A crise gerada no Paraguai por causa do banco digital Ueno também está atingindo alguns brasileiros

A crise bancária que atingiu o Paraguai começou a produzir consequências concretas para brasileiros que vivem, trabalham e mantêm negócios no país vizinho. Com a liquidação do Ueno Bank, uma das principais instituições financeiras paraguaias, milhares de correntistas ficaram sem acesso às próprias economias, enquanto empresários passaram a enfrentar dificuldades para movimentar recursos, pagar funcionários e manter suas atividades comerciais. Entre os atingidos estão um empresário brasileiro que mantinha mais de R$ 200 mil na instituição, uma cambista que perdeu o acesso ao dinheiro reservado para as férias de fim de ano e um pequeno empreendedor que teve parte do capital de giro comprometida.
Os relatos mostram como uma crise inicialmente concentrada no setor financeiro pode alcançar rapidamente diferentes segmentos da economia e prejudicar pessoas que não participaram das operações responsáveis pelo colapso da instituição. Além disso, o episódio expõe os riscos enfrentados por brasileiros que decidiram transferir suas economias para o Paraguai, atraídos pelas facilidades para abrir contas, pelos custos operacionais menores e pelas oportunidades comerciais oferecidas pelo país. Embora as autoridades paraguaias tenham anunciado medidas para proteger os correntistas, a falta de acesso imediato aos recursos representa um problema especialmente grave para quem depende do dinheiro depositado para manter empresas e pagar despesas cotidianas.
A situação também ganhou dimensão internacional porque o Paraguai abriga uma comunidade brasileira numerosa, estimada pelo Itamaraty em aproximadamente 270 mil pessoas. Muitos desses brasileiros trabalham no comércio, administram pequenas empresas, atuam na prestação de serviços ou realizam operações de importação e exportação entre os dois países, mantendo contas bancárias para facilitar pagamentos e recebimentos. Portanto, o fechamento do Ueno Bank não representa apenas um problema para investidores e grandes empresários, mas também uma ameaça à estabilidade financeira de trabalhadores, comerciantes e famílias que construíram suas vidas no território paraguaio.
Crise no Paraguai: empresário brasileiro enfrenta prejuízo superior a R$ 200 mil
Um dos casos mais expressivos é o do empresário brasileiro Pedro Treméa, de 61 anos, proprietário de uma empresa de refrigeração em Ciudad del Este, cidade paraguaia localizada na região da Tríplice Fronteira. Ele utilizava o Ueno Bank para movimentar parte dos recursos necessários ao funcionamento da empresa e descobriu que o dinheiro mantido na instituição havia ficado bloqueado depois da intervenção das autoridades financeiras. Segundo o empresário, o valor comprometido ultrapassa o limite de cobertura oferecido pelo Fundo de Garantia de Depósitos do Paraguai, situação que aumenta a incerteza sobre quanto poderá ser recuperado.
O mecanismo de proteção dos correntistas paraguaios estabelece uma cobertura de até 228,3 milhões de guaranis por pessoa e por instituição financeira, quantia equivalente a aproximadamente R$ 200 mil. Dessa maneira, os clientes que mantinham valores acima desse teto poderão depender de outras etapas do processo de resolução bancária para recuperar integralmente os recursos, sem garantia de recebimento imediato. Pedro explicou que conseguiu limitar parte dos danos porque sua empresa não concentrava todo o dinheiro em uma única instituição, mantendo contas em dois ou três bancos diferentes para atender clientes de diversas regiões.
Apesar dessa precaução, os efeitos da crise ultrapassam o saldo bloqueado e atingem diretamente o planejamento comercial da empresa, que importa produtos do Brasil e realiza operações utilizando reais e dólares. Além disso, a instabilidade provocou uma forte oscilação na cotação da moeda americana, que, segundo o relato publicado pelo g1, passou de aproximadamente 5.900 para 6.500 guaranis em apenas 24 horas, aumentando as dificuldades para quem precisa negociar mercadorias e organizar pagamentos internacionais. O empresário também informou que funcionários de sua companhia possuíam contas no Ueno Bank, atraídos pela facilidade de abertura de contas digitais e pela oferta de cartões de crédito, ampliando o alcance dos problemas dentro da própria estrutura empresarial.
Crise bancária no Paraguai deixa cambista sem dinheiro das férias
Outra brasileira diretamente prejudicada é Dalma Morinigo, de 31 anos, que mora há quatro anos em Ciudad del Este e trabalha em uma casa de câmbio. Ela mantinha na instituição financeira um valor superior a R$ 7 mil, convertido em guaranis, que havia sido reservado para financiar suas férias de fim de ano, mas perdeu o acesso ao dinheiro depois que os serviços bancários foram suspensos. Além de guardar suas economias no banco, Dalma utilizava a conta para receber pagamentos de clientes, o que tornou o bloqueio ainda mais complicado para sua organização financeira.
A brasileira contou que escolheu o Ueno Bank principalmente pela facilidade de abertura da conta, pela variedade de serviços digitais e pela presença de caixas eletrônicos em diferentes pontos da cidade. Entretanto, um detalhe chamou sua atenção: poucos dias antes da liquidação, a instituição oferecia uma campanha de reembolso de 50% sobre determinados valores mantidos nas contas, promoção que, segundo ela, teria incentivado clientes a conservar seus recursos no banco. Quando tentou consultar o saldo depois de receber a notícia da intervenção, encontrou dificuldades para acessar o aplicativo e percebeu que não conseguia movimentar o dinheiro que havia economizado durante meses.
Diante da situação, Dalma afirmou que não encontrou alternativa imediata além de aguardar as providências das autoridades e demonstrou desconfiança em relação aos prazos divulgados para a devolução dos valores. Seu caso revela uma consequência frequentemente esquecida em grandes crises financeiras: mesmo quando existe um mecanismo legal de proteção aos depósitos, o bloqueio temporário pode comprometer planos pessoais e despesas que já estavam programadas. Além disso, a situação evidencia que trabalhadores que utilizavam o banco para receber pagamentos também foram atingidos, pois a interrupção dos serviços dificultou tanto o acesso às economias quanto a movimentação financeira necessária para continuar trabalhando.
Crise no Paraguai também atinge pequenos negócios e provoca crise política
O impacto sobre os empreendedores brasileiros também aparece no relato de Marcelo Bernard, de 26 anos, proprietário de uma oficina em Presidente Franco, município próximo a Ciudad del Este e à fronteira com o Brasil. Morando no Paraguai há dois anos, ele tinha aproximadamente 5 milhões de guaranis depositados no Ueno Bank, quantia equivalente a cerca de R$ 4,5 mil, que ficou indisponível depois da intervenção. Apesar do prejuízo, Marcelo afirmou que a situação poderia ter sido muito pior caso mantivesse todo o capital de giro da oficina na instituição, uma vez que parte dos pagamentos recebidos no país ainda é realizada em dinheiro vivo.
O empresário também relatou um ambiente de revolta entre os moradores, que cobram explicações e punições rigorosas para os responsáveis pelo colapso financeiro. A insatisfação popular aumentou porque o Ueno Bank possuía aproximadamente 3 milhões de clientes e representava uma instituição importante para a movimentação de recursos de famílias e empresas paraguaias. Nesse cenário, a crise deixou de ser apenas uma questão relacionada à administração de um banco e passou a atingir diretamente a confiança nas autoridades, na fiscalização financeira e nas condições oferecidas pelo país para quem deseja investir.
A origem do problema está na deterioração da situação financeira do Ueno Bank, cujo índice de solvência caiu para 5,56%, menos da metade dos 12% exigidos pela regulamentação paraguaia, levando o Banco Central a intervir na instituição em 3 de novembro. As investigações também apontaram suspeitas de operações de crédito envolvendo empresas relacionadas ao grupo controlador, enquanto a liquidação e a suspensão dos serviços deixaram milhões de clientes sem acesso às contas, provocando uma crise que alcançou o governo do presidente Santiago Peña. O episódio culminou na renúncia anunciada por Peña em 5 de novembro, mas a crise política continuou em andamento, com o Congresso examinando o processo de impeachment e as autoridades buscando estabelecer mecanismos para ressarcir os correntistas, enquanto os brasileiros afetados aguardam a recuperação de suas economias.





