Especialistas alertam para ilegalidades em pacote de bondades de Lula às vésperas da eleição

Uma sequência de medidas anunciadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao longo de 2026 tem chamado a atenção de especialistas em direito eleitoral e contas públicas. Ações que beneficiam parcelas expressivas da população foram intensificadas com a aproximação do primeiro e do segundo turno das eleições presidenciais, levantando questionamentos sobre possível desrespeito a dispositivos legais que regem a conduta dos governos em período eleitoral. O governo, por sua vez, nega qualquer irregularidade e defende as iniciativas como políticas públicas necessárias à população.
O que está em debate
Entre as medidas anunciadas estão a desoneração e subsídio a combustíveis, o fim da taxa de importação de compras internacionais de baixo valor conhecida como “taxa das blusinhas”, diferentes etapas do programa Desenrola, liberação de crédito para taxistas e motoristas de aplicativo, reajuste do Bolsa Família, perdão de dívidas de microempreendedores individuais, criação do Pix MEI, ampliação do programa Pé-de-Meia, gratuidade no transporte público aos fins de semana e novas desonerações tributárias. O conjunto de iniciativas tem impacto fiscal calculado em aproximadamente R$ 298,4 bilhões, segundo levantamento da Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão vinculado ao Senado Federal. Desse montante, R$ 93,8 bilhões referem-se a despesas diretas e R$ 185,7 bilhões a programas de crédito subsidiado.
Argumentos dos questionadores
Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que o calendário concentrado de anúncios pode contrariar dispositivos da Lei Eleitoral (Lei 9.504/1997), da Lei de Responsabilidade Fiscal (Lei Complementar 101/2000) e da Lei de Inelegibilidade (Lei Complementar 64/1990). O advogado Alexandre Rollo, especialista em direito eleitoral, explica que a legislação veda condutas que possam afetar a igualdade de oportunidades entre candidatos, incluindo o uso de bens e serviços públicos em período eleitoral, salvo em situação de urgência pública reconhecida pela Justiça Eleitoral. Ele ressalta, porém, que a discussão não é inédita: em 2022, medidas semelhantes adotadas pela gestão anterior também foram questionadas, demonstrando que o debate sobre limites em ano eleitoral é recorrente no país.
Ação no TSE e no TCU
O partido Novo apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral pedindo a cassação da chapa presidencial encabeçada por Lula e Geraldo Alckmin, além da declaração de inelegibilidade por oito anos. O processo foi distribuído ao ministro Ricardo Villas Bôas Cueva nesta terça-feira, 20 de outubro. A legenda cita 35 atos normativos editados ao longo de 2026 que, em sua avaliação, foram concentrados no período eleitoral com objetivo de favorecer a candidatura à reeleição. O partido também encaminhou representação ao Tribunal de Contas da União (TCU) para verificar se os gastos comprometeram o equilíbrio das contas públicas. É importante destacar que, até o momento, não houve qualquer decisão judicial reconhecendo a ilegalidade das medidas; tratam-se de questionamentos em fase de análise.
Posicionamento do governo
O Ministério da Fazenda afirmou, em nota, que os valores envolvidos não representam impacto integral sobre o Orçamento de 2027 e que os ajustes necessários serão encaminhados ao Congresso, sempre em conformidade com as metas fiscais. O Ministério do Planejamento e Orçamento acrescentou que as medidas têm naturezas e fontes de financiamento distintas, e que somá-las de forma indiscriminada pode gerar interpretações equivocadas. A pasta explica que parte das ações são respostas a cenários internacionais adversos, políticas já previstas em orçamentos anteriores ou que ainda dependerão de aprovação legislativa para entrar em vigor. Entre as justificativas apresentadas estão a proteção de famílias vulneráveis diante de eventos climáticos e a resposta a variações internacionais de preços de insumos essenciais.
Debate sobre regras e precedentes
O tema reabre uma discussão que já mobilizou instituições em anos anteriores. Em 2024, o Supremo Tribunal Federal julgou trechos da chamada “PEC Kamikaze”, aprovada em 2022 pelo governo anterior, declarando-os incompatíveis com a Constituição, embora os benefícios já entregues à população tenham sido mantidos para não prejudicar quem os recebeu de boa-fé. Na ocasião, o ministro Gilmar Mendes ressaltou a importância de sinalizar que tais práticas não podem se tornar um mecanismo recorrente a cada ciclo eleitoral. O economista Marcos Mendes, do Insper, observa que a ausência de avaliações técnicas independentes fortalece a necessidade de que as próprias instituições de controle exerçam seu papel de acompanhamento contínuo dos gastos públicos.
O que está em jogo para a sociedade
Mais do que uma disputa entre partidos, o debate envolve princípios que estruturam a democracia brasileira: a liberdade dos governantes de implementar políticas públicas que considerem necessárias e a igualdade entre candidatos em período eleitoral. É legítimo que o governo execute programas sociais; também é legítimo que a oposição e a sociedade fiscalizem se esses programas estão sendo criados e distribuídos dentro dos limites da lei. Cabe agora à Justiça Eleitoral e aos órgãos de controle analisarem os argumentos de cada lado com a devida isenção. O eleitor, por sua vez, tem o direito de acompanhar os desdobramentos e cobrar clareza sobre o que é benefício social permanente e o que é anunciado apenas na proximidade de uma eleição.





