Últimas Notícias

Fãs de Jair Bolsonaro queriam assistir Dark Horse ainda este ano, mas tudo indica que não será possível

O filme Dark Horse, cinebiografia sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), deverá chegar aos cinemas brasileiros apenas em 2027, após sucessivos adiamentos e questionamentos sobre seu financiamento e sua produção. Inicialmente, a estreia chegou a ser cogitada para setembro de 2026, antes das eleições presidenciais, mas entraves burocráticos, investigações policiais e preocupações com possíveis intervenções da Justiça Eleitoral alteraram o cronograma. A produção também entrou no centro do debate político depois da divulgação de áudios nos quais o senador Flávio Bolsonaro (PL) solicita recursos ao empresário Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, para custear o longa-metragem.

O caso passou a ser investigado pela Polícia Federal (PF) e pelo Supremo Tribunal Federal (STF), com apurações sobre a origem dos recursos e possíveis irregularidades financeiras relacionadas ao projeto. Flávio Bolsonaro e o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), irmão do senador, estão entre os nomes mencionados nas investigações, que apuram suspeitas de crimes como corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. As suspeitas ainda precisam ser esclarecidas pelas autoridades, e a existência de uma investigação não representa, por si só, comprovação de responsabilidade criminal dos envolvidos.

Além das questões financeiras, Dark Horse ainda precisa cumprir etapas regulatórias para ser exibido comercialmente no Brasil, incluindo procedimentos perante a Agência Nacional do Cinema (Ancine) e a classificação indicativa do Ministério da Justiça. A distribuidora Europa Filmes também deverá concluir a preparação das versões em português, já que a produção foi gravada predominantemente em inglês e conta com elenco majoritariamente estrangeiro. Segundo informações divulgadas sobre o planejamento do lançamento, um trailer dublado já foi preparado para o mercado brasileiro, mas a divulgação deverá ocorrer somente depois do segundo turno das eleições, marcado para 25 de outubro.

Dark Horse enfrenta entraves regulatórios e financeiros

A tramitação na Ancine é um dos fatores que contribuíram para o adiamento da estreia, embora o filme já tenha obtido o Registro de Obra Estrangeira (ROE). Concedido em agosto de 2026, esse registro representa uma etapa do procedimento, mas não substitui o Certificado de Registro de Título (CRT), necessário para a exploração comercial da obra, nem a classificação indicativa exigida para sua exibição. Enquanto essas etapas não forem concluídas, a distribuidora não poderá tratar o lançamento nos cinemas brasileiros como uma operação plenamente autorizada.

Outro obstáculo envolve a investigação sobre as condições em que as filmagens foram realizadas no Brasil. Em julho, a Ancine abriu um processo administrativo contra a produtora Go Up Entertainment por produzir em território brasileiro uma obra cinematográfica estrangeira sem comunicar previamente a agência, conforme exigem as regras aplicáveis. A regulamentação prevê documentação sobre a produção, incluindo contratos, plano de filmagem e informações sobre profissionais estrangeiros contratados, e a autuação pode resultar em multa de R$ 2 mil a R$ 100 mil.

A Polícia Federal também solicitou informações à Ancine para identificar as pessoas físicas e jurídicas envolvidas na produção e verificar se o filme recebeu recursos públicos, incentivos fiscais ou outros benefícios governamentais. A investigação procura esclarecer a origem dos valores empregados no projeto e examinar movimentações financeiras consideradas suspeitas pelos investigadores. Nesse contexto, a regularização para lançamento comercial e a apuração sobre o financiamento constituem procedimentos distintos, que podem avançar paralelamente sem que a conclusão de um determine automaticamente o resultado do outro.

Plano de negócios projetava bilheteria de até US$ 100 milhões

Um relatório da Polícia Federal tornou público que o plano de negócios apresentado para Dark Horse trabalhava com três cenários de arrecadação nas salas de cinema. As projeções indicavam US$ 45 milhões em um cenário pessimista, US$ 70 milhões em uma hipótese conservadora e US$ 100 milhões na estimativa mais otimista. Segundo os investigadores, a projeção máxima chamava atenção quando comparada ao desempenho histórico do cinema brasileiro, uma vez que Minha Mãe é uma Peça 3, lançado em 2019, arrecadou aproximadamente R$ 120 milhões, valor equivalente, na época, a cerca de US$ 30 milhões.

O relatório policial apontou que a diferença entre as estimativas do plano de negócios e os parâmetros observados no mercado cinematográfico levantava dúvidas sobre a viabilidade econômica do projeto e a finalidade das operações financeiras. O material teria sido apresentado pelo publicitário Thiago Miranda, apontado como articulador de negociações relacionadas ao financiamento da produção. As projeções, entretanto, representam estimativas elaboradas antes do lançamento, e não resultados efetivamente alcançados pelo filme, cuja estreia brasileira ainda não tem data confirmada.

Outro ponto sob análise envolve o orçamento declarado pela produtora e a distribuição geográfica das despesas. Uma perícia privada contratada pela Go Up Entertainment calculou o custo da produção em US$ 13,39 milhões, aproximadamente R$ 75,1 milhões conforme a taxa de câmbio utilizada no levantamento, e indicou que 72% dos gastos ocorreram nos Estados Unidos, apesar de as filmagens terem sido realizadas no Brasil. O levantamento também registrou US$ 2,68 milhões destinados à chamada soft produção, etapa inicial de desenvolvimento conceitual do projeto, montante equivalente a cerca de 20% do orçamento total e superior à proporção de 3% a 5% apontada como habitual para essa fase.

Produção de Dark Horse e relação com Vorcaro seguem sob investigação

A origem dos recursos utilizados no longa é um dos principais pontos das apurações após a divulgação de mensagens e áudios relacionados a Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. A Polícia Federal investiga se valores movimentados por meio do fundo Havengate foram destinados ao financiamento do filme e se parte do dinheiro pode ter sido utilizada para custear despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Essa hipótese integra as linhas de investigação e ainda depende da análise de documentos, transações e depoimentos para que as autoridades esclareçam o destino dos recursos.

O financiamento também aparece em levantamentos sobre movimentações da produtora Go Up Entertainment e de pessoas ligadas ao projeto. Informações divulgadas pela imprensa indicaram transferências consideradas atípicas pelos investigadores, enquanto diligências realizadas em setembro incluíram mandados de busca e apreensão relacionados à produção. Os procedimentos buscam esclarecer possíveis irregularidades envolvendo recursos públicos, contratos e operações financeiras, sem que as suspeitas devam ser apresentadas como crimes definitivamente comprovados.

A controvérsia financeira se somou às dificuldades de distribuição e às exigências regulatórias, contribuindo para que a estreia fosse afastada do calendário eleitoral de 2026. A decisão de não lançar o filme antes ou durante as eleições também foi atribuída à distribuidora Europa Filmes, que desmentiu informações divulgadas nas redes sociais sobre uma suposta pré-estreia em setembro. Até a definição de uma data oficial, o cronograma permanece condicionado à conclusão das etapas administrativas, à estratégia comercial e aos desdobramentos relacionados à investigação.

Filme retrata atentado contra Bolsonaro e campanha de 2018

Dark Horse recria episódios da trajetória política de Jair Bolsonaro, incluindo o atentado a faca sofrido pelo então candidato em Juiz de Fora, Minas Gerais, durante a campanha presidencial de 2018. A produção também apresenta uma versão dramatizada da disputa eleitoral daquele ano, com cenas de debate presidencial sem a utilização dos nomes dos adversários reais. O personagem inspirado no autor do atentado é retratado como militante de esquerda, mas recebe uma identificação diferente da de Adélio Bispo, que foi responsabilizado pelo ataque.

O roteiro também dedica espaço à relação entre Jair Bolsonaro e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, incluindo cenas do casamento, do nascimento da filha Laura e do apoio durante a campanha eleitoral. Já Flávio Bolsonaro aparece como personagem secundário, com participação reduzida e poucos diálogos, conforme informações sobre o conteúdo da obra. A diferença de destaque entre os integrantes da família é um dos aspectos mencionados nas descrições do filme, cuja narrativa combina acontecimentos públicos com cenas dramatizadas.

Com a previsão de estreia transferida para 2027, Dark Horse deverá chegar ao circuito brasileiro depois do período eleitoral que inicialmente alimentou as expectativas de lançamento. A produção ainda depende da conclusão dos procedimentos regulatórios, da preparação das versões dubladas e da definição da estratégia de distribuição, enquanto as investigações sobre o financiamento seguem em andamento. Até que a distribuidora anuncie oficialmente a data e as autoridades esclareçam os pontos sob apuração, tanto o calendário comercial quanto as questões financeiras do longa permanecem sujeitos a novos desdobramentos.

Mostrar mais

Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *