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Cristina Kirchner se encontrou com André Janones na Argentina para conhecer a estratégia digital do deputado

O deputado federal André Janones (Rede-MG) realizou uma viagem à Argentina que colocou a experiência da campanha presidencial brasileira no centro das articulações políticas da oposição ao presidente Javier Milei. Na segunda-feira (2), o parlamentar se reuniu com a ex-presidente argentina Cristina Kirchner, em Buenos Aires, para apresentar estratégias de comunicação e mobilização digital utilizadas na campanha que garantiu a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A iniciativa chamou atenção porque o modelo de organização de apoiadores nas redes sociais, desenvolvido no Brasil, passou a despertar o interesse de lideranças políticas estrangeiras que pretendem enfrentar a direita nas próximas disputas eleitorais.

Além do encontro com Cristina Kirchner, Janones também conversou com Sergio Massa, ex-ministro da Economia da Argentina e adversário de Milei na eleição presidencial de 2023. As reuniões tiveram como objetivo compartilhar conhecimentos sobre o funcionamento de comunidades digitais, a distribuição de conteúdos políticos e a mobilização de eleitores por meio de aplicativos de mensagens. Dessa maneira, a estratégia brasileira poderá servir de referência para os grupos de oposição argentinos que tentam construir uma alternativa eleitoral para a disputa presidencial prevista para outubro de 2027.

A viagem contou ainda com a participação dos profissionais de comunicação Rafael Marroquim e Chico Kertész, que trabalharam na campanha de Lula e participaram da elaboração das estratégias de divulgação política. O grupo brasileiro apresentou experiências relacionadas à utilização de redes sociais para ampliar o alcance de mensagens, estimular a participação de apoiadores e organizar ações digitais durante períodos eleitorais. Entretanto, a iniciativa não representa uma transferência automática do modelo brasileiro para a realidade argentina, pois os partidos, os eleitores e as características políticas dos dois países apresentam diferenças importantes.

Janones leva estratégia digital de Lula para enfrentar Milei

O principal elemento apresentado por André Janones durante os encontros foi a experiência do chamado Exército do Lula, canal de WhatsApp criado para organizar apoiadores do presidente brasileiro e ampliar a circulação de conteúdos favoráveis à candidatura petista. A iniciativa ganhou grande dimensão durante a campanha eleitoral, especialmente no segundo turno, quando milhões de participantes passaram a receber mensagens, vídeos e orientações relacionadas à disputa presidencial. Com isso, o deputado conquistou visibilidade nacional e passou a ser associado à mobilização digital que acompanhou a campanha de Lula.

O canal ultrapassou a marca de 10 milhões de participantes, transformando-se em uma das principais ferramentas de comunicação utilizadas pelos apoiadores do presidente nas redes digitais. Diferentemente de uma estratégia baseada exclusivamente na divulgação de mensagens por dirigentes partidários, a iniciativa procurou estimular a participação dos próprios integrantes, que também poderiam compartilhar informações e ampliar o alcance das publicações. Além disso, o formato permitiu que conteúdos políticos fossem distribuídos rapidamente, alcançando usuários que não necessariamente acompanhavam os canais tradicionais de comunicação dos partidos.

A experiência despertou interesse na Argentina, onde grupos ligados ao peronismo começaram a desenvolver uma estrutura semelhante para organizar a militância nas plataformas digitais. Um dos exemplos é o canal chamado Ejército del Peronismo, que publicou um vídeo de Janones convidando os argentinos, em espanhol, a participarem da mobilização política. Segundo os números divulgados pelo Poder360, a comunidade passou de aproximadamente 41 mil para 60 mil integrantes, crescimento de 46,34%, demonstrando que a iniciativa brasileira encontrou espaço entre setores da oposição argentina.

Cristina Kirchner e Sergio Massa articulam oposição a Milei

Cristina Kirchner é uma das figuras mais conhecidas da política argentina e exerceu a Presidência do país entre 2007 e 2015, depois de ter ocupado o cargo de primeira-dama durante o governo de seu marido, Néstor Kirchner. Mesmo fora da Presidência, ela continua exercendo influência sobre o peronismo, movimento político de esquerda e centro-esquerda que reúne diferentes correntes e lideranças argentinas. Atualmente, entretanto, sua situação política também é marcada por dificuldades judiciais, pois a ex-presidente foi condenada a seis anos de prisão em um processo envolvendo irregularidades em contratos de obras rodoviárias e cumpre prisão domiciliar.

Sergio Massa, por sua vez, foi ministro da Economia durante o governo de Alberto Fernández e disputou a Presidência argentina em 2023, quando acabou derrotado por Javier Milei no segundo turno. Desde então, o ex-ministro passou a participar das articulações para reorganizar a oposição e construir uma frente capaz de reunir diferentes setores políticos contrários ao atual governo. Entre os desafios dessa movimentação está a disputa interna pela liderança do campo peronista, que também conta com o governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, apontado como possível candidato presidencial.

A proposta de construir uma frente ampla contra Milei é considerada importante porque a oposição argentina precisa superar divergências internas para apresentar uma candidatura competitiva em 2027. Segundo informações divulgadas sobre os encontros, o grupo ligado a Massa pretende reunir não apenas integrantes do peronismo, mas também forças políticas que não pertencem ao movimento. Nesse contexto, a experiência apresentada por Janones pode ser utilizada como instrumento de comunicação e organização, embora a definição do candidato e das alianças dependa das decisões tomadas pelas próprias lideranças argentinas.

Eleições de 2027 podem ampliar influência da estratégia brasileira

A eleição presidencial argentina está prevista para outubro de 2027 e deverá colocar novamente Javier Milei diante de uma disputa pela continuidade de seu projeto político. O presidente chegou ao poder em 2023 defendendo mudanças econômicas profundas, redução do tamanho do Estado e enfrentamento às estruturas políticas tradicionais do país. Desde então, suas medidas passaram a dividir opiniões entre os argentinos, enquanto os partidos de oposição procuram reorganizar suas bases e encontrar uma liderança capaz de disputar o comando do governo.

A participação de Janones nesse processo demonstra como estratégias desenvolvidas durante campanhas eleitorais podem ultrapassar fronteiras e despertar interesse em movimentos políticos de outros países. Entretanto, o desempenho de uma ferramenta digital depende de fatores como credibilidade das mensagens, capacidade de mobilização, identificação dos eleitores com os candidatos e organização das equipes responsáveis pela comunicação. Assim, o desafio dos argentinos será adaptar as experiências brasileiras às características de seu próprio eleitorado, transformando a presença nas redes sociais em participação política efetiva.

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Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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