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Trump convenceu seus 14 aliados a classificarem o PCC e o CV como grupos terroristas

O chamado Escudo das Américas, iniciativa liderada pelo governo de Donald Trump, ampliou a pressão internacional sobre o Brasil no debate envolvendo o combate ao crime organizado. Durante a Assembleia Geral da ONU, realizada em Nova York, países latino-americanos alinhados aos Estados Unidos anunciaram uma ação conjunta contra 24 organizações criminosas, incluindo o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). A medida colocou o governo de Luiz Inácio Lula da Silva diante de uma articulação regional da qual o Brasil não participa e que adota uma classificação diferente daquela defendida pelo governo brasileiro.

Segundo a declaração divulgada pelos integrantes da aliança, os grupos listados são considerados uma ameaça compartilhada à segurança do continente. Entre as medidas anunciadas estão a possibilidade de congelamento de ativos, restrições migratórias e de vistos, além de responsabilização criminal de pessoas que forneçam apoio material ou logístico às organizações, conforme as legislações de cada país. A iniciativa foi apresentada como uma primeira ação coordenada de combate ao chamado narcoterrorismo na região.

O movimento ocorreu depois dos discursos de Trump e Lula na Assembleia Geral das Nações Unidas, nos quais os dois presidentes apresentaram abordagens diferentes sobre segurança, soberania e atuação internacional. Trump defendeu uma atuação mais dura dos Estados Unidos contra organizações criminosas e mencionou o uso do poder americano para defender interesses no Hemisfério Ocidental. Lula, por sua vez, afirmou que o Brasil pretende combater o crime organizado por meio de cooperação internacional, mas sem transferir para outros países a responsabilidade pela segurança de suas fronteiras.

Escudo das Américas reúne aliados de Trump

O Escudo das Américas foi criado em março de 2026 por iniciativa do governo Trump com o objetivo declarado de ampliar a cooperação regional contra o narcotráfico e o crime organizado. Entre os países que participam da iniciativa estão Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai e Peru, além de outras nações que participaram da declaração sobre as organizações criminosas. O Brasil não integra a coalizão e também não participou da decisão anunciada em Nova York.

A declaração sobre PCC e CV foi assinada por governos latino-americanos que adotaram a classificação americana dos grupos como organizações terroristas. A decisão ocorreu sem que o governo brasileiro tivesse sido previamente informado sobre o anúncio, segundo informações divulgadas pela imprensa brasileira, o que provocou surpresa no Palácio do Planalto e no Itamaraty. A articulação também ganhou relevância por ocorrer poucas semanas antes das eleições brasileiras e em um período de tensão diplomática entre Brasília e Washington.

A posição dos países envolvidos acompanha uma mudança promovida anteriormente pelos Estados Unidos, que passaram a classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. No Brasil, porém, a discussão jurídica segue parâmetros próprios, e representantes do governo Lula têm sustentado que o combate às facções deve considerar as características do crime organizado brasileiro e utilizar mecanismos de cooperação internacional. A diferença de abordagem passou a ocupar espaço importante nas relações entre os dois governos.

Governo Lula defende outra estratégia contra facções

O governo brasileiro tem defendido uma estratégia baseada em cooperação entre autoridades, troca de informações e combate aos fluxos financeiros utilizados pelas organizações criminosas. Em discurso na ONU, Lula afirmou que o país não pretende terceirizar a responsabilidade pela defesa de suas fronteiras e pela segurança da população. O presidente também defendeu ações internacionais para interromper o fluxo de armas e dinheiro utilizado pelo crime organizado.

A posição brasileira também está relacionada à diferença entre a classificação adotada pelos Estados Unidos e a legislação nacional sobre terrorismo. Enquanto Washington incluiu PCC e CV em sua relação de organizações terroristas, o governo brasileiro argumenta que essas organizações possuem atuação essencialmente ligada a atividades criminosas e financeiras. Essa divergência não impede a cooperação contra o crime, mas estabelece limites diferentes para a forma como cada país enquadra juridicamente as facções.

O Ministério da Justiça já havia rejeitado críticas de Washington sobre uma suposta falta de atuação brasileira contra o crime organizado. Em resposta a manifestações anteriores do governo americano, a pasta citou medidas adotadas no país e defendeu que o Brasil possui iniciativas próprias de combate às organizações criminosas transnacionais. A divergência passou a envolver também a forma de cooperação entre os países e a definição de quais instrumentos devem ser utilizados contra PCC e CV.

Diferenças sobre segurança ganham dimensão diplomática

A disputa de posições sobre as facções passou a fazer parte de um cenário diplomático mais amplo entre Brasil e Estados Unidos. Enquanto Trump vem reunindo governos latino-americanos próximos de sua política externa em uma estrutura regional de segurança, Lula tem defendido o multilateralismo e a soberania nacional como princípios para a atuação brasileira. O contraste ficou evidente durante a Assembleia Geral da ONU, quando os dois presidentes apresentaram visões diferentes sobre o papel de seus países na região.

A iniciativa do Escudo das Américas também mostra que a discussão sobre o crime organizado deixou de ficar restrita às políticas internas de cada país. Com a inclusão de organizações brasileiras em uma declaração conjunta de governos estrangeiros, as ações contra PCC e CV passaram a ser tratadas dentro de uma agenda regional de segurança. A aplicação concreta das medidas, entretanto, dependerá das legislações e dos procedimentos adotados individualmente pelos países participantes.

Para o governo americano, a adesão dos países representa uma ampliação da cooperação regional no combate ao narcotráfico e às organizações criminosas. Já o governo brasileiro mantém uma posição diferente e defende que ações internacionais contra as facções sejam realizadas por meio de cooperação, sem comprometer a autonomia do país. O resultado é uma diferença de estratégias que passou a ganhar maior visibilidade justamente durante a principal reunião diplomática anual das Nações Unidas.

Brasil fica diante de novo cenário regional

A criação do Escudo das Américas e a decisão de incluir PCC e CV entre os grupos classificados pela aliança estabeleceram um novo cenário para o debate internacional sobre segurança na América Latina. O Brasil ficou fora da coalizão, enquanto países vizinhos aderiram à iniciativa liderada pelos Estados Unidos e anunciaram medidas coordenadas contra as organizações listadas. A mudança deverá manter o tema no centro das discussões diplomáticas entre Brasília, Washington e os demais governos da região.

A controvérsia também deverá continuar sendo acompanhada no Brasil porque envolve segurança pública, relações internacionais e diferentes interpretações jurídicas sobre o terrorismo. Enquanto os Estados Unidos e seus aliados adotam uma classificação comum para as facções, o governo brasileiro sustenta uma estratégia baseada na legislação nacional e na cooperação internacional. As próximas ações dos países envolvidos deverão mostrar como a declaração conjunta será transformada em medidas práticas contra as organizações criminosas.

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Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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