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Em delação premiada, empresário diz que conseguia dinheiro vivo para Vorcaro

A delação premiada de Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, trouxe novos detalhes sobre a movimentação financeira atribuída ao empresário Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Segundo o relato apresentado à Procuradoria-Geral da República (PGR), Freixo teria atuado como operador financeiro de Vorcaro, realizando remessas e obtendo grandes quantias em dinheiro vivo a pedido do banqueiro. Em algumas situações, conforme a delação, as cédulas eram transportadas em malas devido ao volume dos valores envolvidos.

O caso ganhou repercussão porque entre as operações atribuídas a Mineiro estão repasses destinados ao Havengate Development Fund, fundo sediado nos Estados Unidos que foi utilizado para financiar “Dark Horse”, produção cinematográfica sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. O fundo é administrado por Paulo Calixto, advogado ligado ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro, e autoridades levantaram a suspeita de que parte dos recursos poderia ter como destino o político. Contudo, o próprio delator afirmou que não sabia qual era a destinação final do dinheiro entregue a Vorcaro.

A informação foi publicada pelo repórter José Marques, da Folha de S.Paulo, e reproduzida pelo Estado de Minas em reportagem divulgada em 3 de setembro de 2026. De acordo com o material, a colaboração de Mineiro foi firmada com a PGR em agosto e posteriormente encaminhada ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), responsável por analisar a validação do acordo. Até a publicação da reportagem, a delação ainda não havia sido homologada.

Empresário que fez repasses a Dark Horse aparece como operador de Vorcaro

Segundo pessoas que tiveram conhecimento do conteúdo da colaboração, Mineiro se apresentou às autoridades como um operador financeiro de Daniel Vorcaro. O empresário mantinha uma relação antiga com o ex-banqueiro e participava de negócios em conjunto com ele, mas afirmou que, em determinado momento, passou a receber solicitações para executar operações consideradas “não ortodoxas”. Entre essas atividades estavam remessas sem lastro aparente e a obtenção de dinheiro em espécie.

Ainda conforme o relato, Vorcaro transferia bens ou recursos para empresas controladas por Mineiro, que então procurava outros operadores capazes de disponibilizar dinheiro vivo. Essas pessoas cobrariam uma taxa de aproximadamente 4% pela operação e entregariam as cédulas ao empresário. Depois disso, o dinheiro era colocado em malas e levado até Vorcaro, de acordo com a versão apresentada na delação.

O funcionamento descrito pelo empresário chama atenção porque envolve uma cadeia de movimentações que, segundo a investigação, dificultaria o rastreamento dos recursos. Entretanto, o relato de Mineiro não significa, por si só, que todas as operações tenham sido consideradas ilegais ou que o dinheiro tenha necessariamente sido utilizado em atividades criminosas. As afirmações ainda precisam ser confrontadas com documentos, registros financeiros e outros elementos que possam confirmar ou contestar o conteúdo da colaboração.

Repasses para o fundo ligado a Dark Horse

Entre as operações mencionadas está a transferência de recursos para o Havengate Development Fund, nos Estados Unidos, estrutura financeira utilizada para viabilizar “Dark Horse”. O filme aborda a trajetória de Jair Bolsonaro e passou a integrar o centro das discussões envolvendo as relações financeiras de Vorcaro com pessoas ligadas ao grupo político do ex-presidente. Segundo informações divulgadas sobre a investigação, pelo menos R$ 10 milhões teriam sido repassados ao fundo por empresas relacionadas a Mineiro.

O fundo é administrado por Paulo Calixto, advogado associado a Eduardo Bolsonaro, e os recursos chegaram aos Estados Unidos depois de negociações envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, segundo informações já divulgadas sobre o caso. Ainda assim, a delação não estabelece que Eduardo Bolsonaro tenha recebido pessoalmente os valores ou que tenha participado diretamente das operações descritas. Essa distinção é importante porque o próprio Mineiro declarou não saber qual era o destino final dos recursos que movimentava a pedido de Vorcaro.

A investigação da Polícia Federal já havia identificado a Entre Investimentos e Participações, empresa ligada a Mineiro, como uma espécie de braço operacional utilizado por Vorcaro para determinadas movimentações financeiras. Dessa maneira, a colaboração poderá ajudar os investigadores a reconstruir a origem, o caminho e o possível destino de recursos movimentados pelo grupo. O material também poderá esclarecer em quais momentos teria sido solicitado dinheiro vivo e quais pagamentos foram realizados por meio dessas operações.

O que acontece com a delação de Mineiro

A colaboração de Antônio Carlos Freixo Júnior foi fechada com a PGR em agosto e representa a segunda delação premiada firmada no âmbito das investigações relacionadas ao Banco Master. O primeiro acordo foi celebrado com João Carlos Mansur, ex-dono da gestora de fundos Reag, e o material também foi encaminhado ao ministro André Mendonça. A validade jurídica dos acordos depende da análise e posterior homologação pelo Supremo Tribunal Federal.

A defesa de Mineiro não se manifestou sobre o conteúdo da colaboração quando procurada pela reportagem, enquanto a defesa de Daniel Vorcaro afirmou não ter tido acesso à proposta e disse desconhecer o assunto. Portanto, as declarações atribuídas ao empresário devem ser tratadas como informações apresentadas por um colaborador, e não como fatos definitivamente comprovados pela Justiça. A partir de agora, documentos e demais evidências deverão ser analisados para verificar a consistência dos relatos e definir quais pontos poderão produzir consequências nas investigações do caso Master.

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Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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