Eleitores americanos votarão no próximo dia 3 para a composição do Senado e da Câmara dos Estados Unidos

A possível aproximação entre Donald Trump e Flávio Bolsonaro poderá enfrentar obstáculos políticos nos Estados Unidos, mesmo que o senador brasileiro vença o segundo turno da eleição presidencial, marcado para 25 de outubro. Em coluna publicada no UOL neste sábado (10), a jornalista Mariana Sanches analisou como as eleições legislativas americanas, previstas para 3 de novembro, podem influenciar os planos de uma parceria estratégica entre os dois políticos. O resultado da disputa pelo Congresso dos Estados Unidos será importante porque a concretização de algumas propostas defendidas por Flávio depende da aprovação de parlamentares americanos.
Atualmente, o Partido Republicano, de Trump, possui maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, situação que facilita a implementação de iniciativas do presidente. Entretanto, pesquisas eleitorais apontam dificuldades para os republicanos nas eleições legislativas, enquanto os democratas aparecem em vantagem na disputa pela Câmara. Caso a oposição conquiste uma ou ambas as Casas, a administração Trump poderá encontrar maior resistência para avançar em sua agenda internacional.
Segundo a análise publicada por Mariana Sanches, o cenário político americano também é influenciado pela avaliação do governo Trump entre os eleitores. A coluna menciona uma aprovação de 30% para o presidente e uma pesquisa do Pew Research segundo a qual 63% dos entrevistados consideram Trump um fator importante na escolha de seus representantes no Congresso. Nesse levantamento, 44% disseram enxergar o voto como uma manifestação contrária ao presidente, enquanto 19% o consideraram uma forma de apoio.
Acordos comerciais dependem do Congresso americano
Um dos principais objetivos anunciados por Flávio Bolsonaro é estabelecer um acordo de livre comércio entre Brasil e Estados Unidos. No entanto, a legislação americana atribui ao Congresso poderes fundamentais sobre o comércio exterior e as tarifas, e acordos comerciais formais precisam passar pelas duas Casas legislativas. Dessa forma, uma eventual mudança na composição parlamentar poderá afetar o andamento de negociações entre os dois países.
Outra proposta associada ao senador é a criação de um tratado para evitar a bitributação, mecanismo relacionado à cobrança de impostos sobre uma mesma renda em mais de uma jurisdição. Conforme a coluna, esse tipo de tratado internacional formal exige aprovação do Senado americano por uma maioria de dois terços. A eventual perda de apoio republicano nessa Casa poderia tornar mais difícil reunir os votos necessários para avançar com a iniciativa.
A aproximação também inclui a possibilidade de cooperação militar por meio do chamado Escudo das Américas, iniciativa político-militar defendida por Trump para a região. Flávio já afirmou que pretende inserir o Brasil nessa articulação, mas esse tipo de parceria pode enfrentar questionamentos no Congresso dos Estados Unidos. Parlamentares democratas manifestaram interesse em convocar autoridades americanas, entre elas o secretário de Estado, Marco Rubio, e o secretário de Defesa, Pete Hegseth, para prestar esclarecimentos sobre ações envolvendo a Venezuela e o controle de seu petróleo.
Histórico mostra dificuldades em negociações entre Brasil e Estados Unidos
A coluna recorda que as dificuldades para ampliar a relação comercial entre os dois países já apareceram durante o primeiro governo Trump, quando Jair Bolsonaro ocupava a Presidência do Brasil. Em 2019, representantes dos dois governos discutiram a possibilidade de um acordo comercial abrangente, que também era desejado pelos presidentes. O então representante comercial americano, Robert Lighthizer, e o chanceler brasileiro Ernesto Araújo chegaram a conversar sobre o aprofundamento da parceria econômica.
A iniciativa, porém, enfrentou resistência de parlamentares democratas que controlavam a Câmara dos Representantes. Em junho daquele ano, 24 deputados democratas da Comissão de Orçamento e Tributos enviaram uma carta ao representante comercial dos Estados Unidos manifestando objeções à negociação de um acordo comercial amplo com o Brasil de Jair Bolsonaro. O episódio foi descrito pelo ex-embaixador brasileiro em Washington Rubens Ricupero como um sinal de que a maioria democrata poderia impedir avanços nas negociações.
A relação bilateral também acumulou novos pontos de tensão nos anos seguintes, conforme a análise de Mariana Sanches. Entre os episódios citados está a situação da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, que, segundo a coluna, está nos Estados Unidos com o visto cassado e não poderia retornar ao país caso deixasse o território americano. Parlamentares democratas também enviaram cartas ao secretário Marco Rubio questionando possíveis interferências na eleição brasileira e solicitando garantias de respeito à soberania nacional e ao resultado das urnas.
Disputa legislativa pode alterar os planos de uma eventual aliança
A possível mudança na composição do Congresso americano também poderia afetar iniciativas políticas e orçamentárias defendidas pela administração Trump. A coluna menciona um fundo de US$ 1 milhão liberado por Washington para ações relacionadas ao Supremo Tribunal Federal, medida que teria enfrentado objeções de parlamentares democratas antes de ser aprovada. Se os democratas assumirem o controle das duas Casas, poderão exercer maior influência sobre o orçamento e ampliar a fiscalização das decisões do governo.
Nesse contexto, a eventual vitória de Flávio Bolsonaro na eleição brasileira não garantiria, por si só, a implementação de todos os projetos de aproximação com Trump. O avanço de acordos comerciais, tratados tributários e iniciativas de cooperação militar dependeria também da correlação de forças políticas em Washington e das exigências legais americanas. Assim, as eleições legislativas de 3 de novembro poderão influenciar diretamente as condições para uma eventual parceria entre os dois governos.





