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Áudios revelam ameaças de invasão a Terra Indígena caso Flávio Bolsonaro vença eleições

A Terra Indígena Apyterewa, território do povo Parakanã localizado em São Félix do Xingu, no sudeste do Pará, está sendo alvo de ameaças de ocupação que vêm sendo monitoradas com atenção por órgãos federais. A informação foi publicada pela Folha de S.Paulo nesta segunda-feira (12/10), que teve acesso a oito áudios enviados por WhatsApp a indígenas da região e cruzou dados de inteligência para confirmar a procedência das mensagens. As gravações mencionam a intenção de ocupar a área caso ocorra determinado resultado nas eleições presidenciais do segundo turno, marcado para 25 de outubro.

O conteúdo das mensagens e o contexto eleitoral

Segundo a reportagem, assinada pelo repórter João Gabriel, os autores das mensagens demonstram a expectativa de que uma eventual mudança na direção do governo federal, somada à nova gestão estadual eleita no Pará, permita a transferência da posse da terra para produtores rurais. As mensagens orientam os indígenas a evitarem determinadas áreas do território e sugerem que deixem a região, enquanto relatos locais apontam aumento da circulação de veículos e compra de materiais nas proximidades. O jornal optou por não divulgar os nomes dos envolvidos nem os áudios na íntegra por razões de segurança. O material também foi encaminhado aos órgãos de inteligência do governo federal.

Governo federal mobiliza medidas de proteção

A situação foi discutida na reunião do Comitê de Desintrusão da última quinta-feira (08/10), com a presença da Polícia Federal, Ibama, Funai e Ministério dos Povos Indígenas. Em nota, o MPI informou que está monitorando o aumento da pressão sobre o território e que o comitê decidiu reforçar a presença de agentes na região para prevenir ocupações irregulares e manter as ações de desintrusão em curso. Sobre a ligação explícita entre as ameaças e o processo eleitoral, a pasta destacou que cabe às autoridades policiais a investigação desses fatos. Um agente da Polícia Federal ouvido pela reportagem classificou as informações como consistentes e motivo de preocupação. O Ibama relatou ainda sinais de mobilização em outras regiões da Amazônia, com intenção de retomar atividades econômicas proibidas em áreas protegidas.

Um território com história de conflito

Homologada em 2007, a Terra Indígena Apyterewa abrange 773 mil hectares e abriga mais de mil indígenas Parakanã. Ao longo dos anos, o território registrou repetidos episódios de invasão, desmatamento e tensões relacionadas à presença de ocupantes não autorizados. O Relatório de Violência Contra os Povos Indígenas, publicado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), registrou diversos episódios de intimidação nos últimos anos. Dados do Inpe mostram que o ritmo de perda de cobertura vegetal variou significativamente ao longo do tempo: de 18,9 km² em 2018, saltou para 85,3 km² em 2019, atingindo 102,2 km² em 2022, antes de recuar para 20,6 km² em 2023.

Decisões judiciais e dificuldades de implementação

A Apyterewa faz parte da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 709, julgada pelo Supremo Tribunal Federal. Em 2020, o ministro Luís Roberto Barroso determinou a saída de invasores de terras indígenas, medida que, segundo a reportagem, não foi plenamente executada nos anos seguintes. A operação de desintrusão começou efetivamente em 2023 e já enfrentou resistência: houve tentativas de bloquear estradas e emboscadas a equipes de fiscalização. Servidores públicos também foram alvo de ataques: um funcionário da Funai foi atingido por disparos no fim de 2023 e um trabalhador terceirizado do Ibama perdeu a vida em 2025.

Incêndios recentes aumentam a preocupação

Os últimos meses registraram também um crescimento expressivo de focos de fogo dentro e ao redor do território. Dados compilados pelo Programa Xingu indicam 41 registros em julho, 626 em agosto e 1.007 em setembro deste ano. Investigadores avaliam a hipótese de que parte desses incêndios tenha sido provocada de forma intencional, como estratégia de pressão ou preparação de áreas para ocupação. A situação segue sob observação constante das autoridades, que buscam agir de forma preventiva antes que conflitos se agravem em um período de especial tensão no campo político nacional. Que a integridade dos povos originários e o respeito às leis vigentes sejam preservados, independentemente de resultados eleitorais.

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Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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