (1º). O conteúdo divulgado agora deve continuar sendo analisado para esclarecer o contexto dos encontros, das mensagens e dos documentos encontrados no aparelho de Vorcaro.





