Felipe Nunes, diretor da Quaest, explicou que Flávio tem mais chance de chegar ao Planalto porque venceu o primeiro turno

Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 na liderança e, segundo Felipe Nunes, diretor da Quaest, passou a ser considerado favorito para a disputa contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A avaliação foi apresentada pelo cientista político em entrevista ao jornal O Globo e repercutida pelo Estado de Minas nesta segunda-feira, 5 de outubro. Nunes destacou que Flávio chegou à segunda etapa com vantagem numérica e afirmou que, historicamente, nenhum candidato que terminou o primeiro turno na liderança perdeu a eleição presidencial no segundo turno.
O resultado da primeira votação colocou Flávio com pouco mais de 47% dos votos válidos, enquanto Lula ficou com pouco mais de 45%. A diferença foi próxima de dois pontos percentuais, mas, na análise de Nunes, o cenário não deve ser observado apenas pela distância entre os dois candidatos. Para o diretor da Quaest, a evolução das candidaturas durante as semanas finais da campanha também ajuda a explicar por que Flávio iniciou o segundo turno em uma posição diferente daquela indicada pelas pesquisas divulgadas antes da votação.
Um dos principais elementos apontados pelo analista foi o chamado voto útil entre eleitores que inicialmente haviam escolhido outras candidaturas. Segundo Nunes, nomes como Ronaldo Caiado, Augusto Cury, Renan Santos e Romeu Zema funcionaram como uma espécie de reservatório de votos da direita durante boa parte do primeiro turno. Na reta final, parte desse eleitorado teria migrado para Flávio diante da percepção de que os demais candidatos não conseguiriam chegar ao segundo turno.
Voto útil fortaleceu Flávio na reta final
De acordo com Felipe Nunes, as candidaturas alternativas somavam aproximadamente 16% das intenções de voto em determinado momento da campanha e terminaram o primeiro turno com cerca de 8%. Na avaliação dele, esses oito pontos percentuais ajudam a explicar o crescimento de Flávio na fase decisiva da eleição. O movimento teria sido acompanhado pela consolidação do voto de parte do eleitorado de direita em torno da candidatura do PL.
Nunes também relacionou esse comportamento a uma transformação na identificação política do eleitorado brasileiro. Segundo os dados citados pelo diretor da Quaest, em 2002 cerca de 25% dos eleitores não se identificavam como sendo de esquerda, direita ou centro, enquanto atualmente esse grupo teria caído para aproximadamente 4%. Na interpretação apresentada pelo cientista político, o crescimento da identificação ideológica tornou valores políticos um fator mais relevante para explicar o comportamento eleitoral.
O diretor da Quaest avaliou ainda que o voto econômico, embora continue tendo importância, não explicaria sozinho o resultado registrado em 2026. Na visão apresentada por ele, questões relacionadas a valores e identidade política ganharam espaço durante a campanha e ajudaram a consolidar o eleitorado de direita. Fatores ligados à avaliação do governo Lula também foram citados como elementos que contribuíram para o cenário encontrado nas urnas.
Lula terá de buscar votos fora da base
Para Felipe Nunes, um dos principais desafios de Lula no segundo turno será conquistar os votos que permaneceram fora das duas candidaturas mais votadas. O grupo corresponde a aproximadamente 8% dos votos, considerando o percentual que, segundo sua análise, restou das candidaturas que não avançaram para a etapa decisiva. Em uma disputa com diferença relativamente pequena entre os dois primeiros colocados, esse eleitorado passa a ter importância central para as estratégias das campanhas.
O cientista político avaliou que parte desses eleitores não se identifica integralmente com nenhum dos dois candidatos. Por isso, a disputa pelo grupo não seria simplesmente uma questão de transferir automaticamente os votos dos candidatos derrotados para Flávio ou Lula. Segundo Nunes, muitos desses eleitores rejeitam as duas opções e deverão ser disputados por meio das propostas, alianças, debates e estratégias adotadas durante as próximas semanas.
Outro ponto citado pelo diretor da Quaest foi a necessidade de Lula reconstruir uma frente ampla semelhante à formada em 2022. Nunes afirmou que parte dos chamados liberais sociais teria se afastado do governo e que alguns desses eleitores permaneceram inicialmente em candidaturas como as de Caiado, Renan Santos e Augusto Cury. Na avaliação dele, a campanha petista precisará buscar novamente esse segmento para ampliar sua votação no segundo turno.
Segundo turno será definido em 25 de outubro
A análise de Felipe Nunes ocorre no início de uma nova etapa da eleição presidencial, agora restrita a Flávio Bolsonaro e Lula. A votação do segundo turno está marcada para 25 de outubro, e os dois candidatos deverão reorganizar suas campanhas para buscar eleitores que votaram nos concorrentes eliminados na primeira etapa. Também deverão ser considerados os votos de eleitores que não compareceram às urnas e que podem alterar o resultado final caso decidam participar da segunda votação.
Nunes também apontou a abstenção como outro elemento a ser observado na segunda etapa. Segundo ele, historicamente a ausência às urnas é maior entre eleitores mais velhos e nas regiões mais pobres, o que pode levar as campanhas a adotarem estratégias específicas para estimular a participação. Os debates também foram mencionados pelo diretor da Quaest como uma oportunidade para os candidatos disputarem diretamente os votos que ainda não estão consolidados.
Assim, a avaliação de Felipe Nunes coloca Flávio Bolsonaro em uma posição de vantagem no início do segundo turno, mas também destaca os obstáculos que ainda estarão presentes até a votação. A liderança obtida no primeiro turno e o movimento de voto útil são apontados pelo diretor da Quaest como fatores importantes, enquanto Lula terá de buscar eleitores fora de sua base tradicional e tentar recompor uma frente política mais ampla. O resultado definitivo, porém, será conhecido apenas após a votação de 25 de outubro, quando os eleitores decidirão entre os dois candidatos que avançaram para a etapa final.





