Fechamento de banco deixou a população do Paraguai desesperada e muitas estão sem saber o que fazer

O fechamento do banco digital Ueno provocou uma grave crise financeira e política no Paraguai, deixando milhões de clientes sem acesso imediato às próprias contas e provocando uma onda de preocupação em diferentes regiões do país. A intervenção determinada pelo Banco Central paraguaio desencadeou filas nas agências, dificuldades de acesso aos aplicativos bancários e uma corrida de correntistas em busca de dinheiro, diante do receio de perder suas economias. Além dos prejuízos e da insegurança enfrentados pelos consumidores, o episódio atingiu diretamente o governo do presidente Santiago Peña, que passou a enfrentar acusações da oposição e um pedido de impeachment relacionado à crise.
A dimensão do problema chamou a atenção porque o Ueno ocupava uma posição importante no mercado financeiro paraguaio, reunindo aproximadamente três milhões de clientes em um país com pouco mais de seis milhões de habitantes. Dessa maneira, a suspensão das atividades da instituição não ficou restrita aos investidores ou a um grupo específico de correntistas, mas alcançou uma parcela expressiva da população, que dependia dos serviços oferecidos pelo banco para movimentar seus recursos. Além disso, a instituição administrava aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos, circunstância que ampliou as preocupações sobre a fiscalização do sistema financeiro e a proteção do dinheiro pertencente ao Estado.
O episódio também provocou questionamentos sobre a relação entre o setor privado e as autoridades paraguaias, principalmente porque Santiago Peña foi sócio do grupo controlador do Ueno até março de 2025. Embora o presidente tenha deixado essa participação empresarial antes da intervenção, sua ligação anterior com os proprietários da instituição passou a ser explorada pelos adversários políticos como um dos elementos centrais das denúncias. Nesse cenário, a crise deixou de representar apenas um problema bancário e passou a ameaçar a estabilidade política do governo, colocando em discussão a responsabilidade das autoridades pela fiscalização das instituições financeiras.
Fechamento do banco Ueno provoca filas e crise financeira no Paraguai
A intervenção no Ueno foi determinada pelo Banco Central do Paraguai depois que foram identificadas irregularidades relacionadas à situação financeira da instituição, especialmente problemas nos indicadores de solvência e operações de crédito consideradas suspeitas. Segundo informações divulgadas posteriormente, o banco apresentava um nível de capital inferior ao mínimo exigido pelas normas regulatórias, situação que levou as autoridades a iniciar o processo de liquidação e suspender suas atividades. A medida buscava impedir que os problemas financeiros se agravassem, entretanto, deixou milhões de correntistas sem acesso imediato aos depósitos e provocou uma reação de preocupação entre os consumidores.
A situação se tornou ainda mais delicada quando clientes começaram a procurar agências para tentar retirar dinheiro, enquanto dificuldades registradas em aplicativos de outras instituições aumentaram o temor de que a crise pudesse atingir todo o sistema bancário. Em Assunção, capital do Paraguai, manifestações foram realizadas por pessoas que exigiam esclarecimentos e a devolução dos valores bloqueados, incluindo recursos destinados à aposentadoria e às despesas familiares. Embora a Associação de Bancos do Paraguai tenha afirmado que as demais instituições continuavam funcionando normalmente, o episódio demonstrou como a perda de confiança em uma instituição pode provocar reações que ultrapassam os limites de uma única empresa.
Para reduzir os impactos sobre os clientes, o governo de Santiago Peña promulgou uma legislação destinada a acelerar a liberação de recursos protegidos pelo mecanismo de garantia de depósitos, estabelecendo a possibilidade de pagamentos de até quarenta salários mínimos mensais em até cinco dias úteis, conforme as condições previstas. Entretanto, a proteção oferecida não significa necessariamente que todos os clientes terão acesso imediato à totalidade dos valores mantidos na instituição, especialmente nos casos de depósitos superiores aos limites garantidos. Por isso, a situação passou a exigir atenção não apenas dos consumidores diretamente afetados, mas também das autoridades responsáveis por esclarecer como será realizada a restituição dos recursos e qual será o destino dos valores que ultrapassarem a cobertura legal.
Pedido de impeachment contra Santiago Peña aumenta pressão política
A crise bancária ganhou uma dimensão ainda maior quando 35 deputados da oposição apresentaram formalmente um pedido de impeachment contra o presidente Santiago Peña e seu vice, acusando integrantes do governo de possíveis irregularidades relacionadas à administração e à fiscalização do Ueno. Entre os argumentos apresentados estão suspeitas de conflito de interesses, manipulação de regras regulatórias, utilização indevida de recursos previdenciários e suposto favorecimento da instituição por meio de decisões do Banco Central. Os parlamentares também questionaram a concessão de empréstimos acima dos limites permitidos e apontaram possíveis falhas na fiscalização que deveriam ter impedido o agravamento da situação financeira do banco.
Um dos principais pontos de contestação envolve a antiga participação empresarial de Peña no grupo proprietário da instituição, uma relação que passou a ser utilizada pela oposição para questionar a independência das decisões governamentais. O presidente, que assumiu o comando do Paraguai em 2023 e possui formação em economia, afirmou que os responsáveis pelas irregularidades deverão responder perante a Justiça, enquanto o governo anunciou medidas para proteger os depositantes e acelerar a recuperação dos valores garantidos. Apesar da apresentação do pedido, a abertura de um processo de impeachment depende de uma maioria qualificada de dois terços na Câmara dos Deputados, o que torna incerto o avanço da iniciativa diante da composição política do Congresso.
Investigação sobre o Ueno pode ampliar consequências para o governo
As consequências da intervenção também alcançaram os dirigentes da instituição e integrantes da estrutura de fiscalização financeira, uma vez que o Ministério Público paraguaio formalizou acusações contra 27 pessoas supostamente relacionadas às irregularidades investigadas. Além disso, oito executivos e dirigentes ligados ao banco foram presos, incluindo nomes importantes da administração, enquanto medidas judiciais determinaram o bloqueio de bens para preservar possíveis recursos relacionados às investigações. A crise também provocou a renúncia de Carlos Carvallo, então presidente do Banco Central, depois que Peña solicitou sua saída em meio ao aumento das cobranças por explicações.
O caso representa um teste importante para as instituições paraguaias, pois envolve simultaneamente a proteção dos consumidores, a fiscalização bancária, a administração de recursos públicos e a responsabilidade política das autoridades que deveriam garantir a estabilidade financeira do país. Embora o Banco Central tenha sustentado que o restante do sistema financeiro apresenta níveis adequados de solvência e liquidez, a confiança dos correntistas dependerá da transparência das investigações e da capacidade de devolver os recursos bloqueados dentro dos prazos estabelecidos. Enquanto isso, Santiago Peña terá de enfrentar a pressão parlamentar e explicar a relação entre o governo e o grupo controlador do Ueno, ao mesmo tempo que tenta impedir que o escândalo bancário se transforme em uma crise institucional ainda mais profunda.





