Lula critica STF após primeiro turno e volta a defender reforma do Judiciário

Um dia após encerrar o primeiro turno em posição de desvantagem numérica, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) elevou o tom das críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF) durante reunião com aliados realizada nesta segunda-feira (5), em Brasília. No encontro, que reuniu ministros, senadores, presidentes de legendas e políticos eleitos no último domingo, o petista afirmou que o governo vem “carregando nas costas a promiscuidade da Suprema Corte”, em referência às acusações de envolvimento de ministros com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, e voltou a defender a necessidade de reformas no Poder Judiciário.
A avaliação interna da campanha aponta que a imagem do ministro Alexandre de Moraes foi associada à de Lula no imaginário eleitoral, e que as revelações recentes prejudicaram o desempenho do presidente nas urnas. O próprio Lula admitiu insatisfação com o resultado obtido. “Vocês acham que eu não fiquei decepcionado? Em toda eleição eu quero vencer logo no primeiro turno”, declarou. Os números confirmam a disputa acirrada: Flávio Bolsonaro (PL) obteve 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula registrou 45,16%, com uma diferença de aproximadamente 2 pontos percentuais. O petista também recebeu 3.379.966 votos a menos do que no primeiro turno de 2022.
Outro dado que chamou a atenção foi a elevada taxa de abstenção: 33 milhões de eleitores não compareceram às urnas, o que corresponde a 21,08% do total. “Será que a população não se identificou com os candidatos?”, questionou o presidente. A mobilização desse público ausente é vista como uma das frentes prioritárias da campanha, já que o volume de votos não depositados é suficiente para alterar o cenário da disputa no segundo turno, marcado para o dia 25 de outubro.
Ao rebater propostas de ajuste fiscal apresentadas pela campanha adversária, Lula defendeu que austeridade não pode significar retrocesso social. “Toda vez que se fala em rigidez nas contas públicas, o que está em jogo são as políticas de inclusão que transformaram a vida de milhões de brasileiros”, assinalou. A mensagem busca apresentar a disputa como uma escolha entre dois modelos de país: um que prioriza equilíbrio com proteção social e outro que adota medidas de contenção que, na visão do governo, podem prejudicar parcelas mais vulneráveis da população.
Na área de segurança pública, tema que ganhou destaque ao longo da campanha, o presidente sinalizou mudança de tom e de ênfase. “Vamos deixar claro: o cidadão tem o direito de viver em paz, quem comete desvios deve responder por seus atos, e os espaços públicos precisam ser locais livres para todos”, afirmou. A nova postura pretende demonstrar firmeza e clareza, atendendo a uma demanda que aparece recorrentemente nas pesquisas e que tem sido explorada pelo adversário como um de seus pontos mais fortes.
Lula demonstrou confiança em reverter o quadro e citou experiência eleitoral anterior para embasar a expectativa de crescimento. “Não vejo razões econômicas, sociais ou políticas para não vencermos”, disse. Relembrou a disputa de 2006, quando enfrentou Geraldo Alckmin — hoje vice-presidente — e ampliou sua votação em 12 milhões de sufrágios entre os dois turnos, enquanto o adversário recuou. “Uma campanha bem feita deixa marca, e essa marca pode se transformar em vitória”, afirmou aos aliados, ao destacar o trabalho realizado por candidatos que não conseguiram eleição, mas ajudaram a fortalecer a base de apoio.
A reunião no Hotel San Marco serviu para alinhar estratégias e renovar o compromisso dos participantes com a etapa que se inicia. A diferença estreita torna cada voto valioso e cada argumento decisivo. Nas próximas três semanas, a campanha buscará apresentar com clareza seus projetos, dialogar com os indecisos e reconquistar a confiança de quem ainda não definiu seu caminho. A palavra final, porém, continuará sendo do eleitor, que comparecerá livremente às urnas para escolher os rumos do Brasil.





