Últimas Notícias

Flávio Bolsonaro teria pago o valor de R$ 600 mil em um sistema de IA que poderia manipular eleições

Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, pagou R$ 600 mil à empresa de cibersegurança Elytron, que ofereceu nos Estados Unidos um sistema de inteligência artificial destinado a operações clandestinas de influência política em eleições, segundo uma investigação exclusiva publicada pelo The Intercept Brasil na sexta-feira, 16 de outubro de 2026. A reportagem foi assinada pelos jornalistas Laís Martins, Leandro Becker e Eduardo Goulart, que tiveram acesso a documentos sobre a tecnologia apresentada a pessoas ligadas à campanha presidencial de Donald Trump nos Estados Unidos. Os registros financeiros indicam pagamentos realizados pela campanha de Flávio à companhia, enquanto os documentos comerciais descrevem recursos que poderiam incluir identificação de grupos de eleitores, criação de perfis falsos e disseminação direcionada de desinformação.

De acordo com a investigação exclusiva do Intercept, a empresa apresentou uma operação que combinava coleta de grandes volumes de dados, inteligência artificial e estratégias para influenciar o comportamento de eleitores durante disputas políticas. Entre as possibilidades descritas nos documentos estavam a criação de contas falsas nas redes sociais, a divulgação coordenada de boatos e o emprego de técnicas de guerra psicológica para desacreditar adversários. Entretanto, a reportagem ressalta que não existem evidências que comprovem que o sistema denunciado tenha sido utilizado pela campanha de Flávio Bolsonaro ou pelo Partido Liberal nas eleições de 2026.

Os pagamentos identificados no sistema de prestação de contas da Justiça Eleitoral somam R$ 600 mil, embora a campanha de Flávio tenha declarado inicialmente uma despesa de R$ 1 milhão com a empresa em sua prestação de contas parcial. O PL também informou um pagamento de R$ 131,9 mil à Elytron, registrado em julho de 2026, sob a descrição de serviços técnico-profissionais. Questionada pelo Intercept, a campanha negou a contratação de serviços ilegais e afirmou que os valores se referiam a atividades regulares de segurança da informação, contestando a associação entre a prestação de serviços tecnológicos e a manipulação eleitoral.

Investigação exclusiva do Intercept detalha sistema de inteligência artificial

A investigação publicada pelo The Intercept Brasil teve como ponto de partida documentos entregues por Vincent Edward Reed, empresário e tecnologista norte-americano que atuou como consultor da Elytron entre 2024 e 2025. Segundo a reportagem, Reed participou como intermediário da apresentação do sistema a pessoas ligadas à campanha de Donald Trump durante a eleição presidencial norte-americana de 2024. A tecnologia chegou a ser demonstrada a representantes republicanos, mas o material consultado pelos jornalistas não confirma que a campanha de Trump tenha contratado a ferramenta.

Reed afirmou que rompeu com a empresa depois de conhecer as funcionalidades apresentadas durante uma demonstração do sistema, por considerar que determinadas aplicações poderiam ultrapassar limites éticos e legais. Em seu relato ao Intercept, ele demonstrou preocupação com a possibilidade de direcionar conteúdos manipulados, inclusive vídeos falsos produzidos por inteligência artificial, a grupos específicos de eleitores. O ex-consultor também informou ter denunciado a operação ao FBI e ao Comitê de Supervisão da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, embora, segundo ele, as apurações não tenham avançado.

Os documentos analisados pela equipe do Intercept descrevem um modelo de atuação que iria além da publicidade política convencional, com identificação de públicos, segmentação de mensagens e possíveis ações coordenadas por perfis artificiais. A apresentação comercial mencionava a utilização de avatares digitais, infiltração em redes adversárias e disseminação de informações destinadas a influenciar percepções sobre candidatos e adversários. Especialistas ouvidos na investigação avaliaram que esse conjunto de recursos poderia caracterizar uma operação organizada de influência, mas a existência da apresentação comercial não comprova que as ferramentas tenham sido efetivamente utilizadas pela campanha brasileira.

Pagamentos à Elytron aparecem na prestação de contas eleitoral

Os registros financeiros consultados pelos jornalistas no DivulgaCand, sistema da Justiça Eleitoral utilizado para divulgar despesas de campanhas, indicam três notas fiscais emitidas pela Elytron em nome da campanha de Flávio Bolsonaro. Duas notas, cada uma no valor de R$ 500 mil, foram emitidas em 16 de setembro de 2026, mas uma delas aparece como cancelada no sistema, enquanto uma terceira, de R$ 100 mil, foi emitida em 2 de outubro. Considerando os registros válidos apresentados na investigação, o total identificado de pagamentos da campanha à empresa chega a R$ 600 mil.

As notas fiscais descrevem os serviços como consultoria em tecnologia da informação e mencionam atividades relacionadas a apoio forense, investigação de phishing, testes de segurança e monitoramento de infraestrutura. Essas descrições não identificam, por si mesmas, a contratação de uma operação de manipulação eleitoral, e a reportagem não apresentou provas de que o sistema de influência descrito nos documentos comerciais tenha sido utilizado nos serviços prestados à campanha. O Intercept também destacou a diferença entre os R$ 600 mil identificados nos registros e a despesa de R$ 1 milhão declarada anteriormente pela campanha em sua prestação de contas parcial, apontando a necessidade de considerar os registros e seus respectivos status.

Além dos valores pagos pela campanha presidencial, o Partido Liberal declarou uma despesa de R$ 131,9 mil com a mesma empresa, registrada em 20 de julho de 2026, sob a descrição de serviços técnico-profissionais. Procurada pelos jornalistas, a assessoria de Flávio afirmou que não contrata serviços que violem a legislação eleitoral e classificou como política a tentativa de associar uma contratação de segurança da informação à manipulação de eleitores. Depois da publicação, a Elytron também respondeu aos questionamentos e negou oferecer ou executar operações clandestinas de influência, afirmando que seus serviços têm finalidade técnica e preventiva voltada à proteção cibernética.

Elytron nega manipulação eleitoral e investigação não comprova uso do sistema

A Elytron declarou ao Intercept que repudia qualquer tentativa de associar seu nome à disseminação de informações falsas, ao uso de deepfakes ou à manipulação clandestina da opinião pública. A companhia afirmou que atua no setor de segurança cibernética e que não autorizou a oferta de operações de influência política em seu nome, além de negar ter prestado serviços à campanha de Donald Trump em 2024. A empresa também sustentou que os serviços contratados pela campanha de Flávio Bolsonaro e pelo PL tinham finalidade preventiva, relacionada à segurança das comunicações e à proteção de infraestrutura tecnológica.

A investigação exclusiva de Laís Martins, Leandro Becker e Eduardo Goulart revelou os pagamentos e os documentos comerciais que descrevem a oferta de um sistema de inteligência artificial para operações políticas clandestinas, mas não demonstrou que a ferramenta tenha sido empregada nas eleições brasileiras de 2026. O caso coloca em discussão a transparência das despesas eleitorais, a utilização de tecnologias digitais em campanhas e os limites legais para operações de influência nas redes sociais. Até a publicação da reportagem, tanto a campanha de Flávio quanto a Elytron negavam a contratação ou execução de serviços ilegais, enquanto os documentos apresentados pelo Intercept permaneciam como base da investigação jornalística.

Mostrar mais

Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *