Muitos petistas acham que Michel Temer fez um acordo com Flávio para evitar o impeachment de Moraes

A declaração de apoio do ex-presidente Michel Temer a Flávio Bolsonaro no segundo turno passou a provocar uma interpretação específica entre petistas aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo reportagem da coluna de Igor Gadelha, do Metrópoles, integrantes do PT avaliam que o movimento poderia estar relacionado a uma tentativa de construir um acordo envolvendo o futuro do ministro Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal. A hipótese, entretanto, é apresentada pela reportagem como uma leitura de aliados de Lula, e não como um acordo oficialmente confirmado entre Temer e Flávio.
A suspeita ganhou espaço justamente porque Temer foi o responsável pela indicação de Alexandre de Moraes para o STF, em 2017, quando ocupava a Presidência da República. Agora, anos depois, o ex-presidente decidiu apoiar Flávio Bolsonaro na disputa contra Lula, embora seu partido, o MDB, tenha adotado posição de neutralidade nacional no segundo turno. Dessa forma, a mudança de posicionamento passou a ser observada com atenção por diferentes grupos políticos, principalmente diante das discussões sobre a relação entre um eventual governo Flávio e o Supremo.
O cenário é ainda mais sensível porque a candidatura de Flávio Bolsonaro está associada a setores políticos que defendem mudanças na relação entre o Executivo, o Congresso e o STF. Nos últimos dias, aliados do candidato voltaram a mencionar processos de impeachment de ministros da Corte e defenderam que o Senado não seja omisso diante de eventuais pedidos apresentados contra integrantes do Supremo. Assim, a possibilidade levantada por petistas envolve justamente uma questão que deverá permanecer no centro das negociações políticas durante o segundo turno e também após a eleição.
Temer e Flávio Bolsonaro entram no centro da discussão sobre Moraes
De acordo com a coluna de Igor Gadelha, lideranças petistas acreditam que Temer poderia ter buscado uma forma de preservar Alexandre de Moraes de um eventual processo de impeachment caso Flávio Bolsonaro seja eleito presidente. Essa interpretação foi atribuída ao advogado Marco Aurélio de Carvalho, coordenador da campanha de Lula em São Paulo e aliado do atual presidente, que levantou publicamente a possibilidade de um entendimento político por trás da aproximação. Não há, porém, confirmação pública de que Temer e Flávio tenham firmado qualquer compromisso relacionado ao ministro.
A avaliação feita por integrantes do campo petista também considera a relação histórica existente entre Michel Temer e Alexandre de Moraes, além da capacidade de interlocução do ex-presidente com diferentes setores políticos. Temer já atuou como intermediário em uma crise envolvendo Jair Bolsonaro e o STF em 2021, quando ajudou a viabilizar uma conversa entre Bolsonaro e Moraes após os ataques do então presidente ao ministro. Por isso, sua aproximação com Flávio é observada não apenas pelo apoio eleitoral, mas também pelo potencial papel de interlocutor em eventuais negociações institucionais.
Ao anunciar seu voto, entretanto, Temer não mencionou Alexandre de Moraes, impeachment de ministros do Supremo ou qualquer negociação institucional com Flávio Bolsonaro. O ex-presidente justificou sua escolha afirmando que o resultado do primeiro turno teria demonstrado um desejo de mudança por parte do eleitorado e associou essa renovação à candidatura do senador do PL. Portanto, qualquer ligação entre o apoio eleitoral e uma eventual negociação para preservar Moraes permanece, até o momento, no campo da interpretação atribuída aos petistas pela reportagem.
Apoio de Temer a Flávio Bolsonaro amplia as articulações
O apoio de Temer foi anunciado em 5 de outubro, depois de Flávio Bolsonaro terminar o primeiro turno na primeira colocação e avançar para a disputa presidencial contra Lula. Em sua manifestação, o ex-presidente afirmou que as urnas haviam indicado desejo de mudança e defendeu novas ideias, atitudes e projetos, relacionando a chamada “reconexão” ao candidato do PL. O posicionamento foi pessoal, já que o MDB decidiu não apoiar oficialmente nenhum dos candidatos à Presidência no segundo turno.
A entrada de Temer na campanha ocorre, portanto, em uma fase na qual Flávio tenta ampliar sua base para além do eleitorado tradicionalmente identificado com o bolsonarismo. O ex-presidente tem uma trajetória política marcada por trânsito entre diferentes grupos e ocupou a Presidência entre 2016 e 2018, depois do impeachment de Dilma Rousseff, além de ter sido vice-presidente e presidente da Câmara dos Deputados. Nesse contexto, sua declaração de voto pode ser apresentada pela campanha como uma aproximação com setores mais tradicionais da política brasileira.
Paralelamente, a questão envolvendo Alexandre de Moraes permanece inserida em uma disputa institucional mais ampla, que inclui pedidos de impeachment e críticas de setores ligados à direita contra ministros do Supremo. O coordenador da campanha de Flávio, Rogério Marinho, afirmou recentemente que o Senado não será omisso diante de eventuais crimes de responsabilidade atribuídos a integrantes da Corte, enquanto Flávio também tem feito críticas à atuação de ministros que considera ligados ao governo Lula. Assim, qualquer eventual entendimento entre os Poderes dependeria de negociações políticas e institucionais que ainda não foram formalizadas.
O que está confirmado sobre Temer, Flávio e Moraes
Até o momento, o que está documentado é o apoio público de Michel Temer a Flávio Bolsonaro e a existência de uma relação anterior entre Temer e Alexandre de Moraes, que foi indicado pelo ex-presidente ao STF em 2017. Também é conhecido o papel desempenhado por Temer na tentativa de reduzir a tensão entre Jair Bolsonaro e Moraes durante a crise institucional de 2021, quando o ex-presidente ajudou a intermediar uma conversa entre os dois. Esses fatos ajudam a explicar por que a aproximação atual passou a ser interpretada politicamente, mas não comprovam a existência de um acordo para impedir eventual impeachment do ministro.
A interpretação dos petistas ocorre, portanto, em meio a uma eleição marcada por disputas sobre o papel do Supremo e pela tentativa de Flávio Bolsonaro de reunir diferentes setores políticos em torno de sua candidatura. Caso novas informações sobre eventuais negociações entre Temer e integrantes da campanha do PL sejam apresentadas, elas poderão esclarecer se houve apenas uma convergência eleitoral ou também alguma articulação institucional relacionada a Moraes. Por enquanto, a hipótese de um acordo para “salvar Moraes” deve ser tratada como uma avaliação atribuída a aliados de Lula, enquanto o apoio de Temer a Flávio Bolsonaro é um fato público e confirmado.





