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Aposta de Lula nas redes, deputada mais votada do PT vira dor de cabeça por postagens antigas

Com apenas 21 anos e milhões de seguidores nas redes sociais, a deputada eleita Ana Elisa foi convidada pela campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para liderar uma renovação na estratégia digital petista. A ideia era equilibrar a disputa com o bolsonarismo no ambiente online e aproximar o presidente do eleitorado mais jovem. Os primeiros sinais dessa nova fase foram os vídeos do próprio Lula gravados em formato de selfie, numa tentativa de tom mais próximo e informal. Mas antes mesmo que essa aposta pudesse se consolidar, postagens antigas da parlamentar voltaram a circular, criando um contratempo justamente entre os públicos que a campanha busca fortalecer neste segundo turno.

A oposição resgatou publicações feitas entre 2020 e 2026. Entre os conteúdos compartilhados, há uma mensagem de 2024 com tom de crítica generalizada: “Kkkkkkkkkkkkkkkkk, odeio branco”. Em outra, de 2025, ela manifestou apoio a restrições em plataformas digitais: “pois eu já não vejo a hora do Xandão bloquear, Instagram, Facebook, e WhatsApp, por favor, TORNE REAL!”. Ainda no mesmo ano, em tom de forte oposição política, escreveu: “Hoje, finalmente assisti ‘Ainda estou aqui’, e só tenho uma coisa a dizer, quem ainda apoia a direita, merece putrificar nesse tal inferno, que os ‘crentes’ tanto acreditam!”.

Em nota oficial, a assessoria de Ana Elisa reconheceu que ela é autora das mensagens, mas argumentou que “posts antigos e autênticos também foram tirados de contexto”. A campanha da deputada, porém, negou que ela tenha escrito uma mensagem específica compartilhada pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), na qual seria defendido o fechamento de templos religiosos. Até o momento desta publicação, a assessoria do parlamentar não havia se pronunciado sobre a contestação.

O episódio acontece em um momento em que o próprio presidente Lula já havia avaliado, em conversas com aliados, que a campanha ao primeiro turno não atingiu o potencial esperado. “Acho que nós fizemos uma campanha aquém da minha possibilidade, poderíamos ter feito mais. Disse para o Edinho (presidente do PT) que essa foi a campanha menos organizada que participei desde 1989”, admitiu o presidente no início da semana. A situação com as postagens resgatadas acrescenta mais um desafio à comunicação do segundo turno.

Para Sergio Denicoli, cientista de dados e CEO da AP Exata, o caso revela uma falha na preparação da estratégia digital do PT. “O Lula não conseguiu se comunicar com os jovens durante a campanha inteira, chegou ao segundo turno atrás, buscou uma deputada que foi muito bem votada, que é jovem, só que alçaram essa parlamentar a um patamar para tentar agregar esse público e não checaram que ela tem posições muito radicais e de divisão: divisão racial, por exemplo, divisão religiosa. Isso afasta mais do que agrega, porque é uma pessoa com posições que não vão trazer novos públicos. Eu acho que um perfil que divide não é o perfil de que o Lula realmente precisa. E o Lula segue sem conseguir entender a lógica da comunicação para os jovens”, avaliou o especialista.

Ana Elisa, eleita com mais de meio milhão de votos, decidiu desativar sua conta na rede social X. Em pronunciamento na quinta-feira (8), relatou estar recebendo ataques pessoais intensos: “A minha equipe desativou minha conta no Twitter porque nós estávamos recebendo ameaça de morte e de estupro a cada dois minutos. Estou totalmente vulnerável. Eu, por enquanto, não tenho uma força-tarefa de segurança”. A deputada tem o direito de se sentir protegida e respeitada, e ameaças contra qualquer pessoa são inaceitáveis e devem ser repudiadas por todos os lados.

Com a conta desativada, a verificação da data exata de todas as mensagens tornou-se mais difícil, embora cópias arquivadas continuem circulando. Seja qual for o contexto ou a época em que foram escritas, as postagens reacenderam o debate sobre como figuras públicas são percebidas e como declarações feitas anos atrás podem ressoar em momentos decisivos. A campanha eleitoral é também um espaço onde cada candidato e cada colaborador são convidados a esclarecer posições, assumir equívocos quando for o caso e demonstrar que evoluem. Que este episódio sirva de aprendizado: comunicação eficaz não é apenas sobre chegar ao público, mas sobre construir pontes que unam em vez de separar.

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Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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