Várias lideranças de esquerda não gostaram da forma como os comícios de Lula foram realizados

A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) adotou em 2026 um formato de eventos inspirado nas convenções políticas americanas, mas a estratégia provocou insatisfação entre integrantes do próprio partido e lideranças de legendas aliadas. As críticas envolvem principalmente a organização dos atos, que passaram a priorizar a produção visual e a apresentação do candidato, com menos espaço para o contato direto com os eleitores. Em reportagem publicada nesta quinta-feira, 22 de outubro, o jornalista Diego Amorim, do Estado de Minas, revelou que aliados pretendem questionar o modelo independentemente do resultado do segundo turno presidencial.
A mudança alterou a dinâmica dos eventos políticos que tradicionalmente marcaram as campanhas de Lula, conhecidos pela presença de militantes, dirigentes partidários e apoiadores próximos ao candidato. Na avaliação de integrantes da esquerda ouvidos pela coluna, o novo formato aproximou os atos de grandes espetáculos organizados para serem assistidos pelo público, em vez de encontros voltados à interação entre o presidente e a população. A estratégia também provocou questionamentos sobre a disposição das lideranças políticas nos eventos e sobre a maneira como a unidade dos partidos aliados foi apresentada ao eleitorado.
Um dos principais pontos de discordância está na avaliação de que a proximidade com o povo sempre foi uma característica importante da trajetória política de Lula. Um ministro influente do PT, ouvido pela reportagem, considerou que a mudança não fazia sentido justamente por se tratar de um candidato cuja imagem pública foi historicamente associada ao contato com trabalhadores, militantes e apoiadores. As críticas indicam que a insatisfação não se limita à estética dos eventos, mas envolve também a forma como a campanha decidiu apresentar o presidente durante a disputa eleitoral.
Eventos com aparência de espetáculo geraram críticas
O formato adotado pela campanha procurou reproduzir características de convenções políticas realizadas nos Estados Unidos, com uma organização visual diferente daquela encontrada nos comícios tradicionais. Nesse modelo, a estrutura do evento e a apresentação do candidato ganharam destaque, enquanto o contato direto com os eleitores deixou de ocupar o mesmo espaço observado em atos anteriores. Para aliados críticos da estratégia, essa mudança alterou a relação entre o candidato, o público presente e as lideranças que participam da mobilização política.
O ministro petista ouvido pela coluna ressaltou que a proximidade com a população deveria continuar sendo uma característica central dos eventos de Lula. A avaliação considera que o presidente construiu parte importante de sua trajetória política por meio da interação direta com eleitores e apoiadores, característica que, na visão desse integrante do governo, não foi devidamente valorizada no novo formato. A crítica mostra que setores do próprio campo político de Lula consideram necessário rever a maneira como os atos foram organizados ao longo da campanha de 2026.
A insatisfação também envolve a impressão transmitida pelos eventos, que, segundo os aliados citados, passaram a privilegiar a apresentação visual em detrimento da participação política mais próxima. Comícios tradicionais costumam reunir militantes e representantes de diferentes partidos no mesmo espaço, criando uma demonstração pública de apoio ao candidato e de articulação entre as legendas. Na avaliação dos críticos, a adoção de um formato mais próximo de um espetáculo reduziu a visibilidade dessa interação e modificou a imagem política apresentada durante os encontros.
Lideranças aliadas ficaram afastadas de Lula
Outro aspecto que provocou reclamações foi a posição ocupada pelos dirigentes partidários durante os eventos da campanha. De acordo com a reportagem, aliados observaram que lideranças que normalmente apareciam no palco, próximas de Lula, ficaram distantes do presidente em diferentes atos realizados pelo país. Para esses integrantes da coalizão, a presença dos representantes partidários ao lado do candidato funciona como uma demonstração visual de apoio político e de força da aliança eleitoral.
Um dos relatos apresentados na coluna questionou justamente a ausência daquela imagem tradicional de dirigentes reunidos atrás de Lula durante os comícios. Na avaliação de um aliado citado pela reportagem, a presença coletiva no palco ajudava a demonstrar a dimensão do apoio político ao presidente e a contar visualmente a história da campanha. A mudança, portanto, foi interpretada por esses setores não apenas como uma decisão de organização dos eventos, mas também como uma alteração na forma de representar a união entre os partidos que apoiam o candidato.
A reportagem relatou ainda um episódio envolvendo o presidente de um partido aliado, que teria sido colocado em uma área improvisada e afastada de Lula durante um dos eventos. Ao questionar a organização sobre o motivo daquela disposição, o dirigente teria ouvido que a determinação partira da primeira-dama, Janja da Silva. O caso passou a integrar as reclamações sobre o cerimonial, pois exemplificaria a distância entre algumas lideranças políticas e o candidato durante os atos eleitorais.
Estratégia deverá ser discutida após o segundo turno
As críticas ao modelo de campanha indicam que a organização dos eventos poderá ser debatida internamente depois da votação presidencial. Segundo a reportagem, aliados afirmam que Lula deverá ouvir questionamentos sobre a estratégia adotada em 2026, independentemente de vencer ou perder o segundo turno. A avaliação envolve tanto a escolha de um formato inspirado nas convenções americanas quanto a redução do espaço destinado à interação direta com eleitores e representantes dos partidos aliados.
O debate sobre a organização dos atos ocorre na reta final da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL), com a votação marcada para domingo, 25 de outubro. Até a publicação da reportagem, as críticas relatadas se concentravam na produção visual dos eventos, na distância entre o presidente e os apoiadores e na posição reservada aos dirigentes partidários. O episódio envolvendo o presidente de uma legenda aliada, colocado em um cercadinho improvisado e afastado de Lula, tornou-se um dos exemplos citados nas reclamações sobre o formato adotado pela campanha.





