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Alexandre de Moraes tem documento para usar contra André Mendonça

A crise envolvendo os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça ganhou um novo capítulo nesta quinta-feira, 3 de setembro de 2026, depois que informações de um relatório interno da Polícia Federal foram utilizadas para fundamentar questionamentos sobre a atuação de Mendonça no caso Banco Master. O ponto que mais chamou atenção foi a própria advertência contida no documento, segundo a qual o material não teria valor probatório nem deveria ser considerado uma peça de instrução processual. A informação foi divulgada pelo colunista Matheus Teixeira, da CNN Brasil, em reportagem publicada nesta sexta-feira, 4 de setembro.

De acordo com o relato apresentado por Matheus Teixeira, o documento utilizado por Moraes não estava em papel timbrado da Polícia Federal e também não apresentava assinatura de delegado ou de outro profissional da corporação. O relatório teria sido produzido como material de inteligência, reunindo análises, hipóteses e informações obtidas de fontes cuja identidade não foi apresentada. Assim, a utilização desse conteúdo para sustentar acusações contra um integrante do próprio Supremo Tribunal Federal passou a levantar questionamentos sobre os limites entre inteligência policial, elemento informativo e prova juridicamente utilizável.

O episódio ocorreu em Brasília e está relacionado às investigações envolvendo o Banco Master e a Operação Sem Desconto, além de outros procedimentos acompanhados por Mendonça no Supremo. Na decisão de Moraes, foram apontados possíveis indícios de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade atribuídos ao colega de Corte. Entretanto, é importante destacar que a existência de um pedido de investigação ou de suspeitas apresentadas em uma decisão não significa que os crimes tenham sido comprovados, especialmente quando parte relevante das informações utilizadas é classificada no próprio relatório como de baixa confiabilidade.

Moraes usa contra Mendonça relatório da PF e questionamentos aumentam

O relatório citado por Moraes possui aproximadamente 50 páginas e foi elaborado paralelamente às investigações relacionadas ao Banco Master e à Operação Sem Desconto. Segundo as informações divulgadas, o material examinou decisões e procedimentos atribuídos a Mendonça, incluindo a condução de medidas investigativas e sua relação institucional com integrantes da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República. Contudo, o próprio documento estabelece que se trata de uma produção de inteligência destinada a subsidiar avaliações em um ambiente de informações incompletas.

Outro aspecto relevante está na classificação das informações reunidas pelos responsáveis pelo relatório. Em diversas passagens, foram utilizados níveis de confiança considerados baixos ou moderados, enquanto determinados relatos foram apresentados a partir de fontes não identificadas e sem documentação capaz de confirmar imediatamente as afirmações. Dessa maneira, o material deve ser compreendido dentro da lógica de inteligência, na qual hipóteses podem ser analisadas antes de uma eventual confirmação, e não como uma prova produzida segundo as exigências de um procedimento judicial.

O próprio texto ainda teria registrado que nenhum dos juízos apresentados permitiria, por si só, uma conclusão sobre eventual responsabilidade funcional. Esse detalhe é especialmente importante porque o relatório acabou sendo associado a uma decisão na qual Moraes apontou possíveis irregularidades na atuação de Mendonça. Portanto, a controvérsia não está apenas no conteúdo das suspeitas, mas também na natureza do documento que foi utilizado como fundamento para provocar uma nova apuração dentro da estrutura do STF.

Relatório sem valor probatório coloca STF diante de novo conflito

A situação se tornou ainda mais delicada porque André Mendonça ocupa uma posição central em investigações relacionadas ao Banco Master. Nos últimos meses, o ministro autorizou medidas solicitadas pela Polícia Federal, incluindo ações da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de crimes financeiros, lavagem de dinheiro, corrupção e organização criminosa relacionados à instituição financeira. Em abril, por exemplo, o STF informou que Mendonça havia determinado prisões preventivas de investigados no caso, após pedido da PF e manifestação favorável da Procuradoria-Geral da República.

A atuação de Mendonça também havia sido registrada oficialmente pelo Supremo em outras etapas da investigação, inclusive na autorização de novas fases da Compliance Zero e na condução de medidas envolvendo diferentes investigados. Por isso, a disputa agora envolve não apenas dois ministros do STF, mas também a forma como investigações de grande repercussão são conduzidas e supervisionadas. Nesse cenário, qualquer questionamento sobre eventual interferência, direcionamento ou uso inadequado de informações tende a produzir efeitos institucionais relevantes.

O caso também chama atenção porque o próprio STF vem discutindo, em diferentes processos, os critérios para utilização de informações produzidas por órgãos de inteligência e investigação. Em março de 2026, por exemplo, Moraes estabeleceu parâmetros para o uso de Relatórios de Inteligência Financeira do Coaf e destacou a necessidade de critérios para impedir a chamada pesca probatória. Embora o relatório da PF mencionado agora seja de natureza diferente, o debate reforça a importância de separar informações preliminares, elementos de investigação e provas capazes de sustentar uma responsabilização formal.

O que pode acontecer depois da decisão de Moraes

A consequência imediata do episódio é a abertura de uma nova frente de apuração sobre a atuação de André Mendonça. Conforme relatado pelo Poder360, o presidente do STF, Edson Fachin, recebeu o pedido de Moraes e abriu um procedimento, estabelecendo prazo de cinco dias úteis para que Moraes, Mendonça, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, apresentem informações. A partir dessas manifestações, o caso poderá ganhar novos elementos e permitir que as acusações sejam confrontadas com documentos e versões dos envolvidos.

No entanto, a principal questão continuará sendo a diferença entre uma informação de inteligência e uma prova formalmente produzida. O fato de um relatório ter sido elaborado dentro da estrutura da Polícia Federal não significa automaticamente que todas as informações nele contidas possuam o mesmo grau de confiabilidade ou possam ser utilizadas para demonstrar responsabilidade jurídica. Por isso, o episódio envolvendo Moraes e Mendonça deverá ser acompanhado com atenção, especialmente porque seus desdobramentos podem influenciar não apenas as investigações do Banco Master, mas também a própria relação institucional entre integrantes da mais alta Corte do país.

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Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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