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Lula resgata estratégia dos anos 80 para enfrentar discurso de Flávio

Lula quer retomar “Fiscais do Sarney” contra Flávio

Na reta final do primeiro turno das eleições de 2026, uma antiga estratégia associada ao governo José Sarney voltou ao debate político brasileiro. Segundo informações divulgadas nesta quinta-feira (24), a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pretende estimular eleitores e apoiadores a acompanhar os preços praticados em mercados e estabelecimentos comerciais e, posteriormente, comparar esses valores com os registrados durante o governo de Jair Bolsonaro (PL). A iniciativa deverá ser utilizada principalmente nas redes sociais e em conteúdos de campanha. O objetivo declarado é responder ao discurso de Flávio Bolsonaro (PL), que tem explorado o custo de vida e a percepção de aumento dos preços como parte de sua campanha. A medida ganha relevância justamente nas semanas que antecedem o primeiro turno, marcado pelo Tribunal Superior Eleitoral para 4 de outubro.

Lula quer retomar “Fiscais do Sarney” em nova estratégia eleitoral

A referência aos “Fiscais do Sarney” remete ao Plano Cruzado, lançado em fevereiro de 1986 pelo então presidente José Sarney. Naquele momento, o Brasil enfrentava inflação extremamente elevada, e o governo adotou um conjunto de medidas que incluiu o congelamento de preços e salários, além da mudança da moeda. Como a estrutura oficial de fiscalização não conseguia acompanhar todos os estabelecimentos, a população foi convocada a colaborar no monitoramento do comércio. Milhares de consumidores passaram a observar os preços e denunciar estabelecimentos que descumprissem o congelamento. Assim, surgiu a expressão “Fiscais do Sarney”, que se tornou uma das marcas políticas mais conhecidas daquele período. Entretanto, a experiência também terminou associada a problemas de abastecimento e ao retorno da inflação, mostrando que controlar preços administrativamente não elimina, por si só, os fatores econômicos que determinam a inflação.

Comparação de preços vira instrumento político

A estratégia anunciada agora possui uma diferença importante em relação ao episódio dos anos 1980. Não se trata de um novo congelamento de preços nem de uma convocação para que consumidores tenham poder legal de fiscalização sobre comerciantes. A ideia, conforme relatado pela campanha petista, é produzir registros dos valores encontrados nas lojas e utilizar essas informações como material político para comparar diferentes períodos de governo. Dessa maneira, fotografias, vídeos e relatos de consumidores poderão ser transformados em conteúdo para redes sociais e programas eleitorais. A comparação, contudo, precisa ser interpretada com cuidado, porque o preço de um produto pode variar conforme região, marca, estabelecimento, período do ano, oferta, demanda, impostos, custos de transporte e condições de produção. Portanto, uma comparação pontual entre dois preços não equivale, necessariamente, a uma medição oficial da inflação.

Inflação, preços e poder de compra: entenda a diferença

O debate ganhou força porque o comportamento recente dos índices de preços apresenta sinais distintos. Em agosto de 2026, o IPCA, indicador oficial utilizado para medir a inflação de uma parcela ampla do consumo das famílias, registrou queda de 0,32%. Habitação recuou 1,87%, Transportes tiveram baixa de 0,86%, enquanto Alimentação e Bebidas caiu 0,34%. Entretanto, isso não significa que todos os produtos ficaram mais baratos nem que o nível geral de preços voltou ao patamar anterior. No acumulado de 12 meses até agosto, o IPCA ainda registrava alta de 4,22%. Além disso, a redução do índice mensal foi influenciada de maneira significativa pela queda de 7,63% na energia elétrica residencial, resultado associado ao Bônus de Itaipu. Portanto, a realidade percebida pelos consumidores pode ser diferente dependendo dos produtos e serviços que compõem o orçamento de cada família.

Lula quer retomar debate sobre preços em meio às projeções do mercado

Outro dado relevante está no Boletim Focus, pesquisa semanal do Banco Central que reúne expectativas de instituições do mercado financeiro. Na edição baseada nas projeções coletadas até 18 de setembro, a mediana apontou inflação de 4,92% para 2026, enquanto as estimativas ficaram em 4,30% para 2027 e 3,80% para 2028. Esses números são projeções, e não resultados já realizados. Além disso, a estimativa para 2026 está acima do teto de 4,5% da meta de inflação, embora o IPCA acumulado em 12 meses até agosto estivesse em 4,22%. Essa diferença ajuda a explicar por que a inflação continua sendo um tema politicamente sensível. De um lado, a campanha de Lula poderá destacar quedas recentes em determinados grupos de preços; de outro, a oposição poderá enfatizar o nível acumulado e a percepção de custo de vida das famílias.

O peso do custo de vida na campanha de 2026

Segundo a reportagem que revelou a estratégia, dirigentes petistas e bolsonaristas avaliam que o discurso sobre preços e poder de compra ganhou espaço entre eleitores de menor renda. Essa é uma interpretação atribuída aos integrantes das duas correntes políticas e não uma conclusão independente sobre o comportamento de todo o eleitorado. Ainda assim, o tema tem importância econômica concreta, porque inflação não é apenas uma questão estatística: ela afeta a capacidade de compra quando os preços avançam em ritmo superior à renda disponível. Por isso, tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro têm interesse político em apresentar sua própria leitura sobre a evolução dos preços. No caso da campanha petista, os registros feitos por apoiadores deverão ser utilizados para construir uma narrativa comparativa; já no campo de Flávio, a estratégia tem enfatizado mudança de governo e custo de vida.

O que está por trás da nova versão dos “Fiscais do Sarney”

A escolha do termo “Fiscais do Sarney” também tem um componente simbólico. Em 1986, a expressão ficou associada a um período em que consumidores se envolveram diretamente na fiscalização dos preços congelados pelo governo. Atualmente, entretanto, não existe a mesma estrutura de tabelamento geral que caracterizou o Plano Cruzado. O que está sendo planejado é uma mobilização digital de eleitores para registrar preços e produzir conteúdo político. Assim, a iniciativa poderá transformar supermercados, lojas e feiras em pontos de coleta informal de informações para a campanha. Ao mesmo tempo, a comparação exigirá critérios mínimos para evitar conclusões distorcidas: seria necessário considerar o mesmo produto, embalagem, região, estabelecimento e período, além de levar em conta a inflação acumulada. Dessa forma, a disputa sobre o custo de vida deverá continuar sendo travada tanto pelos indicadores oficiais quanto pelas experiências relatadas pelos consumidores.

Na prática, portanto, o retorno dos “Fiscais do Sarney” em 2026 deve ser entendido como uma estratégia de comunicação eleitoral inspirada em um episódio histórico, e não como uma repetição do Plano Cruzado. A campanha de Lula pretende usar registros de preços para contestar a avaliação de que a inflação estaria corroendo o poder de compra, enquanto Flávio Bolsonaro continuará apresentando sua própria interpretação sobre o custo de vida e a necessidade de mudança política. Ao eleitor, os diferentes argumentos poderão ser confrontados com indicadores oficiais, como o IPCA divulgado pelo IBGE, e com a evolução efetiva dos preços dos produtos que fazem parte do orçamento familiar. Afinal, uma fotografia de uma prateleira mostra o preço naquele estabelecimento e naquele momento, enquanto índices de inflação procuram medir uma variação mais ampla e metodologicamente definida. É justamente nessa diferença entre percepção individual, comparação política e estatística econômica que deverá se concentrar parte importante do debate eleitoral nas próximas semanas.

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Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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