Empresas dos mais variados segmentos adotarão medidas urgentes na esperança de se adaptarem após o fim da escala 6×1

Empresas de diferentes setores da economia brasileira estudam mudanças na organização do trabalho após a aprovação da proposta que prevê o fim da escala 6×1 e a redução gradual da jornada semanal para 40 horas, sem diminuição salarial. Segundo reportagem do UOL publicada em 14 de outubro de 2026, representantes da indústria, do comércio, da saúde, do turismo e da hotelaria consideram insuficiente o prazo de 60 dias para iniciar a adaptação às novas regras. Entre as alternativas discutidas estão o uso mais intenso do banco de horas, a contratação de trabalhadores intermitentes, a automação de atividades e, em determinados segmentos, a possibilidade de demissões e redução do horário de funcionamento.
Na indústria, uma das principais preocupações é a dificuldade de encontrar profissionais qualificados para preencher turnos adicionais sem elevar significativamente as despesas com horas extras. O setor avalia que o banco de horas poderá ajudar a administrar a transição no curto prazo, mas reconhece que saldos acumulados precisarão ser compensados posteriormente, o que pode transferir parte do custo para os períodos seguintes. Representantes empresariais também apontam a automação como uma alternativa para manter a produção, embora investimentos em tecnologia não resolvam imediatamente a falta de mão de obra especializada.
No comércio, a preocupação envolve o custo dos funcionários mais experientes, que normalmente recebem salários maiores em razão do tempo de serviço, e a necessidade de manter lojas abertas durante diferentes horários. Uma das possibilidades mencionadas por representantes do setor é substituir parte dos empregados mais antigos por profissionais com menor experiência e remuneração inferior, estratégia que poderia elevar a rotatividade. Outra alternativa seria reduzir o período de funcionamento dos estabelecimentos, enquanto empresários também consideram repassar parte das despesas adicionais aos preços de produtos e serviços.
Banco de horas e automação aparecem entre as alternativas da indústria
A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos avalia que o banco de horas poderá ser utilizado para evitar o pagamento imediato de horas extras durante a adaptação à nova jornada. O presidente da entidade, José Velloso, afirmou que a estratégia pode adiar parte do impacto financeiro, mas não elimina a necessidade de compensar os períodos acumulados ao longo do ano. Para empresas que operam continuamente, a reorganização dos turnos também dependerá da disponibilidade de trabalhadores capacitados para assumir as atividades.
A automação é apontada pelo setor industrial como uma solução de médio e longo prazo para reduzir a dependência de novas contratações. A substituição de tarefas manuais por equipamentos pode contribuir para manter a produtividade diante da redução da jornada, mas exige investimento, planejamento e profissionais preparados para operar as máquinas. O setor também alerta que a falta de trabalhadores treinados pode provocar atrasos na entrega de equipamentos e comprometer cronogramas de produção já estabelecidos.
No Paraná, a Federação das Indústrias do Estado do Paraná considera que a combinação entre custos maiores, dificuldade de contratação e eventual queda da demanda poderá afetar o nível de emprego. A entidade argumenta que, se os preços subirem e os consumidores reduzirem as compras, algumas empresas poderão diminuir a produção e recorrer a demissões para equilibrar as despesas. Por isso, representantes industriais defendem medidas de apoio, como linhas de crédito subsidiadas, financiamento para modernização e redução da carga tributária.
Comércio, turismo e saúde avaliam mudanças nas contratações
No comércio, a assessora jurídica da Fecomercio-SP, Karina Negri, afirmou que empresas poderão considerar o desligamento de funcionários com mais tempo de casa e a contratação de profissionais menos experientes para reduzir custos. A entidade também avalia que alguns estabelecimentos poderão diminuir o horário de atendimento caso não consigam manter as operações com a nova organização das jornadas. O eventual repasse de despesas aos consumidores é outra preocupação, embora o impacto final sobre os preços dependa das condições de cada negócio e da capacidade de absorver os custos adicionais.
No turismo e na hotelaria, representantes empresariais preveem maior procura por contratos intermitentes e contratação de trabalhadores por diária para atender períodos de maior movimento. O presidente da Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação, Alexandre Sampaio de Abreu, também mencionou a possibilidade de crescimento da pejotização, modalidade em que profissionais atuam como pessoas jurídicas em vez de empregados contratados pela CLT. A entidade, contudo, orienta pequenos empresários a não utilizar esse tipo de contratação para contornar obrigações trabalhistas, enquanto hotéis avaliam ampliar a adoção de escalas como a 12×36 em determinadas funções, respeitando as regras aplicáveis.
Na saúde privada, o prazo de adaptação preocupa hospitais que precisam manter serviços funcionando durante 24 horas por dia. A Associação Nacional de Hospitais Privados afirma que será necessária uma negociação coletiva acelerada para reorganizar as equipes, especialmente em áreas de apoio, como limpeza e segurança, que não podem simplesmente adotar os mesmos modelos de escala utilizados por determinadas equipes de enfermagem. Representantes do segmento também alertam para a possibilidade de aumento dos custos operacionais e de repasse de despesas aos planos de saúde e aos pacientes.
Prazo de adaptação divide empresas e defensores da redução da jornada
A proposta aprovada pelo Senado prevê que, dois meses após a promulgação, a jornada máxima semanal seja reduzida de 44 para 42 horas, com garantia de dois dias de descanso remunerado por semana. A redução para 40 horas deverá ocorrer na etapa seguinte, um ano depois, mantendo os salários e os rendimentos dos trabalhadores. A aplicação das regras exigirá reorganização das escalas e poderá envolver negociações entre empresas e sindicatos para adequar os horários às necessidades específicas de cada atividade.
Representantes do setor produtivo argumentam que a transição brasileira é mais rápida do que experiências observadas em outros países, onde reduções de jornada foram implementadas gradualmente ao longo de vários anos. A recomendação da Organização Internacional do Trabalho citada na reportagem defende que mudanças desse tipo considerem as particularidades dos setores e possam ser realizadas por etapas. Empresários pedem, por isso, mais tempo para reorganizar operações e medidas de compensação financeira, enquanto os defensores da proposta destacam o direito ao descanso e a melhoria das condições de vida dos trabalhadores.
O debate sobre o fim da escala 6×1 envolve, portanto, tanto a ampliação do tempo de descanso quanto os efeitos da mudança sobre custos, contratações e produtividade. As previsões de demissões, inflação e crescimento da informalidade apresentadas por representantes empresariais são estimativas e preocupações do setor produtivo, não resultados inevitáveis da nova regra. O impacto efetivo dependerá da implementação da proposta, das negociações coletivas, da capacidade de adaptação das empresas e das medidas que poderão ser adotadas para preservar empregos e garantir os direitos trabalhistas.





