Vingança de Gonet? PGR assina delação de ex-dono da Reag que pode implicar Flávio Bolsonaro

A delação premiada firmada entre a Procuradoria-Geral da República (PGR) e João Carlos Mansur, fundador da gestora Reag, pode acrescentar novos elementos às investigações que envolvem o Banco Master e seu ex-controlador, Daniel Vorcaro. Mansur se tornou o primeiro investigado da Operação Compliance Zero a fechar um acordo de colaboração com a PGR e entregou documentos relacionados a operações financeiras atribuídas a Vorcaro. A expectativa dos investigadores é que o material ajude a esclarecer como recursos passaram por fundos de investimento, empresas e estruturas registradas no exterior. O acordo prevê, segundo informações divulgadas sobre o caso, o pagamento de R$ 40 milhões em multas e reúne pelo menos 17 temas apresentados pelo empresário. Antes de produzir efeitos jurídicos, porém, a colaboração ainda precisa ser analisada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que deverá verificar, entre outros pontos, a espontaneidade das declarações e o cumprimento dos requisitos legais para a homologação.
Um dos principais pontos apresentados por Mansur é a promessa de detalhar o percurso de recursos movimentados por estruturas relacionadas a Vorcaro. A Reag manteve relações comerciais com o Banco Master desde 2019 e administrou fundos que passaram a aparecer nas apurações conduzidas pelas autoridades. Entre as informações apresentadas está a identificação de pessoas que, segundo Mansur, teriam figurado formalmente como cotistas de determinados fundos, embora os recursos estivessem ligados a Vorcaro. Um dos exemplos citados é o Jaguar Multimarket Fund Ltd., registrado nas Ilhas Cayman, que teria recebido R$ 494 milhões enviados pelo Master. Oficialmente, o beneficiário apontado seria Benjamim Botelho, empresário ligado ao banco e ex-controlador da Sefer, outra gestora que aparece nas investigações. Mansur sustenta, contudo, que Vorcaro seria o verdadeiro responsável pelos recursos, informação que, caso confirmada pelas autoridades, poderá ampliar o entendimento sobre a utilização dessas estruturas financeiras.
A possível repercussão da colaboração também chama atenção por causa das conexões entre empresas e fundos ligados ao caso Master e as operações de financiamento do filme Dark Horse, produção cinematográfica sobre Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro participou da busca por investidores para o projeto e confirmou ter procurado Daniel Vorcaro para tratar da captação de recursos. Conversas entre os dois já foram incorporadas ao contexto das investigações, enquanto documentos apontaram inicialmente a transferência de pelo menos R$ 61 milhões para a produção. O valor buscado por Flávio junto ao então dono do Banco Master teria chegado a R$ 134 milhões. Uma das empresas utilizadas nos repasses foi a Entre Investimentos e Participações, que aparece justamente no caminho financeiro analisado pelas autoridades. Até o momento, entretanto, não há informação pública de que João Carlos Mansur tenha citado Flávio Bolsonaro diretamente em sua delação ou atribuído a ele qualquer irregularidade.
Outro ponto que colocou a Reag no centro das atenções envolve o fundo Gold Style. Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) indicaram movimentações de pelo menos R$ 20 milhões entre o Gold Style e a Entre Investimentos e Participações. O fundo era administrado pela Reag, enquanto a Entre aparece nas operações relacionadas aos recursos destinados ao Dark Horse. Parte desses valores teria seguido posteriormente para o fundo Havengate, estrutura localizada no exterior associada à concentração de recursos do projeto. A conexão financeira não significa, por si só, que todas as operações tenham caráter irregular, mas explica por que os documentos apresentados por Mansur podem despertar interesse dos investigadores. Caso a colaboração apresente informações detalhadas sobre essas movimentações, os dados poderão contribuir para esclarecer a origem, a passagem e a destinação de recursos relacionados às operações de Vorcaro.
A situação da Reag também é acompanhada em outra frente de investigação. A gestora apareceu na Operação Carbono Oculto, deflagrada pela Polícia Federal em agosto de 2025, que apura suspeitas relacionadas à utilização de estruturas financeiras para movimentação de recursos de origem ilícita. O fundo Gold Style também surgiu nesse contexto, após receber valores de empresas que entraram no radar das autoridades. Mansur não foi preso durante as operações e permanece respondendo às apurações em liberdade, enquanto bens relacionados a suas empresas foram alvo de medidas judiciais. Em janeiro de 2026, o Banco Central determinou o encerramento das atividades da Reag, apontando graves violações às normas aplicáveis às instituições do sistema financeiro. Paralelamente, Mansur mantém tratativas com o Ministério Público de São Paulo no âmbito da investigação relacionada à Carbono Oculto.
Agora, a atenção se volta para a análise do acordo pelo ministro André Mendonça, responsável pela relatoria do caso Master no STF. A Polícia Federal não participou diretamente das negociações para a delação firmada com a PGR, de acordo com as informações divulgadas sobre o processo. Se a colaboração for homologada, os documentos entregues por Mansur poderão servir de base para novas diligências e ajudar a reconstruir operações financeiras atribuídas a Daniel Vorcaro. O eventual impacto sobre o caso Dark Horse dependerá, principalmente, do conteúdo efetivamente comprovado nos documentos e da existência de conexões entre os fundos, empresas e transferências já identificados. Por enquanto, qualquer relação entre a delação e uma eventual responsabilidade de Flávio Bolsonaro permanece no campo das possibilidades investigativas, sem informação pública de que Mansur tenha feito acusação direta contra o senador. A próxima etapa, portanto, será decisiva para determinar quais informações apresentadas pelo fundador da Reag poderão ser incorporadas oficialmente às investigações.





