O lançamento de Dark Horse nos cinemas poderá ser adiado por ainda mais tempo

A derrota de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no segundo turno das eleições presidenciais trouxe consequências que ultrapassam o campo eleitoral e atingem diretamente projetos ligados à família do ex-presidente Jair Bolsonaro. Um dos empreendimentos que passaram a enfrentar um cenário de incerteza é o filme “Dark Horse”, cinebiografia sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro, cuja estreia nos cinemas brasileiros ficou ainda mais distante depois da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Além da mudança no cenário político, o avanço das investigações sobre o financiamento da produção, que teria recebido recursos relacionados ao banqueiro Daniel Vorcaro, colocou em dúvida a possibilidade de lançamento do longa-metragem nas salas de cinema.
A situação foi detalhada pela colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, que revelou os bastidores das dificuldades enfrentadas pela produção e pela distribuidora responsável pelo lançamento. Segundo informações apuradas pela jornalista, a previsão inicial de estreia no primeiro semestre de 2027 deixou de ser considerada segura, diante das incertezas jurídicas e financeiras envolvendo o projeto. Nesse contexto, alternativas passaram a ser avaliadas, incluindo a possibilidade de disponibilizar a cinebiografia diretamente em uma plataforma de streaming, sem realizar inicialmente uma distribuição convencional nos cinemas brasileiros.
O principal problema envolve a investigação sobre a origem dos recursos utilizados na produção e a possibilidade de que valores relacionados ao Banco Master tenham sido destinados ao financiamento do filme. A Polícia Federal analisa movimentações financeiras internacionais, contratos, despesas e documentos apresentados pela empresa Go Up Entertainment, responsável pelo longa-metragem. Além disso, existe preocupação com a possibilidade de que eventuais receitas obtidas com a exibição da obra sejam bloqueadas judicialmente, situação que poderia comprometer o investimento necessário para sua distribuição comercial.
Dark Horse enfrenta incerteza sobre estreia nos cinemas brasileiros
A mudança nas perspectivas de lançamento de “Dark Horse” está relacionada a uma combinação de fatores políticos, financeiros e judiciais que se intensificaram depois da derrota de Flávio Bolsonaro. Antes do resultado eleitoral, a expectativa era que a produção chegasse às salas de cinema no primeiro semestre de 2027, mas a investigação sobre o financiamento passou a representar um obstáculo adicional para a distribuidora Europa Filmes. Com o avanço das apurações, a empresa precisa considerar os riscos de investir na divulgação e na distribuição de uma obra que poderá enfrentar restrições judiciais ou dificuldades para gerar receitas.
Uma das alternativas discutidas nos bastidores é o lançamento diretamente em serviços de streaming, modalidade que poderia permitir a disponibilização do filme sem depender da mesma estrutura regulatória aplicada às produções destinadas aos cinemas. Um integrante do governo Lula ouvido pela coluna de Malu Gaspar explicou que a legislação brasileira ainda não estabeleceu uma regulamentação completa para esses serviços, enquanto as plataformas podem ofertar conteúdos audiovisuais ao público. Essa possibilidade, entretanto, não elimina os riscos relacionados à investigação financeira, pois uma eventual decisão judicial poderá atingir valores recebidos pela produção independentemente do meio utilizado para sua distribuição.
O temor da Europa Filmes está relacionado especialmente à possibilidade de bloqueio das receitas obtidas com a comercialização da obra. Investigadores que acompanham o caso consideram que eventuais lucros do longa-metragem poderiam ser submetidos a medidas judiciais enquanto persistirem questões relacionadas à liquidação do Banco Master e à origem dos recursos utilizados no projeto. Dessa maneira, mesmo que a produção consiga chegar ao público por meio de uma plataforma digital, a empresa responsável pelo lançamento ainda poderá enfrentar dificuldades para recuperar os valores investidos e administrar os resultados financeiros da operação.
Investigação da PF sobre Dark Horse examina dinheiro de Daniel Vorcaro
O financiamento de “Dark Horse” passou a receber atenção especial depois que o site Intercept Brasil divulgou, em maio de 2026, gravações de conversas nas quais Flávio Bolsonaro cobrava dinheiro de Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master. A divulgação dos áudios provocou repercussão política e contribuiu para o desgaste da campanha presidencial do senador, além de resultar na abertura de uma investigação no Supremo Tribunal Federal (STF). Flávio e seu irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), são investigados por suspeitas de corrupção ativa e passiva, evasão de divisas e lavagem de capitais, conforme as informações apresentadas sobre o inquérito.
Uma das linhas de apuração da Polícia Federal procura esclarecer se recursos enviados por Vorcaro ao fundo Havengate foram posteriormente utilizados para financiar a produção cinematográfica. A investigação considera movimentações realizadas por meio da Entre Investimentos e depósitos internacionais que somaram US$ 12,3 milhões, efetuados pelo operador Antônio Carlos Freixo Junior, conhecido como Mineiro, a pedido do banqueiro. Mineiro firmou um acordo de colaboração premiada, homologado em setembro pelo ministro André Mendonça, do STF, e as informações relacionadas à movimentação financeira passaram a integrar o conjunto de elementos analisados pelos investigadores.
Nas próximas semanas, a perícia contábil e financeira da Polícia Federal deverá avançar sobre os contratos e as despesas da Go Up Entertainment, empresa responsável pela produção do filme. A companhia encaminhou aos investigadores mais de 20 mil páginas de documentos, incluindo contratos de câmbio, notas fiscais e comprovantes de despesas operacionais, mas a análise ainda não foi concluída. O objetivo é verificar se os gastos declarados pela produtora correspondem aos recursos efetivamente recebidos no Brasil e se existe uma ligação financeira ou contábil entre as remessas destinadas ao Havengate e o dinheiro utilizado na realização da cinebiografia.
Dark Horse teve 72% dos gastos realizados nos Estados Unidos
Outro aspecto que chamou a atenção dos investigadores e de profissionais do mercado audiovisual foi a distribuição das despesas apresentadas pela Go Up Entertainment. Uma perícia privada contratada pela própria produtora apontou que 72% dos gastos relacionados ao longa-metragem ocorreram nos Estados Unidos, embora as filmagens tenham sido realizadas no Brasil. O levantamento também estimou o custo total da produção em US$ 13,39 milhões, valor equivalente a aproximadamente R$ 75,1 milhões, considerando a taxa de câmbio utilizada na época.
Os números provocaram questionamentos porque uma parcela expressiva do orçamento teria sido consumida antes mesmo das gravações propriamente ditas. Segundo a avaliação técnica apresentada pela empresa, a chamada etapa de soft produção, que envolve a definição conceitual do projeto e outras atividades iniciais, recebeu US$ 2,68 milhões, correspondentes a aproximadamente 20% do orçamento total. Esse percentual ficou muito acima da referência de mercado mencionada por profissionais do setor, segundo os quais essa fase costuma consumir entre 3% e 5% do orçamento de uma produção cinematográfica.
A diferença entre os valores apresentados e os parâmetros habitualmente utilizados no mercado audiovisual aumentou as dúvidas sobre a administração financeira do projeto. Conforme as informações divulgadas por Malu Gaspar, cinco produtores que atuam no setor brasileiro demonstraram surpresa com os gastos elevados nas etapas iniciais, especialmente porque a produção ainda precisava custear a pré-produção e as filmagens. A análise da Polícia Federal deverá esclarecer se as despesas foram efetivamente realizadas, se possuem documentação compatível e se existe correspondência entre os valores declarados pela produtora e os recursos movimentados no exterior.





