Capturas de tela constam no relatório da Polícia Federal que teve o sigilo quebrado

A Polícia Federal revelou novas conversas entre o senador Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro relacionadas à captação de recursos para o filme Dark Horse, produção sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. As mensagens, ligações e registros analisados pelos investigadores mostram que Flávio não apenas aparece citado por terceiros, mas manteve contato direto com Vorcaro em diferentes momentos das negociações. O material foi tornado público depois que o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, retirou o sigilo de documentos da investigação.
Segundo o relatório policial, as tratativas começaram antes mesmo de Flávio e Vorcaro estabelecerem uma comunicação frequente diretamente pelo celular. Em dezembro de 2024, o publicitário Thiago Miranda intermediou um encontro entre os dois, apresentando a Vorcaro o projeto do filme, que naquele momento ainda era tratado como “filme do presidente”. Posteriormente, Mário Frias também passou a participar das conversas, enquanto um contrato apresentado à investigação estabelecia um investimento de US$ 24 milhões para a produção.
A partir de 2025, a cobrança por pagamentos passou a aparecer repetidamente nas mensagens analisadas pela PF. O relatório aponta que Flávio acompanhava a situação dos repasses e chegou a cobrar diretamente Vorcaro quando parcelas destinadas ao filme não eram realizadas no prazo previsto. A investigação busca agora esclarecer a origem, o caminho e a destinação dos valores envolvidos, sem que as suspeitas levantadas até o momento representem uma conclusão definitiva sobre eventual crime cometido pelos envolvidos.
Conversas mostram cobrança de recursos para o filme
Um dos episódios destacados pela Polícia Federal ocorreu em setembro de 2025, quando Flávio enviou um áudio a Vorcaro cobrando pagamentos relacionados à produção de Dark Horse. Segundo o relatório, o senador demonstrou preocupação com a possibilidade de o filme não conseguir honrar compromissos com o ator Jim Caviezel e com o diretor Cyrus Nowrasteh. Vorcaro respondeu que tentaria resolver a situação e, no dia seguinte, os dois fizeram uma ligação que durou pouco mais de dois minutos.
As mensagens também indicam que a pressão sobre os pagamentos continuou nos meses seguintes, mesmo depois de novas remessas terem sido realizadas. Em outubro, Flávio informou que as gravações já estavam no terceiro dia e afirmou que seria necessário encontrar rapidamente outra solução caso Vorcaro não conseguisse liberar os recursos. Na mesma ocasião, o senador convidou o empresário para um jantar com integrantes da equipe do filme, demonstrando que a relação entre os dois também envolvia encontros presenciais e contatos sobre o andamento da produção.
A PF identificou ainda uma sequência de cobranças feitas por Thiago Miranda a Vorcaro para que parcelas previstas no financiamento fossem liberadas. Em determinado momento, mensagens encaminhadas por Flávio também foram utilizadas para pressionar pela conclusão dos pagamentos, enquanto uma planilha denominada “Funding Schedule – Havengate Dev Fund” registrava previsões e parcelas que ainda precisavam ser quitadas. O relatório policial aponta que a última remessa identificada ocorreu em setembro de 2025, embora novas cobranças tenham continuado depois disso.
PF analisa caminho do dinheiro enviado ao exterior
A investigação não se limita ao conteúdo das conversas, porque a Polícia Federal também acompanha as movimentações financeiras relacionadas ao financiamento de Dark Horse. Segundo relatório citado pela CNN Brasil, a empresa Entre Investimentos e Participações realizou transferências que somaram US$ 12,33 milhões para o fundo Havengate durante 2025. Os valores apresentam correspondência com parcelas previstas em um acordo de financiamento de US$ 24 milhões para a produção cinematográfica.
O Havengate passou a chamar atenção dos investigadores porque havia sido criado originalmente para uma finalidade imobiliária nos Estados Unidos e permaneceu sem atividade operacional por quase quatro anos. A PF apontou que o fundo voltou a receber movimentações em fevereiro de 2025, justamente quando começaram transferências relacionadas ao financiamento do filme. Para os investigadores, essa circunstância precisa ser esclarecida para determinar por que um veículo originalmente estruturado para outra finalidade foi utilizado nas operações associadas à produção.
Uma das transferências destacadas no relatório ocorreu em 13 de fevereiro de 2025, quando US$ 2 milhões foram enviados da Entre Investimentos para o Havengate. Antes da operação, Vorcaro havia conversado com seu cunhado, Fabiano Zettel, sobre dificuldades para realizar o pagamento e sugerido que a operação fosse feita “via Entre”. O comprovante posteriormente encaminhado a Vorcaro foi relacionado por Zettel ao pagamento destinado ao filme, segundo os documentos analisados pela PF.
Flávio aparece como interlocutor direto de Vorcaro
A importância das mensagens está também no papel atribuído pela PF a Flávio Bolsonaro dentro das tratativas. Em representação enviada ao STF, os investigadores afirmaram que o senador aparece como interlocutor direto de Vorcaro em assuntos relacionados ao financiamento, incluindo cobranças, reuniões e acompanhamento das gravações. A conclusão foi baseada no conjunto de mensagens e ligações encontrado nos dados analisados pelos investigadores.
Flávio reconheceu anteriormente que procurou Vorcaro para tratar de recursos destinados ao filme, mas sustenta que não houve irregularidade na relação. O senador também afirmou que os recursos obtidos junto ao empresário foram integralmente destinados à produção e defendeu a divulgação dos documentos que estavam sob sigilo. Com a abertura do material, a investigação passou a apresentar publicamente uma cronologia mais detalhada dos contatos, pagamentos e cobranças relacionados ao projeto.





