Vários perfis falsos estão fingindo que apoiam um ou outro candidato além de vender conteúdo íntimo

A política brasileira encontrou um novo tipo de personagem nas redes sociais: mulheres que parecem reais, defendem candidatos, participam virtualmente de manifestações e acumulam milhares de seguidores, mas foram criadas por inteligência artificial. A investigação que revelou essas contas mostra que a aparência de engajamento político pode esconder uma estratégia comercial muito mais sofisticada, na qual a polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro é utilizada para atrair atenção e, posteriormente, direcionar usuários para conteúdos pagos. O fenômeno chama atenção não apenas pelo avanço da tecnologia, mas porque demonstra como a política pode ser transformada em isca para um negócio digital baseado em desejo, curiosidade e desinformação.
O levantamento divulgado pela BBC News Brasil identificou 37 perfis no Instagram e no TikTok que utilizam mulheres produzidas por inteligência artificial para manifestar apoio a candidatos à Presidência. Juntas, essas páginas reuniam aproximadamente 7 milhões de seguidores e mais de 500 mil interações, enquanto muitas delas não informavam de maneira clara que as personagens eram artificiais. Dessa forma, uma fotografia aparentemente banal de uma apoiadora política pode ter sido produzida digitalmente e utilizada como porta de entrada para uma cadeia de monetização que nada tem a ver com militância espontânea.
O caso ganhou maior repercussão durante a campanha de 2026 porque uma dessas personagens foi inserida digitalmente ao lado de Flávio Bolsonaro durante uma manifestação no Farol da Barra, em Salvador. O vídeo passou a circular como se aquela mulher realmente estivesse presente no evento, até que a manipulação foi identificada e o perfil relacionado à personagem foi associado à divulgação de conteúdo adulto. Entretanto, o mesmo modelo também foi utilizado com personagens que demonstram apoio a Lula e ao PT, mostrando que o objetivo econômico pode estar acima de qualquer preferência ideológica real.
Mulheres de IA na política transformam polarização em negócio
A principal característica desse golpe está justamente na mistura entre assuntos políticos e conteúdos capazes de gerar forte interesse visual. As personagens são apresentadas como jovens atraentes, estudantes, torcedoras ou mulheres comuns que supostamente possuem opiniões políticas e participam de acontecimentos eleitorais. Depois de conquistar a atenção do público, algumas contas direcionam os seguidores para canais no Telegram, plataformas de conteúdo adulto ou páginas que oferecem material mediante pagamento.
Nesse modelo, a política funciona como mecanismo de segmentação de audiência, porque uma pessoa interessada em Flávio Bolsonaro pode ser alcançada por uma personagem que usa símbolos do bolsonarismo, enquanto um público identificado com Lula pode encontrar outra personagem vestindo roupas com referências ao PT. O mais preocupante é que algumas páginas chegam a defender os dois lados em momentos diferentes, evidenciando que a suposta identidade política da personagem não precisa obedecer a nenhuma convicção. Assim, a polarização deixa de ser apenas uma disputa de ideias e passa a ser explorada como ferramenta de aquisição de seguidores e potenciais consumidores.
A estratégia também aproveita uma dificuldade cada vez maior dos usuários para distinguir uma fotografia verdadeira de uma imagem produzida por inteligência artificial. Em alguns casos, pessoas reais que estavam presentes em fotografias ou vídeos foram substituídas digitalmente pelas personagens, criando cenas que parecem documentais quando, na verdade, nunca aconteceram daquela maneira. Por isso, o problema não se limita à pornografia falsa ou à propaganda enganosa, já que a manipulação também pode interferir na percepção do eleitor sobre quem participou de um ato político e sobre o tamanho de determinado movimento.
Lula e Flávio Bolsonaro viram personagens de uma disputa artificial
A presença de Lula e Flávio Bolsonaro nesse tipo de conteúdo revela a força econômica da polarização política brasileira. Dados do projeto VigIA, da Lupa, mostraram que centenas de conteúdos manipulados por inteligência artificial circularam durante o período eleitoral, com Lula aparecendo em 379 publicações analisadas e Flávio Bolsonaro em 190. Embora esses números incluam diferentes tipos de conteúdo sintético e não apenas os perfis de mulheres artificiais, eles ajudam a dimensionar como os dois candidatos se tornaram alvos centrais da produção política com IA.
O problema se torna ainda mais complexo porque a tecnologia pode ser utilizada simultaneamente para influenciar opiniões e gerar receita. Em vez de pedir diretamente um voto, a conta cria uma personagem aparentemente autêntica, estabelece uma relação de proximidade com os seguidores e, somente depois, apresenta links para outros ambientes digitais. Portanto, o conteúdo político pode funcionar apenas como uma etapa inicial de um funil comercial cuidadosamente construído para transformar alcance em dinheiro.
Esse mecanismo também ajuda a explicar por que a exploração da imagem feminina aparece com tanta frequência nesse tipo de operação. Para especialistas ouvidos pela reportagem, padrões de beleza são utilizados deliberadamente para aumentar o interesse masculino e estimular a permanência dos usuários nas páginas, enquanto a identidade política acrescenta uma camada de identificação emocional ao conteúdo. Desse modo, aparência, polarização e inteligência artificial são combinadas em uma mesma estratégia, criando personagens que não existem, mas conseguem produzir efeitos reais sobre comportamento, audiência e consumo.
O perigo das mulheres de IA nas eleições brasileiras
A expansão dessas personagens acontece em um momento no qual a Justiça Eleitoral já tenta estabelecer limites para o uso de inteligência artificial durante as eleições. O Tribunal Superior Eleitoral determinou restrições para conteúdos sintéticos e também vem discutindo mecanismos capazes de proteger imagem e voz de candidatos e mulheres que atuam na política. Além disso, levantamentos realizados durante a campanha de 2026 demonstraram que o volume de conteúdos manipulados é suficientemente grande para dificultar a fiscalização individual de cada publicação.
Antes mesmo da atual investigação, casos semelhantes já haviam sido identificados no Brasil, incluindo personagens artificiais utilizadas para atacar Lula, criticar o Supremo Tribunal Federal e posteriormente direcionar usuários para conteúdos comerciais. Uma investigação da Lupa publicada em janeiro também mostrou que perfis eróticos falsos utilizavam temas políticos para aumentar o alcance e vender material produzido artificialmente, indicando que a estratégia não nasceu com a atual disputa presidencial. A novidade de 2026 está na escala alcançada e na combinação cada vez mais sofisticada entre personagens virtuais, polarização eleitoral e monetização.
O caso serve, portanto, como um alerta para o eleitor brasileiro, que precisa desconfiar de conteúdos excessivamente perfeitos, personagens sem histórico verificável e perfis que misturam militância política com promessas de conteúdo exclusivo. A recomendação mais segura é verificar a origem da imagem, procurar outras fontes independentes e observar se a própria conta informa que o material foi criado ou alterado por inteligência artificial. Afinal, em uma eleição na qual a tecnologia passou a produzir não apenas discursos e imagens, mas também personagens inteiras, a capacidade de verificar o que é verdadeiro tornou-se uma ferramenta essencial para evitar manipulação.





