Vice-presidente Geraldo Alckmin faz apelo e diz que reeleição de Lula é possível

O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) recorreu a uma lembrança da política paulista para defender a possibilidade de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições de 2026. Durante encontro com o grupo Judeus e Judias pela Democracia, realizado em São Paulo no sábado, 10 de outubro, ele citou a vitória de Mário Covas contra Paulo Maluf em 1998 como exemplo de uma disputa que pode mudar de rumo nos últimos dias. Alckmin afirmou que a recuperação eleitoral de Lula é possível e defendeu uma aproximação maior com eleitores independentes, integrantes do centro político e representantes da classe média.
Ao recordar a eleição paulista de 1998, Alckmin mencionou que começou aquela campanha ao lado de Covas em uma posição desfavorável nas pesquisas de intenção de voto. Naquele momento, segundo os números citados pelo vice-presidente, a chapa aparecia em terceiro lugar, com 14%, atrás de Paulo Maluf, que tinha 26%, e Francisco Rossi, que registrava 28%. A campanha conseguiu ultrapassar Rossi e levou Covas ao segundo turno contra Maluf, em uma disputa que terminou com a reeleição do então governador.
Alckmin destacou que a virada não aconteceu de maneira antecipada e que a campanha só conseguiu reverter o cenário nos últimos dias antes da votação decisiva. Ele lembrou que Covas chegou ao segundo turno cerca de dez pontos percentuais atrás do adversário e que a mudança ocorreu na quarta-feira anterior à eleição, realizada no domingo. Ao fazer a comparação com o cenário presidencial atual, o vice-presidente procurou transmitir aos apoiadores a mensagem de que a diferença registrada no primeiro turno não encerra a disputa eleitoral.
A comparação com 1998 e os desafios do segundo turno
A referência histórica foi utilizada por Alckmin para argumentar que a campanha de Lula ainda dispõe de tempo para buscar votos e modificar o resultado da eleição. O vice-presidente afirmou que a diferença entre os candidatos no primeiro turno foi de aproximadamente 2,2 milhões de votos e chamou a atenção para os cerca de 33 milhões de eleitores que não compareceram às urnas. Na avaliação apresentada por ele, a campanha precisa identificar os segmentos que podem ser convencidos a participar da votação ou a mudar sua escolha no segundo turno.
O apelo à classe média e aos eleitores de centro indica uma tentativa de ampliar o alcance eleitoral do presidente para além dos grupos que tradicionalmente formam sua base de apoio. Alckmin defendeu que os aliados de Lula apresentem argumentos sobre as consequências econômicas e sociais das propostas do adversário, em vez de concentrar os esforços apenas na mobilização de eleitores já alinhados ao governo. A estratégia busca dialogar com pessoas que ainda não decidiram o voto ou que avaliam as candidaturas a partir de questões como renda, emprego, serviços públicos e equilíbrio das contas do país.
A comparação com a eleição de Covas, entretanto, também apresenta diferenças importantes em relação à disputa presidencial de 2026. Os candidatos, os contextos políticos, os níveis de participação eleitoral e as circunstâncias das campanhas são distintos, de modo que um resultado ocorrido em 1998 não garante uma repetição do desfecho. A lembrança funciona como argumento político para estimular os apoiadores de Lula, mas a possibilidade de uma virada dependerá da capacidade da campanha de conquistar novos votos e de fatores que não podem ser determinados apenas pela experiência anterior.
Alckmin critica proposta de corte de R$ 250 bilhões
Durante o encontro, o vice-presidente também abordou a discussão sobre ajuste fiscal e contestou a proposta atribuída à campanha de Flávio Bolsonaro (PL) de promover cortes de R$ 250 bilhões nas despesas públicas. Alckmin afirmou que o equilíbrio das contas é necessário, mas defendeu que as medidas sejam direcionadas aos privilégios e às injustiças, evitando penalizar pessoas em situação de maior vulnerabilidade. A declaração colocou o debate sobre a redução de gastos no centro da estratégia eleitoral e procurou associar a proposta do adversário a possíveis consequências para aposentados e beneficiários de políticas públicas.
Para ilustrar sua posição, Alckmin afirmou que aproximadamente 70% dos aposentados e pensionistas brasileiros recebem um salário mínimo por mês. Ele citou o valor de R$ 1.621 e questionou o impacto de uma eventual redução de R$ 40 na renda de uma pessoa idosa, sem casa própria e com problemas de saúde. O exemplo foi apresentado como argumento contra cortes que atinjam diretamente beneficiários de baixa renda, embora a definição dos efeitos de qualquer ajuste dependa das medidas concretas que forem propostas e implementadas.
A discussão evidencia uma diferença de abordagem entre os discursos apresentados pelas campanhas sobre a política fiscal e o papel do Estado na proteção social. De um lado, a proposta de reduzir despesas exige esclarecimentos sobre quais rubricas seriam atingidas, como os cortes seriam executados e quais resultados fiscais seriam esperados; de outro, a preocupação levantada por Alckmin envolve a distribuição dos custos dessas medidas entre diferentes grupos sociais. Para que os eleitores avaliem os argumentos, é importante distinguir o anúncio de um valor global de redução de gastos de um plano detalhado, com medidas específicas e estimativas de impacto.
A estratégia do vice-presidente para conquistar votos
A participação de Alckmin na mobilização de Lula tem relevância porque o vice-presidente governou São Paulo por quatro mandatos e possui trajetória política associada ao eleitorado paulista. Ao recordar a campanha de Covas e defender uma conversa direta com a classe média, ele procurou utilizar sua experiência eleitoral para contribuir com a reorganização da campanha presidencial na reta final. A atuação também busca reforçar a presença de Lula em um estado estratégico, onde a disputa por votos pode ter peso significativo no resultado nacional.
O desafio dos aliados do presidente será transformar esse apelo em propostas e mensagens capazes de dialogar com eleitores que não apoiaram Lula no primeiro turno. A abstenção mencionada por Alckmin representa um universo numeroso de pessoas que ficaram fora da votação, mas não significa que esses eleitores tenham preferência comum ou que todos possam ser mobilizados pela mesma estratégia. Da mesma forma, a classe média reúne grupos com interesses e opiniões diferentes, o que exige que a campanha compreenda suas preocupações sem presumir que a categoria se comportará como um bloco eleitoral uniforme.
Com o segundo turno marcado para 25 de outubro, a lembrança da vitória de Mário Covas em 1998 passou a integrar o discurso de Alckmin para sustentar que a disputa ainda está aberta. O vice-presidente defende a ampliação do diálogo com eleitores independentes e de centro, ao mesmo tempo que utiliza o debate sobre o ajuste fiscal para questionar as propostas econômicas do adversário. A eficácia dessa estratégia dependerá da reação dos eleitores às mensagens e às propostas apresentadas pelas duas campanhas durante os próximos dias.





