Daniel Vorcaro busca uma forma de deixar a cadeia e poderá fazer delações bombásticas

Daniel Vorcaro mudou a estratégia durante um depoimento prestado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, e passou a mirar integrantes do governo Luiz Inácio Lula da Silva em sua tentativa de obter uma delação premiada. A informação foi publicada pelo UOL, em reportagem assinada pelos colunistas Cézar Feitoza e Fabio Serapião, que tiveram acesso à íntegra da oitiva realizada no gabinete de Mendonça. Segundo o relato apresentado pelo ex-banqueiro, sua colaboração poderia envolver pessoas ligadas ao atual governo e também o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
O depoimento ocorreu em 27 de agosto, após duas tentativas anteriores de negociação com a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República não avançarem. Dessa vez, Vorcaro procurou apresentar-se como alguém que teria buscado proteção política depois de mudanças regulatórias que, segundo sua própria versão, teriam prejudicado os negócios do Banco Master. Por isso, ele afirmou que passou a se aproximar de autoridades em Brasília e que, nesse processo, teria cometido erros e estabelecido relações que pretendia revelar às autoridades.
O movimento ganhou peso porque Vorcaro tentou obter apoio de Mendonça justamente enquanto o ministro conduz investigações relacionadas ao caso Banco Master. Ao mencionar integrantes do governo Lula e possíveis irregularidades, o banqueiro criou uma nova frente de pressão política em torno de sua negociação por benefícios judiciais. No entanto, é importante destacar que as acusações foram apresentadas pelo próprio Vorcaro e, segundo o UOL, ele não apresentou novas provas capazes de sustentar as informações durante o depoimento.
Vorcaro mira integrantes do governo Lula
Durante a oitiva, Vorcaro afirmou que sua eventual colaboração teria como foco pessoas do núcleo do atual governo com quem havia estabelecido relações enquanto buscava proteção para seus negócios. O banqueiro declarou que algumas dessas relações poderiam envolver situações que ultrapassariam padrões de moralidade e, em determinados casos, poderiam ter ocorrido atos ilícitos. A declaração, contudo, não equivale à comprovação de crimes e deverá ser confrontada com documentos, depoimentos e outros elementos de investigação.
Segundo o material obtido pelos colunistas Cézar Feitoza e Fabio Serapião, Vorcaro também afirmou que mudanças regulatórias ocorridas entre 2022 e 2023 teriam afetado o Banco Master e provocado uma busca por interlocução política. Ele relatou que passou a procurar pessoas consideradas relevantes no Banco Central e no meio político para explicar sua visão sobre as medidas que, segundo ele, prejudicavam a instituição. Nesse contexto, o banqueiro disse ter promovido eventos e ampliado sua rede de contatos como uma forma de tentar preservar o banco.
A estratégia apresentada por Vorcaro incluiu ainda uma acusação direta contra Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal. O banqueiro alegou que mantinha uma relação cordial com Rodrigues, marcada por encontros em eventos sociais e ligados ao setor financeiro, e afirmou que pretendia abordar essa relação em uma possível delação. Rodrigues foi procurado pelo UOL, mas não havia se manifestado até a publicação da reportagem.
Tentativa de obter apoio de André Mendonça
A aproximação com André Mendonça ocorreu em um momento particularmente sensível para Vorcaro, que buscava construir uma nova tentativa de colaboração depois de duas negociações frustradas. O banqueiro havia passado a ser representado pelo advogado Daniel Bialski e, segundo o depoimento, pretendia apresentar uma narrativa diferente daquela que havia levado anteriormente à PF e à PGR. Para ele, entretanto, a presença de autoridades que poderiam ser citadas na delação dificultaria a própria negociação com os órgãos responsáveis pelo acordo.
Vorcaro também afirmou que não acreditava ser possível prestar uma colaboração envolvendo pessoas que, na visão dele, poderiam estar relacionadas ao ambiente institucional responsável por avaliar seu acordo. Essa alegação foi usada para explicar por que as tentativas anteriores não teriam prosperado, embora PF e PGR tenham apontado insuficiência nas informações apresentadas. Assim, a estratégia passou a concentrar a narrativa no suposto conhecimento de fatos envolvendo integrantes do governo e membros da própria estrutura policial.
A tentativa de sensibilizar Mendonça, entretanto, não produziu o resultado esperado por Vorcaro. Depois do depoimento, a Procuradoria-Geral da República rejeitou novamente a possibilidade de um acordo de colaboração, argumentando que o banqueiro não apresentou informações novas ou provas suficientes para justificar uma nova negociação. Dessa maneira, a promessa de revelar fatos sobre integrantes do governo Lula permaneceu, até o momento, como parte de uma narrativa ainda sem comprovação independente apresentada no depoimento.
Delação de Vorcaro aumenta tensão no caso Master
O episódio acrescentou uma nova dimensão à crise provocada pelas investigações sobre o Banco Master, porque Vorcaro passou a indicar que poderia atingir diferentes setores do poder público caso sua delação avançasse. A mudança de estratégia ocorreu justamente quando o caso já provocava forte tensão no Supremo Tribunal Federal e levantava questionamentos sobre relações mantidas pelo banqueiro com autoridades. Com isso, qualquer eventual acordo poderá produzir consequências políticas relevantes caso sejam apresentados elementos concretos que confirmem as acusações.
Por enquanto, porém, é necessário separar ameaça de delação e prova efetiva de irregularidade, já que o próprio UOL registrou que Vorcaro não apresentou novas evidências durante o depoimento. O banqueiro afirmou que poderia revelar relações com pessoas do governo Lula e com o chefe da Polícia Federal, mas a PGR considerou insuficiente o material levado à mesa de negociação. Portanto, o futuro dessa tentativa de colaboração dependerá da apresentação de provas verificáveis e da avaliação das autoridades responsáveis pela investigação.





