Gilmar acusa Mendonça de usar caso Master para interferir em eleição

O decano do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, fez declarações contundentes nesta terça-feira, 15, acusando o ministro André Mendonça de usar a relatoria do Caso Master com finalidade eleitoral. “Com todas as vênias e toda sinceridade, presidente, é evidente e até as pedras sabem que há um inequívoco viés político-eleitoral na forma como o tema foi conduzido”, afirmou, dirigindo-se ao presidente Edson Fachin. “Isso não se faz, pessoas decentes não fazem isso”, acrescentou. Em resposta, Mendonça classificou a acusação como leviana e disse: “Não aponte o dedo para mim”. Fachin garantiu que ele terá oportunidade de responder às imputações.
Pela primeira vez na história da Corte, os ministros avaliam a abertura de investigação de cunho criminal contra um de seus membros: Alexandre de Moraes. O processo se origina do relatório da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que aponta supostos vínculos entre o ministro e o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. O sigilo do documento foi levantado por André Mendonça em 1º de setembro, e Gilmar Mendes acusou o colega de ter escolhido deliberadamente a data para coincidir com as manifestações populares do 7 de setembro. “O interesse é evidente, acachapante. Trata-se de um boneco eleitoral”, disse Mendes, fazendo referência aos símbolos comuns em atos de oposição.
O relatório apresenta 52 mensagens que, segundo os investigadores, foram enviadas por Vorcaro a Alexandre de Moraes entre 2023 e 17 de novembro de 2025, data da prisão preventiva do banqueiro. Os trechos sugerem proximidade: em um deles, Vorcaro menciona ter encaminhado para apreciação contrato de R$ 131 milhões com o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro; em outro, busca informações sobre uma operação que poderia levá-lo à detenção. Em defesa entregue na madrugada desta terça, Moraes negou qualquer irregularidade e classificou o relatório como inconstitucional e ilegal.
A Procuradoria-Geral da República, por sua vez, pediu a anulação do documento, argumentando que Mendonça avançou sobre um ministro sem comunicar o presidente da Corte ou o plenário, o que poderia indicar direcionamento. A situação ganha contornos ainda mais complexos porque o nome do procurador-geral, Paulo Gonet, também aparece nas mensagens. Em contraponto, Moraes divulgou relatório que sugere que Mendonça teria orientado as investigações para atingir adversários políticos — material que não traz assinatura ou timbre oficial e traz alerta de que se trata de conjectura sem valor probatório.
Ao final de sua fala, Gilmar Mendes apresentou questão de ordem para adiar o julgamento para 23 de setembro, mesma data agendada para análise do pedido de Moraes de investigar Mendonça por abuso de autoridade na condução do caso. A sessão foi então suspensa para intervalo, com previsão de retorno às 15h. Os ministros Kássio Nunes Marques e Dias Toffoli declararam-se impedido e suspeito, respectivamente, e não participarão da votação. Moraes e Mendonça acompanham os trabalhos sentados lado a lado no plenário.
O que se desenrola no Supremo transcende os limites de um processo judicial: expõe uma crise institucional sem precedentes, em que acusações recíprocas, documentos de credibilidade questionada e interesses que se entrelaçam com a campanha eleitoral tornam cada passo decisivo. A sociedade acompanha na expectativa de que os próximos desdobramentos se pautem pela clareza, pela lisura e pelo respeito às normas que regem a instituição. O julgamento não definirá apenas o destino de um ou dois ministros; reafirmará ou abalará a confiança do país no mais alto tribunal da nação.





