Médica envolvida em polêmica divulgou nota alegando que nunca negou alta médica a paciente por causa de partido

A médica ginecologista e obstetra Marcella Segato de Sousa Melo afirmou que “o voto é secreto” ao se manifestar após ser denunciada por sugerir que pacientes identificadas como eleitoras do Partido dos Trabalhadores (PT) não recebessem alta hospitalar durante o primeiro turno das eleições de 2026. Em nota divulgada à imprensa, a profissional pediu desculpas às pacientes, aos familiares, aos colegas de trabalho e ao hospital onde atuava. O caso foi noticiado pelo portal Metrópoles em reportagem de Isabella Wagner, publicada na quinta-feira (8).
Marcella trabalhava como profissional terceirizada no Hospital Municipal da Mulher e Maternidade Célia Câmara, em Goiânia, Goiás. Ela foi demitida após a repercussão de mensagens enviadas em um grupo de WhatsApp de profissionais de saúde, nas quais orientou que pacientes não recebessem alta no fim de semana da votação. Na mensagem, a médica justificou a orientação afirmando que a maioria das pacientes seria petista, o que provocou denúncias e questionamentos sobre o uso de critérios políticos em decisões médicas.
Na nota, a médica reconheceu que suas mensagens destoaram do compromisso profissional que deveria orientar sua atuação. Entretanto, negou que as declarações tenham se transformado em ações contra pacientes e afirmou que nenhuma alta foi atrasada ou negada por motivação política. Segundo ela, todas as decisões foram tomadas exclusivamente com base em critérios clínicos, sem considerar as preferências eleitorais das mulheres atendidas.
Médica pede desculpas e nega retaliação política
Ao se pronunciar publicamente, Marcella pediu desculpas às pacientes e às famílias, além de estender o pedido aos colegas, aos internos de medicina e à instituição hospitalar. Ela afirmou lamentar que as mensagens tenham provocado questionamentos sobre sua conduta profissional. A médica também declarou que o conteúdo divulgado não representaria a maneira como sempre conduziu o atendimento às pacientes.
Em um dos trechos da nota, a profissional reforçou que nenhuma paciente teve a alta hospitalar atrasada ou negada por causa de sua preferência política. Ela afirmou que as avaliações médicas e as liberações ocorreram exclusivamente de acordo com os critérios clínicos adotados na unidade. Ao mencionar o sigilo do voto, ressaltou que a escolha eleitoral deve ser respeitada e não pode resultar em qualquer tipo de retaliação.
Marcella também afirmou que realiza partos desde 2017 e que, ao longo desse período, atendeu milhares de mulheres com diferentes origens e convicções. Segundo a médica, esse histórico representa o compromisso que considera fundamental para sua vida profissional. A declaração foi apresentada como parte de sua defesa diante da repercussão das mensagens e das acusações relacionadas ao episódio.
Mensagem foi enviada antes do primeiro turno
O caso começou na sexta-feira, 2 de outubro, dois dias antes da votação do primeiro turno das eleições presidenciais. Na ocasião, Marcella enviou uma mensagem ao grupo de profissionais de saúde com orientações para quem trabalharia na enfermaria durante o fim de semana. No texto, ela escreveu que ninguém deveria receber alta no domingo porque, segundo sua avaliação, a maioria das pacientes seria eleitora do PT.
A mensagem recebeu reações de integrantes do grupo, incluindo manifestações com emojis de risada, sinal de positivo e bandeira do Brasil. De acordo com as informações divulgadas pelo Metrópoles, pelo menos 12 participantes reagiram à publicação, enquanto outros integrantes responderam diretamente à orientação. As conversas foram posteriormente utilizadas para embasar uma denúncia sobre possível tentativa de impedir que pacientes deixassem o hospital para votar.
O episódio também envolveu mensagens anteriores atribuídas à médica, nas quais ela teria relacionado o número 22, associado à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), a uma promessa de nota máxima para estudantes de medicina que votassem no candidato. Essa informação foi divulgada em reportagem anterior do Metrópoles sobre o caso. As mensagens ampliaram os questionamentos sobre a possível utilização de sua posição profissional para influenciar escolhas políticas.
Hospital confirma demissão e caso é investigado
O Hospital Municipal da Mulher e Maternidade Célia Câmara confirmou a demissão de Marcella, que trabalhava na unidade por meio de contratação terceirizada. Antes do desligamento, a instituição havia informado que a profissional estava afastada da escala e que não retornaria às atividades. O hospital também ressaltou que manifestações políticas pessoais não devem ser confundidas com as condutas médicas e assistenciais realizadas na unidade.
A médica foi denunciada ao Ministério Público Federal (MPF) pelo advogado Alan Henrique Silva Marques, que apresentou uma representação relacionada às mensagens divulgadas. O caso também chegou ao Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás (Cremego), que informou que as denúncias estão sendo apuradas sob sigilo, conforme as regras do processo ético-profissional médico. As investigações deverão avaliar os fatos relatados e verificar se houve alguma infração ética ou legal.
A demissão e as apurações ocorreram após a divulgação das mensagens, mas Marcella sustenta que não colocou em prática a orientação enviada ao grupo. A profissional afirma que nenhuma paciente foi prejudicada e que todas as altas foram definidas por critérios clínicos. O caso permanece marcado pela diferença entre o conteúdo das mensagens atribuídas à médica e a versão apresentada por ela sobre sua conduta efetiva no atendimento hospitalar.





