Nunes Marques declarou-se impedido de participar de julgamento de Moraes no STF

O ministro Kassio Nunes Marques declarou-se impedido de participar do julgamento do relatório da Polícia Federal que reúne mensagens atribuídas ao banqueiro Daniel Vorcaro e ao ministro Alexandre de Moraes. A decisão foi anunciada durante a sessão do Supremo Tribunal Federal, após a divulgação de diálogos nos quais o nome de Kevin Marques, filho do ministro, aparece relacionado a pagamentos mencionados em conversas do ex-controlador do Banco Master. Com isso, Nunes Marques ficará fora da análise do caso que envolve as mensagens e as suspeitas levantadas a partir do conteúdo extraído do celular de Vorcaro.
Ao justificar o impedimento, Nunes Marques afirmou que o julgamento poderia produzir efeitos no cenário político-eleitoral e destacou sua condição de presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Segundo o ministro, essa circunstância fez com que ele não se sentisse confortável para participar da análise, embora tenha ressaltado que sua decisão não estaria relacionada a qualquer contato pessoal com Vorcaro. A declaração foi apresentada como uma medida para preservar sua isenção diante das circunstâncias específicas que passaram a envolver seu filho e o caso em julgamento.
Nunes Marques também afirmou que nunca trocou mensagens com Daniel Vorcaro e que não existe registro de comunicação entre os dois. O ministro ressaltou ainda que sua independência estaria demonstrada pelos votos que proferiu anteriormente, inclusive pela confirmação da prisão de Vorcaro, de seu pai e de outras pessoas investigadas. Dessa maneira, ao deixar de participar do julgamento, o magistrado procurou diferenciar seu impedimento das decisões que já havia tomado anteriormente em processos relacionados ao ex-banqueiro.
Filho de Nunes Marques é citado em mensagens de Vorcaro
A decisão do ministro ocorreu depois que uma conversa encontrada no celular de Daniel Vorcaro passou a ser relacionada a pagamentos destinados ao advogado Kevin Marques. Em uma troca de mensagens com Luiz Rennó Netto, então diretor jurídico do Banco Master, Vorcaro recebeu informações contendo o nome e o contato de Kevin, acompanhados de uma referência a R$ 500 mil mensais. O conteúdo passou a ser analisado pelas autoridades justamente por envolver o filho de um ministro do Supremo e por mencionar valores expressivos que precisariam ser confrontados com os registros financeiros.
Em agosto de 2025, Rennó voltou a mencionar o assunto em uma conversa com Vorcaro ao afirmar que estaria faltando um pagamento à chamada “consult”. A mensagem foi enviada como resposta a um conteúdo anterior de Vorcaro que trazia o nome e o contato de Kevin Marques, e Rennó acrescentou que aquele seria o único pagamento “meu” que havia faltado. A referência passou a chamar atenção porque aparece associada a uma empresa de consultoria que posteriormente confirmou ter realizado pagamentos ao advogado.
Um mês antes, em julho de 2025, Rennó já havia questionado Vorcaro sobre a manutenção de um repasse de “500 mil mês” ao advogado. Vorcaro respondeu à mensagem com uma sequência de risadas, sem que o diálogo apresentado esclarecesse, por si só, se o pagamento mencionado chegou efetivamente a ser realizado. O conteúdo, portanto, passou a integrar o conjunto de informações que precisam ser confrontadas com documentos bancários e com as explicações apresentadas pelos envolvidos.
Kevin Marques nega receber dinheiro do Banco Master
A defesa de Kevin Marques negou que o advogado tenha recebido recursos diretamente do Banco Master ou de Daniel Vorcaro. Em nota, sua assessoria informou que ele nunca prestou serviços ao banco nem recebeu dinheiro do ex-controlador da instituição, embora tenha recebido R$ 281,6 mil da Consult Inteligência Tributária. Segundo a explicação apresentada, os valores foram pagos por serviços jurídicos especializados na área tributária administrativa prestados à empresa de consultoria.
A existência desses pagamentos foi mencionada anteriormente em reportagem do jornal O Estado de S. Paulo publicada em março deste ano. De acordo com as informações fornecidas no material, a Consult Inteligência Tributária realizou pagamentos de R$ 281,6 mil a Kevin Marques, valor que passou a ser comparado com as referências encontradas nas conversas de Vorcaro. A diferença entre os valores registrados nos diálogos e os pagamentos oficialmente reconhecidos pelo advogado tornou-se um dos pontos que deverão ser esclarecidos na análise do caso.
A assessoria de Kevin também afirmou que sua atuação profissional em favor da Consult Inteligência Tributária não possui relação com o Supremo Tribunal Federal. A declaração busca afastar a possibilidade de que os serviços jurídicos mencionados tenham sido prestados em razão da posição ocupada por seu pai na Corte. Assim, enquanto as mensagens fazem referência a R$ 500 mil mensais, o advogado reconhece apenas os R$ 281,6 mil recebidos da consultoria e nega qualquer pagamento proveniente diretamente do Banco Master ou de Vorcaro.
Impedimento muda composição do julgamento no STF
Com a declaração de impedimento, Nunes Marques não participará da votação sobre o relatório da Polícia Federal que reúne as mensagens atribuídas a Vorcaro e Moraes. A decisão reduz o número de ministros que poderão analisar diretamente os elementos apresentados no julgamento e ocorre justamente quando o caso ganhou novas informações envolvendo pessoas próximas a integrantes da Corte. Além disso, a condição de Nunes Marques como presidente do TSE foi considerada por ele um fator adicional para evitar sua participação em uma discussão que poderia produzir reflexos políticos e eleitorais.
O episódio mostra como a divulgação das mensagens de Daniel Vorcaro ampliou o alcance do caso para além da relação direta entre o ex-banqueiro e Alexandre de Moraes. Agora, as referências ao filho de Nunes Marques, os pagamentos atribuídos à Consult Inteligência Tributária e a declaração de impedimento do ministro passaram a fazer parte do contexto analisado pelo Supremo. A partir desse cenário, caberá aos demais ministros avaliar os elementos submetidos ao julgamento, enquanto as informações financeiras e as versões apresentadas pelos envolvidos poderão ser confrontadas nas etapas seguintes.





