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Empresa chinesa aumentou seu lucro na gestão Lula após visita de Rui Costa à China

O governo federal ampliou de forma expressiva os pagamentos à Hospcom Equipamentos Hospitalares, representante da chinesa Mindray no Brasil, durante 2026. Segundo levantamento do Metrópoles com base em dados do Siga Brasil, a empresa recebeu R$ 107 milhões do governo federal até 24 de agosto deste ano, enquanto os pagamentos haviam somado pouco mais de R$ 8 milhões em todo o ano de 2025. O aumento ocorreu após agendas de integrantes do governo brasileiro na China, entre elas reuniões com representantes da fabricante de equipamentos médicos.

A Hospcom venceu, no fim de 2025, uma licitação realizada pelo Ministério da Saúde para fornecer equipamentos destinados à rede pública. Por meio do Programa de Aceleração do Crescimento na área da Saúde, foram contratados 978 aparelhos, incluindo equipamentos de anestesia, monitores, sistemas de endoscopia e ultrassom portátil, com contratos que somam R$ 108 milhões. Portanto, embora os pagamentos tenham se concentrado em 2026, parte importante da contratação havia sido definida antes da visita do ministro Alexandre Padilha à sede da Mindray.

O assunto ganhou atenção porque os pagamentos mais expressivos começaram a ser realizados depois da visita de Padilha à sede da empresa, em Shenzhen, na China, em março de 2026. Segundo os registros citados na reportagem, até aquele mês o governo federal havia pago R$ 354 mil à Hospcom, enquanto em abril foram pagos R$ 13 milhões e, em maio, outros R$ 12 milhões. Ao mesmo tempo, a Mindray divulgou que a reunião com a delegação brasileira tratou de cooperação em tecnologia médica, saúde digital e modernização do sistema de saúde.

Governo Lula e a expansão dos pagamentos à Mindray

A relação entre o governo brasileiro e a fabricante chinesa também havia sido registrada durante uma viagem de Rui Costa, então ministro da Casa Civil, à China, em abril de 2025. Na ocasião, Costa participou de uma reunião com representantes de empresas no Novo Banco de Desenvolvimento, em Xangai, e a Mindray estava entre as companhias representadas no encontro. A Casa Civil afirmou que a agenda teve caráter institucional e envolveu diferentes empresas, negando relação entre a reunião e processos posteriores de contratação ou pagamento.

Depois da licitação realizada pelo Ministério da Saúde, os contratos passaram a prever o fornecimento de centenas de equipamentos para o sistema público. Segundo a pasta, os lances vencedores foram até 49,6% inferiores aos apresentados pelos demais concorrentes, o que teria representado uma economia de R$ 94,8 milhões aos cofres públicos. Dessa forma, o Ministério da Saúde rejeitou a relação entre as viagens oficiais e o crescimento dos pagamentos, afirmando que as compras seguiram procedimentos de licitação.

A própria Hospcom também apresentou uma explicação para a concentração dos pagamentos em 2026. O fundador da empresa, Weverton Coelho, afirmou que a companhia reduziu significativamente os preços durante o pregão eletrônico, enquanto a empresa declarou que os pagamentos seguiram o ciclo administrativo de fornecimento, recebimento, liquidação e pagamento. A Mindray, por sua vez, informou que o crescimento dos negócios decorreu de operações comerciais e processos de contratação específicos, sem relação com visitas oficiais de autoridades brasileiras ao exterior.

Contratos da Hospcom entram no centro da discussão

Os números ajudam a dimensionar a mudança registrada nos pagamentos federais à representante da Mindray. Até 24 de agosto de 2026, os repasses para a Hospcom haviam alcançado R$ 107 milhões, valor que correspondia a uma parcela relevante do faturamento anual informado pela própria empresa em entrevista publicada em agosto. Segundo a reportagem, a Hospcom havia registrado faturamento de R$ 240 milhões em todo o Brasil em 2025, o que permite dimensionar a importância dos contratos públicos em seu desempenho recente.

Outro ponto mencionado na apuração envolve a participação da empresa na preparação das especificações técnicas antes das licitações. Em entrevista à revista Exame, Gabriel Coelho, filho do fundador da Hospcom, afirmou que a companhia participa da definição das especificações técnicas antes mesmo da abertura dos processos licitatórios. Essa informação, porém, não significa por si só que tenha ocorrido alguma irregularidade, já que a contratação mencionada pelo Ministério da Saúde foi realizada por meio de licitação e os órgãos envolvidos negam qualquer relação indevida entre as agendas oficiais e os contratos.

Além da Saúde, os pagamentos registrados em 2026 também envolveram outros órgãos federais, incluindo hospitais universitários e unidades das Forças Armadas. O levantamento do Metrópoles apontou que a Hospcom se tornou, naquele período, a empresa que mais recebeu recursos do governo federal pela venda de equipamentos médico-hospitalares. A comparação foi feita com grandes fabricantes do setor, como Philips, Siemens Healthcare, GE Healthcare e Canon Healthcare, considerando os pagamentos registrados no período analisado.

O que dizem o governo e a empresa sobre os pagamentos

O Ministério da Saúde classificou como descabida a associação entre as visitas dos ministros à China e o aumento dos pagamentos à Hospcom. A pasta informou ainda que, durante a viagem, foram realizados contatos com 18 empresas e que, desde 2025, ocorreram mais de 50 reuniões com empresas, associações, órgãos governamentais e hospitais de diferentes países. Assim, segundo a versão oficial, a relação comercial com a representante da Mindray deve ser compreendida dentro dos processos de contratação e da execução dos contratos firmados.

A Mindray também negou qualquer relação entre suas atividades comerciais no Brasil e as agendas oficiais de autoridades brasileiras no exterior. A Casa Civil, por sua vez, declarou que a reunião de Rui Costa na China teve caráter institucional e que posteriormente houve outro encontro em Brasília com representantes da empresa, voltado à apresentação de soluções e planos relacionados à pauta de hospitais inteligentes. Portanto, até o momento, as informações divulgadas apresentam versões oficiais que contestam a existência de uma relação causal entre as viagens dos ministros e o aumento dos pagamentos.

A evolução dos gastos com a Hospcom, entretanto, mantém o tema sob atenção por causa da diferença entre os valores registrados em 2025 e 2026 e da proximidade temporal entre algumas agendas oficiais e os pagamentos mais expressivos. A contratação, conforme informado pelo Ministério da Saúde, foi precedida por uma licitação vencida pela empresa no final de 2025, enquanto os desembolsos ocorreram conforme a execução dos contratos. O caso reúne, portanto, dados sobre compras públicas, viagens oficiais, fornecedores internacionais e pagamentos federais, mas as informações disponíveis não estabelecem, por si mesmas, uma irregularidade.

A visita de Alexandre Padilha à sede da Mindray, em Shenzhen, ocorreu em março de 2026 e foi oficialmente apresentada como uma agenda voltada à cooperação em tecnologia médica e ao fortalecimento da saúde pública. No mês seguinte, os pagamentos à representante brasileira da empresa aumentaram significativamente, enquanto o governo sustentou que os valores estavam vinculados à entrega dos produtos e aos procedimentos administrativos previstos nos contratos. A análise dos dados e das explicações apresentadas pelas partes permite acompanhar a evolução do caso sem confundir a coincidência temporal entre eventos com uma conclusão sobre eventual irregularidade.

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Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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