Geral

Janja se torna alvo no PT por participação excessiva na campanha de Lula

Após o encerramento do primeiro turno das eleições presidenciais, cresceram dentro do Partido dos Trabalhadores observações e comentários reservados sobre a atuação da primeira-dama, Janja Lula da Silva. Com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em segundo lugar no resultado do dia 4 de outubro, integrantes da legenda passaram a avaliar com mais atenção a participação dela em eventos e reuniões, apontando pontos que consideram prejudiciais ao andamento da campanha rumo ao segundo turno.

Nas avaliações feitas em bastidores, fala-se de uma certa “onipresença” da primeira-dama e de momentos em que sua interferência teria alterado o ritmo de discussões importantes. O episódio mais recente citado por aliados ocorreu na manhã de quarta-feira, 7 de outubro, em São Paulo, durante encontro com parlamentares jovens do PT. Janja participou ativamente da conversa e chegou a intervir em falas de outras pessoas presentes. Além disso, a repetição do jingle “Tapete Vermelho”, cantado em um estilo que lembra música gospel e exalta a trajetória pessoal do presidente, tem gerado desconforto entre parte da militância, que avalia o momento e o tom como inadequados a certas ocasiões.

Ainda segundo relatos de pessoas próximas à coordenação da campanha, o controle exercido sobre as informações que chegam ao presidente seria outro ponto de preocupação. Há a percepção de que Janja acaba funcionando como uma barreira entre Lula e parte de sua equipe, dificultando o fluxo ágil de dados e avaliações estratégicas. Muitos, porém, tratam o assunto com cautela: a avaliação interna é de que manifestar reclamações abertamente seria visto com desagrado pelo presidente, o que transformou o tema em uma espécie de assunto delicado dentro do partido.

Não é a primeira vez que episódios dessa natureza são lembrados por integrantes do governo e da campanha. Em maio de 2025, durante visita oficial do presidente à China, Janja pediu a palavra em meio a conversas bilaterais com o presidente Xi Jinping para fazer críticas públicas à rede social TikTok. A iniciativa, feita sem preparação previa com a equipe diplomática, causou desconforto entre os negociadores brasileiros e chineses, segundo relatos que voltaram a circular nesta semana entre estrategistas da campanha.

As observações deixaram de ser apenas comentários reservados com a declaração pública da ex-senadora Kátia Abreu, que atua como coordenadora de campanha no Tocantins. Em entrevista na quarta-feira, 7 de outubro, ela afirmou que Janja “está ocupando um espaço maior” do que o próprio vice-presidente Geraldo Alckmin. Segundo Kátia, a primeira-dama passou a participar e intervir em reuniões de estratégia do partido após o primeiro turno, especialmente após encontro realizado em Brasília com aliados para reavaliar a campanha e planejar os próximos passos.

O clima de apreensão também foi registrado na noite da apuração dos votos, dia 4 de outubro, em São Paulo. Cerca de 40 pessoas acompanharam a contagem no hotel Renaissance, mas as televisões disponíveis permaneceram desligadas. Quem saía para conferir os resultados ou checava pelo celular era repreendido pelo presidente, que demonstrava visível irritação. Naquele momento, Janja se manteve mais discreta, mas o ambiente entre os presentes foi descrito como de evidente desânimo diante dos números parciais e do resultado final.

Procurada pela reportagem, a assessoria de comunicação da primeira-dama foi contatada via WhatsApp para comentar as observações levantadas, mas não enviou resposta até o fechamento desta edição. Caso haja manifestação oficial, o texto será atualizado. É natural que, em um processo eleitoral, haja debates internos, ajustes e diferentes pontos de vista sobre a melhor forma de conduzir uma campanha. O importante é que todas as vozes possam contribuir com respeito, sempre com o foco nas propostas e no bem comum que cada candidato pretende entregar ao país.

Mostrar mais

Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *