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O debate na Globo começou com os candidatos apresentando suas propostas, mas logo o clima esquentou

O último debate presidencial antes do segundo turno das eleições de 2026 começou com a apresentação de propostas e terminou com uma sequência de ataques pessoais entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). O encontro foi realizado na noite de sexta-feira, 23 de outubro, na TV Globo, com regras que estimularam a discussão de temas previamente definidos nos primeiros blocos. No entanto, o confronto ganhou outro tom na etapa final, quando os candidatos passaram a explorar denúncias, investigações e assuntos que dominaram a campanha eleitoral.

A mudança de ambiente ficou mais evidente no quarto bloco, dedicado a temas livres, quando os dois adversários intensificaram as acusações e retomaram episódios que já vinham sendo discutidos durante a disputa presidencial. Entre os assuntos mencionados estavam o caso do Banco Master, as investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente, e uma mansão relacionada ao advogado Willer Tomaz e ao jogador Richarlison. A cobertura do UOL sobre o debate destacou justamente a transição entre a apresentação de propostas e a troca de ofensas que marcou o encerramento do programa.

Nos blocos iniciais, Lula e Flávio tiveram de responder a perguntas sobre assuntos sorteados ou escolhidos conforme as regras da emissora, o que favoreceu a discussão de políticas públicas e compromissos de governo. Mesmo nesse formato, os dois fizeram críticas aos adversários, mas também apresentaram propostas relacionadas à infraestrutura, à economia, à segurança pública e aos programas sociais. Com a chegada do bloco livre, a discussão deixou de se concentrar principalmente nas medidas prometidas e passou a dar mais espaço a acusações pessoais e episódios controversos.

Propostas econômicas e críticas ao custo de vida

No primeiro bloco, Lula afirmou que Flávio não conhecia suficientemente os problemas do país e criticou a preparação do adversário para o debate, dizendo que ele estudava para decorar, mas não para aprender. O senador, por sua vez, concentrou parte de suas intervenções no custo de vida, no preço dos alimentos e nas dificuldades enfrentadas pelos brasileiros para equilibrar o orçamento familiar. Entre suas promessas estavam a conclusão de obras paralisadas, a continuidade de projetos de concessão rodoviária e a implantação de pedágio gratuito para motocicletas em novas rodovias.

Lula também apresentou compromissos relacionados a obras de infraestrutura, citando a conclusão de projetos como a transposição do Rio São Francisco e a ferrovia Transnordestina. Ao discutir o salário mínimo, o presidente questionou Flávio sobre o valor que seria pago caso os reajustes não acompanhassem a inflação, enquanto o senador prometeu manter aumentos acima da variação dos preços. A conversa também abordou a tarifa zero no transporte público, proposta defendida por Lula, diante da qual Flávio declarou apoio à medida.

O preço dos alimentos voltou a ocupar espaço quando Flávio criticou o custo da comida e afirmou que Lula havia prometido picanha, mas entregado abóbora, em referência a uma das bandeiras da campanha petista. O presidente respondeu mencionando medidas de combate à fome e questionou como o adversário pretendia promover cortes de despesas estimados em cerca de R$ 200 bilhões sem prejudicar programas sociais. Flávio negou que sua proposta representasse cortes direcionados aos mais pobres e classificou a acusação do presidente como falsa.

Segurança pública e ataques pessoais

A segurança pública ganhou destaque no terceiro bloco, quando Flávio prometeu devolver à população territórios dominados pelo crime organizado caso fosse eleito presidente. Lula questionou como o senador pretendia cumprir essa promessa e levou ao debate Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara, menina de cinco anos morta por um tiro de fuzil durante uma ação policial no Rio de Janeiro, em 2021. O presidente abordou a atuação de Flávio na defesa do policial acusado de efetuar o disparo e questionou a posição do adversário sobre o caso.

Flávio respondeu que não havia provas de que o policial tivesse cometido o crime e defendeu sua atuação jurídica no processo, mas cometeu uma gafe ao chamar Cristiane pelo nome da filha. O senador também criticou o preço dos alimentos e questionou decisões do governo federal, enquanto Lula voltou a destacar políticas sociais e medidas adotadas durante sua administração. A discussão sobre segurança foi acompanhada por divergências a respeito do julgamento do policial militar Bruno Dias Delaroli, acusado pelo Ministério Público de ter efetuado o disparo que matou a criança.

O segundo bloco também teve um momento de tensão quando Flávio pediu desculpas a Lula por ter utilizado a expressão nove dedos para se referir ao presidente, em alusão à perda de um dedo em um acidente de trabalho. Lula reagiu à provocação e afirmou que não aceitaria ser tratado daquela maneira, enquanto Flávio aproveitou a oportunidade para cobrar desculpas do adversário por declarações e decisões de seu governo. A troca de acusações mostrou que, mesmo com regras destinadas a incentivar respostas sobre propostas, o debate manteve episódios de confronto pessoal antes do bloco final.

Bloco livre concentra acusações e controvérsias

No encerramento do programa, os candidatos aproveitaram a liberdade para escolher os assuntos e retomaram temas que repercutiram durante a campanha, incluindo o Banco Master e as investigações relacionadas ao filho de Lula. As referências a episódios controversos ocuparam espaço importante nas intervenções, reduzindo a centralidade das propostas que haviam predominado em parte dos blocos anteriores. O resultado foi uma conclusão marcada por acusações e ofensas, em contraste com o formato mais orientado à discussão de políticas públicas estabelecido pelas regras da emissora.

A dinâmica do debate da Globo foi diferente daquela observada no encontro anterior, realizado pela TV Bandeirantes em 18 de outubro, quando a movimentação dos candidatos pelo cenário também provocou reações e momentos de tensão. Na Globo, as regras limitaram a circulação pelo palco durante boa parte do programa e buscaram evitar que um candidato permanecesse atrás do outro enquanto ele falava. Apesar dessas restrições e do espaço reservado à apresentação de propostas, Lula e Flávio encerraram o último debate presidencial antes do segundo turno com novas acusações pessoais, a dois dias da votação marcada para domingo, 25 de outubro de 2026.

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Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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