Apoio de Temer poderá ajudar Flávio Bolsonaro a conseguir uma maior aproximação com a política tradicional

O ex-presidente Michel Temer passou a ocupar um espaço estratégico na campanha de Flávio Bolsonaro para o segundo turno da eleição presidencial de 2026. O apoio foi anunciado por Temer na segunda-feira, 5 de outubro, depois de o senador do PL avançar para a etapa decisiva da disputa contra Luiz Inácio Lula da Silva. Nos bastidores, a presença do ex-presidente é tratada por aliados de Flávio como uma maneira de aproximar a candidatura de setores da política tradicional e transmitir uma imagem de maior interlocução institucional.
Temer divulgou um vídeo nas redes sociais no qual afirmou que o resultado das urnas demonstrou o desejo da população por mudança, novas ideias e novos projetos. Ao declarar que essa busca por reconexão estaria representada por Flávio, o ex-presidente formalizou uma adesão que passou a ter importância além do apoio individual. O movimento também ocorre em um momento no qual a campanha do candidato do PL busca ampliar sua relação com lideranças de centro e alcançar eleitores que votaram na legenda, mas não necessariamente mantêm identificação com a família Bolsonaro.
A estratégia ganhou relevância porque parte do eleitorado que participou do primeiro turno deverá ser novamente disputada nas semanas que antecedem a votação final. Segundo a coluna PlatôBR, aliados de Flávio avaliam que Temer pode ser apresentado como uma figura capaz de aproximar diferentes setores políticos e reduzir preocupações de eleitores independentes. Nesse contexto, a expressão “adulto na sala” foi utilizada para descrever o papel que a campanha atribui ao ex-presidente, sobretudo pela experiência acumulada em negociações políticas e institucionais.
Temer é escalado por Flávio para aproximar o centro
A escolha de Temer como uma das figuras de apoio na segunda etapa da eleição está relacionada à trajetória política do ex-presidente e à sua capacidade de diálogo com diferentes grupos. Michel Temer ocupou a Presidência entre 2016 e 2018, depois de ter sido vice-presidente de Dilma Rousseff e de assumir o cargo após o impeachment da petista. Antes disso, construiu uma longa carreira no Congresso Nacional e presidiu a Câmara dos Deputados em três ocasiões, experiência que contribuiu para sua atuação como articulador político.
Além disso, Temer já teve participação em momentos de tensão entre o governo de Jair Bolsonaro e o Supremo Tribunal Federal. Em 2021, durante a crise provocada pelos atos de 7 de setembro e pelos ataques de Bolsonaro ao ministro Alexandre de Moraes, Temer foi chamado para ajudar na construção de uma saída institucional. Na ocasião, uma declaração de pacificação foi elaborada com participação do ex-presidente, e também foi intermediado um contato telefônico entre Bolsonaro e Moraes.
Essa experiência ajuda a explicar por que o apoio de Temer passou a ser observado também pelo aspecto institucional. A relação do ex-presidente com integrantes do Judiciário e sua experiência na articulação entre Poder Executivo, Congresso e demais instituições são consideradas elementos que podem ser utilizados pela campanha de Flávio para dialogar com um eleitorado menos identificado com o bolsonarismo tradicional. Dessa forma, sua presença passou a ser associada à tentativa de apresentar uma composição política mais ampla no segundo turno.
Apoio de Temer ganha peso na campanha de Flávio Bolsonaro
A aproximação também acontece depois de Flávio Bolsonaro ampliar sua busca por apoio entre partidos e lideranças que não estiveram necessariamente alinhados à sua candidatura durante o primeiro turno. Além de Temer, o senador recebeu manifestações de apoio de outras figuras políticas, enquanto dirigentes partidários passaram a discutir posições para a etapa final da eleição. O movimento mostra que a campanha passou a priorizar a construção de uma base mais abrangente para enfrentar Lula.
O apoio de Temer, entretanto, possui uma característica própria porque o ex-presidente não é identificado historicamente com o núcleo familiar Bolsonaro. Sua trajetória está ligada ao MDB e à política institucional construída durante décadas no Congresso, o que permite que sua adesão seja apresentada como uma aproximação entre diferentes grupos. Ao mesmo tempo, o MDB nacional não havia adotado uma posição partidária única para o segundo turno, de modo que a manifestação de Temer representa uma decisão pessoal e não necessariamente uma orientação para toda a legenda.
Outro aspecto destacado no contexto da adesão é a relação política de Temer com Lula. O ex-presidente foi vice de Dilma Rousseff e assumiu o governo após o impeachment de 2016, episódio que provocou uma ruptura profunda entre ele e o campo político petista. Desde então, Temer passou a ser alvo frequente de críticas de integrantes do PT, enquanto manteve atuação política mais próxima de setores do centro. Portanto, sua declaração de apoio a Flávio também ocorre sobre um histórico de divergências com o atual presidente.
Flávio Bolsonaro busca eleitor independente no segundo turno
A estratégia de aproximação com Temer está inserida em uma disputa na qual o eleitorado que não possui identificação direta com nenhum dos dois principais grupos políticos pode ter papel relevante. A campanha de Flávio pretende ampliar o alcance da candidatura para além do eleitor tradicionalmente alinhado ao bolsonarismo, enquanto Lula também busca atrair segmentos que votaram em outros candidatos no primeiro turno. Nesse cenário, apoios de lideranças com diferentes trajetórias passaram a ser utilizados para ampliar as possibilidades de diálogo com públicos distintos.
Para os aliados de Flávio ouvidos pela coluna, Temer pode ajudar a transmitir a ideia de que setores da política tradicional estarão presentes em um eventual governo do candidato do PL. A tentativa é associar a experiência política do ex-presidente a uma maior capacidade de interlocução com instituições e grupos que não fazem parte diretamente do núcleo bolsonarista. Assim, o apoio anunciado em outubro passou a desempenhar uma função específica na comunicação da campanha durante o segundo turno.
A movimentação também precisa ser compreendida dentro do novo cenário político definido pelo primeiro turno, no qual o PL ampliou sua presença no Congresso Nacional. Flávio terminou a primeira etapa da eleição à frente de Lula e passou a concentrar esforços na conquista de apoios para a votação decisiva, enquanto partidos de centro e lideranças regionais passaram a ser procurados pelas duas campanhas. Nesse ambiente, a participação de Temer é tratada como uma das iniciativas destinadas a ampliar a composição política em torno do candidato do PL.





