Empresa americana financiada por Donald Trump Jr. planeja explorar terras raras em Minas Gerais

Uma empresa norte-americana financiada por um fundo que tem Donald Trump Jr. como sócio passou a integrar uma cadeia internacional que envolve o Projeto Caldeira, um dos principais empreendimentos de terras raras em desenvolvimento no Brasil. O projeto é conduzido pela australiana Meteoric Resources e está localizado na região de Caldas, Poços de Caldas e Andradas, no Sul de Minas Gerais. A conexão envolve ainda a canadense Ucore Rare Metals e a fabricante norte-americana de ímãs Vulcan Elements, criando uma rota de processamento que passa pelo Brasil, pelos Estados Unidos e pelo Canadá.
A Meteoric já enviou amostras do minério produzido no Projeto Caldeira para a Ucore, que pretende realizar etapas de separação dos elementos de terras raras e transformá-los em óxidos industriais. Depois desse processamento, o material poderá ser destinado à Vulcan Elements, empresa instalada na Carolina do Norte e especializada na fabricação de ímãs de terras raras. A Vulcan recebeu investimento da 1789 Capital, fundo do qual Donald Trump Jr. é sócio, estabelecendo a ligação empresarial entre o projeto mineiro e os negócios nos Estados Unidos.
A movimentação ocorre em um momento de disputa internacional pelo controle das cadeias de minerais considerados estratégicos para tecnologias avançadas. Terras raras como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio são utilizadas na fabricação de ímãs permanentes empregados em veículos elétricos, equipamentos eletrônicos, sistemas de defesa, drones e outras aplicações industriais. O interesse de empresas estrangeiras pelo Projeto Caldeira também se relaciona ao esforço de ampliar fontes de fornecimento fora da China, que mantém posição central no processamento mundial desses minerais.
Projeto Caldeira ganha importância na cadeia internacional
A operação planejada envolve diferentes etapas de uma cadeia de fornecimento que começa na extração do minério em Minas Gerais. Na planta piloto do Projeto Caldeira, a Meteoric produz um concentrado de terras raras que pode seguir para a Ucore, responsável por processos de separação e produção de óxidos na Louisiana. Em uma etapa posterior, esses produtos poderão abastecer a Vulcan Elements, que trabalha na fabricação de ímãs permanentes nos Estados Unidos.
Em março de 2026, Ucore e Vulcan anunciaram um acordo para testar amostras de óxidos de neodímio, praseodímio e disprósio e desenvolver uma futura cadeia comercial de fornecimento. A previsão divulgada pelas empresas é de que um acordo comercial possa começar a gerar fornecimento em escala a partir de 2027, caso os testes e demais etapas sejam concluídos. A iniciativa integra a estratégia da Vulcan para ampliar a produção norte-americana de ímãs de terras raras destinados a aplicações comerciais e de defesa.
A Vulcan também recebeu apoio financeiro do governo dos Estados Unidos para ampliar sua capacidade industrial. A empresa anunciou uma parceria de US$ 1,4 bilhão com o governo norte-americano para construir uma unidade de fabricação de ímãs em Benson, na Carolina do Norte, enquanto documentos citados em reportagens indicam um compromisso condicional de empréstimo de US$ 620 milhões. O investimento da 1789 Capital na Vulcan ocorreu em agosto de 2025, segundo as informações divulgadas sobre a operação.
Dimensão do megaprojeto de terras raras em Minas Gerais
O Projeto Caldeira possui uma área de aproximadamente 19,2 mil hectares distribuída pelos municípios de Andradas, Caldas e Poços de Caldas. A Meteoric estima um potencial exploratório de cerca de 1,6 bilhão de toneladas de material e trabalha com a possibilidade de uma operação de longo prazo na região. O empreendimento é considerado um dos maiores projetos brasileiros de terras raras em desenvolvimento e já recebeu atenção de instituições estrangeiras interessadas na criação de novas fontes de minerais críticos.
A planta piloto da Meteoric processou, em uma etapa informada pela companhia em junho, 43 toneladas de minério do Projeto Caldeira e produziu mais de 200 quilos de concentrado de terras raras. Parte desse material foi enviada para a Ucore para análises relacionadas à qualidade e ao aproveitamento dos elementos necessários para a fabricação de ímãs. A empresa australiana informou uma recuperação média de 71% dos elementos críticos avaliados nos testes realizados com o minério.
A companhia projeta uma produção média anual de aproximadamente 12,5 mil toneladas de óxidos de terras raras durante mais de duas décadas de operação. Desse volume, pelo menos 3 mil toneladas anuais poderão ser destinadas ao acordo previsto com a Ucore, caso a parceria avance para a fase comercial. O projeto ainda depende de novas etapas de licenciamento para avançar da fase piloto para a operação industrial, tendo obtido anteriormente a Licença Prévia do Conselho Estadual de Política Ambiental de Minas Gerais.
Disputa internacional por minerais críticos chega ao Sul de Minas
O interesse pelo Projeto Caldeira ocorre em meio ao esforço dos Estados Unidos e de outros países ocidentais para diversificar o fornecimento de terras raras e reduzir a dependência das cadeias dominadas pela China. O próprio projeto mineiro já aparece em estudos sobre minerais críticos como um ativo relevante para o fornecimento de terras raras pesadas, enquanto instituições norte-americanas demonstraram interesse em apoiar projetos brasileiros do setor. Nesse contexto, a possível integração entre Meteoric, Ucore e Vulcan coloca o empreendimento mineiro dentro de uma cadeia internacional que busca conectar mineração, separação, refino e fabricação de ímãs.
A relação com Donald Trump Jr. ocorre por meio da 1789 Capital, fundo que investiu na Vulcan Elements e que tem o filho do presidente dos Estados Unidos como sócio. Em março de 2026, Vulcan e Ucore formalizaram um memorando para desenvolver uma cadeia integrada de ímãs de terras raras nos Estados Unidos, com previsão de fornecimento comercial futuro após a conclusão dos testes. Representantes da Meteoric, Ucore, Vulcan Elements, 1789 Capital e Donald Trump Jr. foram procurados pela imprensa para comentar as negociações, mas não haviam apresentado posicionamento até o fechamento da reportagem utilizada como base para o caso.





