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Projeto social ou pagamento irregular? Depoimento de ex-chefe do BC traz novos detalhes

Ex-chefe do BC diz ter elaborado projeto social após sofrer racismo

O Ex-chefe do BC diz ter criado o projeto social “Jovens Potentes” depois de enfrentar episódios de racismo durante sua trajetória profissional no Banco Central. Belline Santana, que ocupou a chefia do Departamento de Supervisão Bancária da instituição, apresentou essa explicação em depoimento à Polícia Federal no contexto das investigações relacionadas ao Banco Master e ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Segundo Santana, a iniciativa tinha como objetivo ampliar oportunidades para jovens de regiões periféricas, principalmente por meio de capacitação e aproximação com os mercados financeiro e digital. Entretanto, o projeto entrou no centro das investigações porque pagamentos milionários relacionados à iniciativa foram associados a Vorcaro enquanto Belline ocupava uma função estratégica na supervisão bancária. Leonardo Augusto Furtado Palhares, apontado como responsável pela consultoria jurídica do projeto, declarou à PF que Santana recebeu R$ 3,8 milhões entre outubro de 2023 e dezembro de 2025 por sua participação na iniciativa. A defesa do ex-servidor nega que os valores representassem qualquer vantagem indevida.

Ex-chefe do BC diz ter transformado experiência pessoal em projeto

Durante a oitiva, Belline relatou que situações de discriminação racial enfrentadas dentro do ambiente profissional ajudaram a motivá-lo a desenvolver uma iniciativa voltada à inclusão. Entre os episódios descritos, afirmou ter chegado a uma reunião e sido confundido com o motorista de sua própria equipe. Além disso, declarou que frequentemente sentia que sua competência era questionada por ocupar uma posição incomum para pessoas com sua trajetória social. O projeto “Jovens Potentes”, portanto, teria surgido, segundo sua versão, da intenção de mostrar a jovens periféricos que também poderiam ocupar espaços profissionais tradicionalmente de difícil acesso. Registros públicos anteriores mostram que Santana aparecia em atividades da iniciativa contando sua própria história e defendendo oportunidades de entrada no mercado financeiro. Contudo, a finalidade social declarada do programa não encerra a questão investigada. O ponto examinado pelas autoridades é outro: saber se os pagamentos recebidos correspondiam efetivamente aos serviços realizados ou se poderiam esconder vantagens relacionadas à função exercida por Belline no Banco Central.

Pagamentos de R$ 3,8 milhões viraram foco da investigação

A origem e a justificativa econômica desses valores passaram a ser analisadas com maior profundidade. Segundo o depoimento de Leonardo Palhares, Belline teria recebido aproximadamente R$ 3,8 milhões por sua atuação no projeto. Entretanto, investigações anteriores do próprio Banco Central levantaram suspeitas sobre contratos de aproximadamente R$ 4 milhões ligados ao ex-chefe de supervisão e à Varajo Consultoria. Um deles envolvia um estudo sobre educação financeira; outro estava relacionado à execução de atividades do “Jovens Potentes”. A apuração interna questionou a compatibilidade entre os serviços apresentados e os valores contratados, enquanto a Polícia Federal passou a investigar se os repasses poderiam ter servido para remunerar eventual favorecimento ao Master. Além disso, documentos e mensagens analisados pelos investigadores mencionam pagamentos recorrentes atribuídos a Vorcaro. Essas conclusões, porém, permanecem sujeitas ao contraditório: a defesa de Santana sustenta que os trabalhos possuíam finalidade legítima e contesta a interpretação de que os recursos constituiriam propina ou pagamento clandestino.

Relação entre Belline Santana e Daniel Vorcaro é investigada pela PF

Outro ponto relevante é como teria começado a relação entre Belline e pessoas próximas a Vorcaro. Em depoimento, o ex-chefe do BC afirmou que não conhecia previamente Leonardo Palhares e que teria sido procurado por telefone entre agosto e setembro de 2023. Segundo sua versão, Palhares informou que Vorcaro estava entre as pessoas que haviam indicado seu nome para participar do projeto. A PF, entretanto, analisa mensagens posteriores para compreender se a relação ficou restrita ao “Jovens Potentes” ou avançou para assuntos relacionados aos interesses empresariais do Banco Master. Relatórios divulgados nesta sexta-feira atribuem aos investigadores a suspeita de que Belline e outro ex-dirigente do BC, Paulo Sérgio Neves de Souza, teriam atuado informalmente em favor de interesses do conglomerado financeiro. Além disso, a investigação examina viagens, pagamentos e comunicações mantidas com Vorcaro. Os dois ex-servidores negam ter praticado irregularidades, enquanto as autoridades continuam reunindo elementos para determinar a natureza dessas relações.

Documentos do caso Master foram divulgados após decisão no STF

Essas informações ganharam maior repercussão depois que procedimentos do caso Master tiveram o sigilo retirado no Supremo Tribunal Federal. André Mendonça, relator das investigações, tornou públicos diversos documentos após solicitação do presidente da Corte, Edson Fachin. Posteriormente, a Procuradoria-Geral da República defendeu uma abertura ainda mais abrangente dos procedimentos, o que aumentou o volume de informações submetidas ao escrutínio público. Foi nesse contexto que depoimentos, relatórios policiais e mensagens envolvendo Belline passaram a receber maior atenção. Paralelamente, a investigação sobre a fiscalização do Banco Master foi ampliada: Gabriel Galípolo, atual presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, ex-presidente da instituição, Ailton de Aquino, diretor de Fiscalização, e o banqueiro André Esteves foram chamados para prestar depoimento como testemunhas. As oitivas procuram esclarecer como o Master foi supervisionado e se servidores públicos teriam utilizado suas posições para beneficiar interesses privados. A condição de testemunha dessas autoridades não significa que elas sejam investigadas ou acusadas de irregularidades.

Defesa de Belline contesta interpretação dos relatórios policiais

Por outro lado, os advogados de Belline afirmam que a divulgação fragmentada dos documentos produz uma percepção distorcida sobre a atuação do ex-chefe do Banco Central. A defesa sustenta que outros elementos das investigações afastariam a hipótese de prática ilícita e argumenta que Santana sempre trabalhou dentro dos limites de suas atribuições. Também contesta acusações relacionadas a supostos benefícios pessoais e afirma que depoimentos colhidos pela PF enfraquecem parte das suspeitas. Belline está afastado de suas funções e submetido a medidas cautelares enquanto o caso é analisado. Nesta sexta-feira, sua defesa também pediu ao STF a retirada da tornozeleira eletrônica, utilizando como um dos argumentos a recente disputa institucional envolvendo a validade de relatórios e decisões relacionadas à investigação. Entretanto, nenhuma dessas medidas representa condenação. Da mesma forma, as conclusões apresentadas pela PF constituem elementos investigativos que ainda poderão ser contestados e avaliados judicialmente. Assim, determinar se os pagamentos estavam relacionados exclusivamente ao projeto ou possuíam outra finalidade dependerá do conjunto probatório.

Ex-chefe do BC diz ter motivação social, mas pagamentos seguem sob investigação

Por fim, o fato de o Ex-chefe do BC dizer ter desenvolvido o “Jovens Potentes” após vivenciar racismo acrescenta uma dimensão pessoal importante à origem declarada do projeto, mas não resolve a questão central investigada pelas autoridades. É perfeitamente possível que uma iniciativa possua finalidade social legítima e, ainda assim, que contratos e pagamentos associados a ela sejam submetidos a fiscalização. Portanto, são duas questões que precisam ser analisadas separadamente. De um lado, Belline afirma que pretendia ampliar oportunidades para jovens periféricos e relata experiências de discriminação que influenciaram essa decisão. De outro, PF e Banco Central investigam se os milhões de reais associados aos contratos possuíam correspondência adequada com os serviços prestados e se existiu alguma contrapartida relacionada à supervisão do Banco Master. A defesa rejeita essa hipótese e pede que todos os documentos sejam examinados de forma integral. Consequentemente, somente o avanço das investigações e eventual análise judicial poderão estabelecer se houve irregularidade, evitando que suspeitas policiais ou versões defensivas sejam tratadas antecipadamente como conclusões definitivas.

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Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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